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Viram O Joker? Está Lá Tudo – Maria Joana Almeida

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Escrevo este texto sem saber, até ao momento, os factos exatos (provavelmente nunca saberemos) do que se passou numa sala de aula de TIC no Agrupamento de Escolas Rainha Dona Leonor, mas caí no erro (não sei se um erro) de ler os inúmeros comentários de outros professores, colegas meus de carreira, que quase o intitulavam de um herói utilizando expressões coniventes com a violência verbalizada nas manchetes dos jornais.

Nota geral: Sendo verdade a violência verbal e física retratada nos media por parte do professor é absolutamente inadmissível que tal tenha acontecido. É absolutamente inadmissível punir em praça pública sem conhecimento de todo o contexto, assim como é absolutamente inadmissível a agressão por parte de alunos para com professores, bem como constantes oposições à autoridade de um professor dentro de uma sala de aula. Isto não é uma opinião, isto é um facto.

Assistimos e vamos tendo conhecimento, quase quotidianamente, de agressões verbais e, inclusivamente físicas, à classe docente por parte dos alunos e embora condenemos de imediato estes atos, parece existir uma certa condescendência latente que se refletem nas expressões: “mais do mesmo”; “são os alunos que temos”, “é o país que temos”. No dia em que um professor, por não sabemos ainda bem o quê, se humanizou, não conseguindo controlar os seus impulsos perante algo que terá à partida sido interpretado como um questionar da autoridade foi o escândalo social. Vejamos, é um escândalo sim, os professores são os adultos e são a referência, devem ser a referência, mas é igualmente escandaloso e retrato de uma sociedade doente, existir a violência inversa. Não pode, não deve, haver condescendência unilateral.

Algo vai muito mal “no reino de Portugal” quando o apelo à violência vem de todos os lados. Alunos contra professores, professores contra alunos, professores contra o resto da sociedade, pais contra professores e professores contra pais. É apenas contra a violência que se deve estar contra. Venha de  onde vier.

O que se torna mais preocupante num “reino” como este é o terreno fértil para a entrada de fundamentalismos igualmente inadmissíveis por fecharmos os olhos e assobiarmos para o lado. Quando o Chega chegou ao Parlamento é porque já se infiltrou em todas as áreas. Não, no tempo do Salazar não era bom, mas este tempo também não o está a ser.

Tudo começa a ser preocupante e a pergunta que devemos fazer é como chegámos até aqui? Qual a metáfora do arquiduque Franz Ferdinand que fará despoletar o gatilho para que se acabe de vez com uma cultura de despenalização e desculpabilização de atos que não podem, em nenhum momento, numa sociedade atual ser livre de consequências?

 

Lembram-se do filme Joker? Vejam e revejam. Está tudo lá.

Maria Joana Almeida, in “Pedimos Gomas Como Resgate”, 22-10-2019

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2 COMENTÁRIOS

  1. Não entendo como se pode legitimar a violência, venha ela de onde vier. Também não entendo a assimetria das reações, do ME e das autoridades, relativamente a professores e pais de alunos que agridem, para falar apenas de adultos. Tudo isto mostra que algo vai muito mal na República Portuguesa.Tempos difíceis os nossos, entregues a medos e emoções, sem filtro e sem análise e reflexão.
    Quem cultiva hoje a razão e o assume como uma prioridade?

  2. Investiguem quem são os pais da criança agredida. Só uma dica: a primeira notícia sobre o assunto saiu na MAGG e redigida pelo próprio pai. Estranho, não?

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