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Vozes à solta

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vozesNoto por aí um certo cansaço como se estivéssemos no fim e não no início de um ano letivo. Direi que não será cansaço, mas algo próximo de desilusão, desencanto, despaixão. Por isso retomo um livro que pode acalentar sonhos, retomar expectativas. No meu cantinho de escrita já falei dele, ainda que rapidamente. O livro, “Vozes à solta, narrativas da escola”, de Angelina Carvalho, Edições Afrontamento, 2016.

Declaração de situação. Sempre fui um apaixonado pelos livros que leio; percorrem-me como eu os percorro, página a página. Entre um misto de curiosidade e outro de espanto, entre a certeza de onde estou e a dúvida das surpresas constantes. 

A leitura destas “vozes” despertou em mim um mundo e o seu contrário. Isto é, evidências de espanto, afinal são histórias pelas quais qualquer professor, qualquer pai enquanto encarregado de educação terá passado, visto, sentido. São de tal forma evidentes, óbvias para quem está na escola que se tornam um espanto, uma surpresa, um prazer quando colocadas desta forma (simples, direta) à nossa frente.

E estas vozes à solta são isso mesmo. Uma assumida evidência da proliferação de ideias, sentimentos e emoções, afetos e razões, casos e situações, tudo ao molho sobre o que é a escola. Particularmente e é aspecto determinante, a escola enquanto dimensão humana, portadora de uma cultura, repleta de sentimentos. Uma escola que deixa para traz o número e os indicadores e destaca os afetos, as relações, as pessoas, as famílias.

Apesar de as histórias serem recentes (não têm uma data, mas apontam quase todas para este século, pelos acontecimentos, pelas situações, pelas relações que se perspectivam) o interessante é que não o faz sob a perspectiva quantitativa, nem sequer legalista que tanto tem marcado, de forma bem vincada, este início de século na escola. Olha-se o quotidiano da escola pela voz de quem a sente e vive. Por vezes arreliado, é certo, mas não é desencanto, é compasso de espera à procura de outras alternativas. As vozes, mais não são que o sorriso que se expressa, pela sempre admiração de quem sente os alunos a crescer, a descobrirem-se. Pelo olhar e pela voz de quem os vive e sente, todos os dias, como se fosse único.

O livro fala-nos que os sonhos não podem esmorecer, apesar do cansaço, das frustrações, da vida. A escola continua a ser o único sítio para muitos (talvez até em excesso) alunos que só ali têm a atenção que pedem e merecem. O livro fala-nos de uma escola

(…) humanista, contemporânea, implicada nas aprendizagens e no percurso escolar, no desenvolvimento e na socialização de todas as crianças e de todos os jovens. Uma escola responsável, agregando e otimizando diversidades e complexidades, trabalhando com a incerteza, refletindo implicadamente, investindo, reconstruindo a partir dos erros, na reelaboração de práticas solidárias, numa responsabilidade partilhada.

Uma escola em que a criatividade e a qualidade substituem a mediocridade e o pessimismo instalados e institucionalizados. Uma escola protetora, um território aberto, contentor e inclusivo onde todas as crianças e jovens se sintam aceites, satisfeitos e em que a aprendizagem, para além de não ser negligenciada, é um propósito e um direito de todos.

Fala-nos de uma escola que se esvai, que está a esmorecer, que desaparece lentamente. Mesmo que digamos que não, que não queiramos acreditar, mas ela desaparece. Debaixo de papéis, de números, de indicadores, de processos, de participações, de projetos. De indiferença, de individualismo, de solidões acompanhadas.

Manuel Dinis P. Cabeça

coisas das aulas

3 de outubro, 2016.

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