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Violência Nas Escolas – Paulo Fafe

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Porque a educação me é íntima, em profissão e conceito, não posso passar pelo fenómeno da violência nas escolas, que agora parece epidémica, como quem assobia para o lado. Sou do tempo em que a escola tinha a dupla missão de educar e ensinar: a escola educava para a os valores e ensinava para o presente, com olhos no cidadão do futuro. Futuro que era fácil equacionar porque tudo era igual ao passado. Hoje a escola não educa porque os pais não consentem. Passamos deste jeito duma escola educativa para uma escola cognitiva. A escola passou a ser uma mera oficina onde o adestramento cognitivo é mais importante que o adestramento educativo. Assim, a missão educativa da escola desapareceu. Cabe às famílias a missão de transmissão de valores como bondade, caridade, respeitabilidade, usos e costumes, honra, companheirismo e amor. Se os pais não forem capazes de inculcar estes valores nos seus filhos, então vamos ter uma sociedade racionalista em vez duma sociedade humanista. Serão indivíduos capazes de procurar no relativismo a justificação para as suas ações e completamente alheios aos problemas da convivência com os outros. Na escola atual, temos pais que agridem professores, alunos que desobedecem violentamente aos seus docentes, alunos que transitam de escola em escola por comportamentos insuportáveis e professores que desejam a aposentação como quem quer sair do inferno; depois assiste-se, pasmado, ao recrutamento de pessoas que não são, nem sabem ser, professores e, por isso, se exaltam e batem nos seus ouvintes. Nem eles são docentes, nem os outros são discentes. Isto não é escola, é oficina. Ambos estão numa sala para aprender a manusear a tecnologia. Um é mestre de oficina e os outros são aprendizes. Freinet fez da sua oficina uma escola, mas atualmente fazem da escola uma oficina: o que importa é malhar o ferro frio para fazer um molde que caiba na sociedade, isto é, formatados em vez de educados. O resto, os valores de dantes, são pérolas de colar que perderam o nacarado com o “cinismo” deste tempo. Quem lhes tirou a beleza original e implementou este “cinismo”? O objeto da investigação deve ser esta interrogação, mas não me parece que estejamos a caminhar neste sentido. A ver vamos. A pedagogia é a arte e o saber de levar alguém ao conhecimento. O pedagogo, escravo na velha Atenas, era aquele que levava os alunos ao saber, isto é, à escola. Daí que pedagogia seja isso mesmo: levar ao conhecimento. É preciso saber a origem das coisas para alcançar-se a propriedade do seu emprego. Hoje pedagogia é essencialmente estudo e investigação na área das motivações dos alunos. A pedagogia é o múnus do professor. Mas então que escola é a dos nossos dias? É um lugar de martírio para professores e lugar de tédio para os alunos? Mas se é assim, é dramática a nossa escola. O senhor que adestrava (ensinar é outra coisa) tecnologia e exerceu sobre o seu adestrando a violência que a comunicação social noticiou até à exaustão, não pode ser culpado como professor porque ele não é professor; o sistema de recrutamento que lá o colocou a debitar horas é quem tem a culpa. Não é por se estar na oficina que se é mestre, da mesma maneira que não é por estar na sala de aula que se é professor. Se a escola de hoje está mal é porque a sociedade hodierna não está melhor. E sabemos porquê. Porque a escola é um lugar onde a sociedade se repete e se vê, e sempre através do comportamento dos seus filhos. Oiçamos Durkheim: “Cada sociedade possui um sistema educativo que se impõe ao indivíduo com uma força irresistível”.

Destaque

Se a escola de hoje está mal é porque a sociedade hodierna não está melhor. E sabemos porquê. Porque a escola é um lugar onde a sociedade se repete e se vê, e sempre através do comportamento dos seus filhos.

Fonte: Diário do Minho

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