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Vislumbres do futuro

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O frenesim começa assim que soa, o tão esperado, toque de saída. A música ecoa pelos corredores, nos vários “palanques”, nos megafones repetem-se chavões, anunciam-se atividades e atrações num role variadíssimo que vai desde convidados especiais, realidades-paralelastrampolins, às prendas: pipocas, rebuçados, canetas e afins. São dias onde, mais do que nunca, muitos vivem na expectativa das emoções que o próximo intervalo proporcionará.

A competição é renhida, o objetivo primordial é superar as “conquistas e feitos” dos rivais quer seja ao nível do chinfrim, das promessas, das emoções, da angariação de votos ou das ofertas. O circo “Em busca do voto perdido” instala-se na cidade escola e, durante três dias, o que antes era uma local relativamente pacato, transforma-se no palco de um espetáculo de variedades, cheio de truques, emoções, promessas aliciantes e mirabolantes.

Os cartazes tomam conta do espaço, uns mais coloridos, efusivos e criativos que outros, há autocolantes nas “lapelas do staff” e seguidores, distribuem-se guloseimas, beijos e abraços, cativam-se amigos e conhecidos, a eleição para a Associação de Estudantes e respetiva campanha é o tema que domina todas as conversas.

É curioso observar as “manobras de diversão” e constatar que, apesar de ser apenas uma eleição para a Associação de Estudantes, há estratégias, formas de agir, falar e aliciar que parecem ser intrínsecas aos cabeças de lista e a todos os que gostam e se envolvem nas campanhas eleitorais.

Em plenos pulmões, os mais arrojados apregoam medidas como “Acabar com os TPC” para gáudio de muitos, conquistando, quase de imediato, os votos dos mais novos e crentes, que têm especial efeito quando são acompanhadas do verdadeiro adoçante: rebuçados, gomas, etc. … É ouro sobre azul!

Em simultâneo, os alarmes e a desconfiança de alguns, poucos, soam estridentemente: o seu sentido crítico e de análise diz-lhes que há medidas que nunca conhecerão a luz do dia, são impossíveis e encontram-se fora do alcance de todos, e depressa as catalogam como sendo apenas promessas e “palavras leva-as o vento”. São, regra geral, estes alunos que procuram inteirar-se do programa de cada lista, frequentemente, com alguma dificuldade, pois nem os próprios elementos da lista sabem qual é. É deles que ouvimos as preocupações e revelações: “A lista anterior não fez nada, aliás só fez estragos. Dividiram, entre eles, o dinheiro angariado na festa e não se responsabilizaram pelos gastos. Uma vergonha! Não há quem os faça devolver o dinheiro, ninguém quer saber, nem eles, nem os pais”. É palpável, o ganhar raízes, dos primeiros laivos de desconfiança/descrença na seriedade, no empenho, no altruísmo, na justiça e no trabalho de quem devia, condignamente, desempenhar o papel para o qual foi ou pretende ser eleito.

A euforia toma conta dos intervalos, nesses dois ou três dias cheios de animação, onde há um objetivo comum: uma escola melhor de e para todos. Para ao 4º dia, cairmos num silêncio quase total, as aulas e intervalos decorrem com normalidade, sem sobressaltos e atrasos, tem início o período de hibernação, até à próxima eleição para a Associação de Estudantes, 1 ano depois, onde o circo ciclo recomeça.

As medidas/promessas que ficam por cumprir, não apoquentam ninguém, caem no esquecimento da maioria, pois anda cada um atarefado na sua vidinha e preocupado com o seu umbigo, sem tempo para questionar, reclamar ou pedir responsabilidades, até porque isso é trabalhoso e anda tudo cansado. No entretanto, estas pequenas coisas vão minando a confiança no “sistema” dos poucos que apreciam, com olhos de ver, este triste espetáculo.

Uma escola é o reflexo da sociedade em que vivemos, convive-se, observa-se e ouve-se de tudo um pouco. Diante dos seus olhares atentos, todos os dias, os professores e funcionários vêem o despontar de uma sociedade em miniatura, com tudo o que esta tem de bom e de mau, e é inevitável estabelecer paralelismos, e perceber que, muitas vezes, “De pequenino se torce o pepino!”. A confrontação, diária, com estes, e outros, pequenos grandes vislumbres do futuro é assustador, chegando a ser avassalador dado o fatalismo perante um ciclo que se perpetua e a impotência para o alterar.

Pi

Imagem: fonte

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