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“Violência Nas Escolas A Baixar”. É Para Rir, Certo?

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O jornal Expresso lança a notícia que a violência escolar está a baixar. A afirmação baseia-se nos números das forças de segurança só que esses números não são de todo os mais fiáveis, pois existe uma diferença significativa entre o número de ocorrências e o número de queixas apresentas. Quem está nas escolas rapidamente chega à conclusão que os números não batem certo e percebe facilmente que estamos a assistir a uma estratégia de apagar o fogo antes que este se torne incontrolável. Tudo o que é disciplina, é nitroglicerina, e não é por acaso que depois da tempestade surjam agora tentativas de minorar aquilo que está aos olhos de todos.

Não é preciso ser um génio para perceber que a argumentação não bate certo, e para isso basta enunciar o óbvio:

  • Apresentar uma queixa implica um vivenciar repetido do ocorrido e algumas pessoas preferem simplesmente suprimir aquela memória e seguir com as suas vidas;
  • Apresentar uma queixa implica a contratação de um advogado, mais as custas do processo e nem todos estão interessados a investir numa justiça que não garante um desfecho mais justo;
  • Vários diretores pressionam os professores/encarregados de educação a não apresentarem queixas para que a “sua” escola não fique catalogada como uma escola violenta. Todo o trabalho realizado ao longo de anos pode rapidamente ser destruído com 2 ou 3 queixas e correspondentes notícias de violência escolar.

Estes 3 fatores são suficientes para eliminar uma parte significativa das ocorrências, por isso é que quando realizei os inquéritos sobre a indisciplina escolar, baseei-me nas participações disciplinares internas e não nas externas. Apesar de mesmo estas não incluírem a totalidade das ocorrências pois há sempre quem não as faça, os dados mais aproximados são seguramente as participações disciplinares.

Não é por acaso que algumas escolas registam, analisam e implementam estratégias baseando-se nestes dados, são as escolas que profissionalizaram a abordagem à componente disciplina.

Estes dados deveriam ser conhecidos do público em geral, mas compreendo que as escolas e o Ministério da Educação prefiram varrer para debaixo do papel. Afinal, vivemos numa sociedade de aparências…

Se for verdade, tal como concluí nos meus inquéritos que por ano existem mais de 200 mil participações disciplinares, toda a argumentação que na escola a indisciplina é pontual e que as escolas são pacíficas, mesmo com a falta gritante de assistentes operacionais,  psicólogos e crédito horário para as equipas multidisciplinares, cairia rapidamente por terra. E isso seria o suficiente para derrubar qualquer Ministério da Educação, seja este mais ou menos flexível…

Fica o link para o notícia do Expresso.

Violência nas escolas está a baixar

 

3 COMMENTS

  1. Tem toda a razão. Quando as coisas não funcionam, há mil e uma estratégias para contornar a realidade.
    As escolas transformaram-se em autênticos icebergues (seria muito interessante identificar as razões, que são diversas).
    O que agora está a acontecer é que não é possível enganar o tempo todo.
    Uma colega referiu aqui o filme Joker e como afirma, sim está lá tudo. Mas também está no Chile, para apenas citar o país que era considerado como o mais europeu da América Latina! Cá está o sucesso do neoliberalismo no seu esplendor, que teima em ignorar o papel atribuído ao Estado por Adam Smith (será assim tão lido?).
    Hoje, acreditam muitos, está tudo na NET, mas não está, e é preciso estudar e ler cada vez mais… Mas onde estão os leitores e os estudiosos? Eles existem, mas parece que ninguém os quer ouvir.
    Venham de lá mais estatística para apaziguar as inquietações.

  2. A avaliação de que “A afirmação baseia-se nos números das forças de segurança só que esses números não são de todo os mais fiáveis, pois existe uma diferença significativa entre o número de ocorrências e o número de queixas apresentadas” não faz sentido.
    A avaliação do Expresso é da tendência (está a descer) e as dificuldades que refere já existia no passado. Portanto, esse argumento é falso.
    Sobre o restante não me posso pronunciar, não conheço os tais inquéritos.

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