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O que vale uma vida de trabalho?

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POLO-EDUCAÇÃO-AO-LONGO-DA-VIDAPara alguns teóricos da educação, uma vida de trabalho não terá influência no crescimento humano individual nem sequer na aquisição de conhecimentos variados. Para estes, o empirismo não tem condições para se afirmar como conhecimento. A evidência de que o conhecimento de experiência feito é uma escola, a escola da vida, não pode ser utilizada como ferramenta de valorização formal das populações.

Podemos defender que um trabalhador estudante tenha de adquirir exactamente os mesmos conhecimentos que um jovem em idade escolar, que desenvolve o seu percurso com normalidade e em que a sua única função é estudar. Podemos ainda afirmar que uma certificação de um qualquer programa de escolarização de adultos tem de ter padrões de exigência elevados e que não ofereça certificados a quem não tem conhecimentos. Em suma, podemos e devemos exigir rigor. O que não podemos pensar é que um adulto que se disponibiliza a voltar a estudar é uma tábua rasa pronta a povoar de conhecimentos.

Se mesmo em relação aos alunos em idade escolar a ideia de que se trata de uma pessoa que tem tudo para aprender já é errada, muito mais errado é pensar o mesmo de um adulto que regressa à escola.

Recordo a minha avó e nela muitos cidadãos que nunca frequentaram a escola. Não sabia ler nem escrever, mas tinha um raciocínio claro sobre o que queria e tão importante quanto isso dominava a matemática funcional na perfeição. Fosse no papel ou de cabeça não errava um cálculo, por mais complexo que fosse.

Não teria sido justo reconhecer esta competência e valorizar a pessoa? Em especial numa faixa etária que sempre considerou a escola e reconheceu a capacidade que esta tem de permitir que possamos aceder a uma vida melhor. Que alegria não será dada a estas pessoas ao dizer-lhes tudo o que fizeste, tudo o que lutaste ao longo da vida conta para nós (sociedade).

Claro que o indivíduo tem de mostrar as competências linguísticas e as competências de cálculo necessárias para aceder a outros conhecimentos mais evoluídos, mas não acredito que só se possa aceder ao conhecimento sentado numa cadeira, numa qualquer sala de aula, com um professor a transmitir os conteúdos. Estas competências são, também, adquiríveis em ambientes de educação não formal e devem consequentemente ser reconhecidas e validadas enquanto conhecimentos académicos.

Quero com isto dizer que, para se desenvolver e aplicar com sucesso um modelo de educação de adultos é necessário garantir a exigência das aprendizagens, mas também o respeito pelas especificidades de quem, com sacrifício pessoal e familiar, se disponibiliza para voltar a estudar, roubando horas à família ou meramente à fruição.

A prova de que aplicar “rigor”, de forma demagógica, nestes programas se traduz na sua inexequibilidade é a quebra acentuada de alunos no programa de formação de adultos. Quando as Novas Oportunidades terminaram, e sou da opinião que tinham de sofrer alteração profundas que permitissem a sua valorização enquanto programa e garantissem o respeito por aqueles que frequentavam as aulas, tinham 800 mil inscritos, hoje existem cerca de 50 mil alunos no programa que o substituiu.

Seria considerado um sucesso estrondoso se, agora, apenas 50 mil portugueses em idade adulta necessitassem de estudar, estaríamos muito bem enquanto sociedade, mas a realidade é que nos últimos sensos Portugal apresentava uma taxa de analfabetismo de cerca de meio milhão de pessoas. Valores demasiado elevados para um sistema educativo que se quer universal.

Só uma visão desprovida de sensibilidade humana não reconhece a importância do que vivemos na construção daquilo que somos. Como afirmava Rousseau “a educação do homem começa no momento do seu nascimento; antes de falar, antes de entender, já se instrui.” A quem sistematiza a educação competirá validar os conhecimentos existentes e transformá-los na base dos sucessos futuros.

Consulte aqui a notícia:

Meio milhão de pessoas espera formação

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