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“Vá meninos, peguem no telemóvel que eu quero começar a aula”

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É apenas uma questão de tempo, mas acredito que esta expressão será um dia realidade na maioria das escolas. A escola como a conhecemos está a mudar e mais depressa do que nos apercebemos. Qualquer escola, qualquer professor, que mantenha a aposta no modelo tradicional vai simplesmente ficar para trás. Existe uma nova religião, a religião tecnológica e esta tem muitos, muitos crentes, dependentes e até fanáticos. A escola apesar de laica terá de aprender a conviver com ela, aceitá-la e acima de tudo orientá-la.

Mas temos um problema! Os adultos que habitam nas escolas… A incapacidade que temos de acompanhar estes novos ritmos e os seus benefícios, fruto da nossa natural ignorância, é limitadora da sua implementação. Não é fácil entrar numa sala de aula em que o aluno se torna professor e o professor se torna aluno.

O que vou escrever agora não tem o intuito de chamar “velhos” a ninguém, tenho imenso respeito pela experiência adquirida e ela é muito, muito importante. Só que o convívio sistemático com tecnologia permite um à vontade que quem não conviveu com ela não possui e provavelmente nunca terá, se é que algum dia quererá ter… Ouço muitas vezes, “eu já estou velha para isso”, ou “eu não percebo nada disso”, quando alguns professores se deparam com certas tecnologias. Veja-se por exemplo a relutância que existe em deixar de usar o arquivo em papel, que seria facilmente substituído por um DVD, ou mesmo através da cloud, já para não falar do Excel que ainda são temas de formações para professores. Até a própria comunicação social está a refundar-se e o jornal em papel tornar-se-á a breve trecho no novo vinil.

A prova para o que estou a dizer está plasmada neste gráfico e que revela o aumento exponencial de envelhecimento docente a partir de 2011.

Envelhecimento docente

Provavelmente a maioria dos professores desconhece os programas que vou referir de seguida, quanto mais professores que são avessos a Internet’s e afins, só que o tsunami tecnológico está aí e já existem vários exemplos que provam que o futuro afinal já é presente.

Deitados em puffs e de telemóvel na mão. Bem-vindos à sala de aula

Escola Secundária Dom Manuel Martins, em Setúbal

Dou-vos 10 minutos para lerem da página 95 à página 105. Depois vamos fazer um ‘kahoot‘ que vai contar para a nota. Não precisam de estar aí sentados, só precisam de estar concentrados.

 

Não se consegue imaginar esta turma em modelo de autocarro. Tem de se acabar com esta ideia de que nós, professores, somos bons e ensinamos sempre bem e que os alunos é que não aprendem. A metodologia tem de mudar. As aulas têm de deixar de ser expositivas”, defende o professor Carlos Cunha, que é também o coordenador desta sala.

Agrupamento de Escolas do Freixo, em Ponte de Lima

Neste agrupamento, por exemplo, professores e alunos de algumas turmas do 5.º até ao 9.º ano comunicam através de uma rede social privada – o Yammer. Nessa plataforma, o docente pode colocar vídeos, lançar debates, desafios e responder a dúvidas, assim como colocar a correção dos testes. E os encarregados de educação podem também aceder a esta ferramenta e aproveitar para consultar o material de apoio que os professores lá colocam, que lhes permite depois ajudar os filhos nos trabalhos de casa ou a estudar.

Agrupamento de Escolas de Vila Nova de Cerveira

O agrupamento conseguiu uma parceria com a Caixa Agrícola que permitiu comprar 30 tablets, que são usados na “sala de aula invertida”, um projeto-piloto que arrancou no ano letivo 2014/2015 e que está a ser posto em prática com uma turma do 3.º ano e sobretudo na disciplina de estudo do meio. Os alunos usam o tablet para levar os trabalhos para casa, para estudar e aprender. Na aula dedicam-se à prática, fazem exercícios, aprofundam conhecimentos.

Já no ensino secundário, mais precisamente no 11.º ano, nas disciplinas de geografia e biologia/geologia, professores e alunos dão uso ao OneNote, onde os docentes criam ficheiros específicos que os alunos vão preenchendo e que depois o mesmo professor corrige. Esta mesma ferramenta é usada a nível interno e administrativo, entre professores, para partilhar documentos de trabalho, projetos, atas, entre outros.

O Parque. “Escolas sem tecnologia são como aliens para os miúdos de hoje”

No próximo ano letivo, O Parque será a primeira escola internacional em Lisboa para alunos até ao 12º ano. Aqui fala-se inglês quase como língua materna, praticamente não há livros, mas cada aluno tem um iPad.

Aviso: os próximos dois números podem ferir a suscetibilidade dos mais sensíveis à evolução da espécie: 70% dos futuros empregos dos alunos do primeiro ano ainda não existem e 50% dos empregos atuais podem facilmente ser transformados em trabalhos feitos por máquinas.

Trinta escolas do país têm projetos para ter “sala de aula do futuro”

O ministro da Educação inaugurou uma “sala de aula do futuro” na Escola Secundária de Alcanena, equipamento que deverá ser replicado, em tipologias e temáticas diferentes, em outras 30 escolas do país.

Salas de aula invadidas por tecnologia para motivar alunos em escolas de Peniche

«Tínhamos alunos com dificuldades sobretudo a matemática e a ciências, muitos sentiam um grande distanciamento em relação às aulas e precisávamos quase de um banho de realidade nas aulas », explica o presidente do agrupamento, José Loios, à agência Lusa.

Com a era digital a invadir o quotidiano dos jovens, os professores reinventaram os métodos de ensino e o agrupamento deu um passo à frente, dotando as salas de ‘tablets’, mesas interativas táteis, ardósias digitais, computadores, ‘drones’, câmaras fotográficas e impressoras 3D para melhor motivar os alunos e aproximar a escola da realidade.

Jogos digitais são cada vez mais usados nas escolas

Os jogos são apenas o primeiro passo. Há escolas que já estão na etapa seguinte, aproveitando o conforto dos alunos com as novas tecnologias – e não apenas para jogar – para fazer destas a ferramenta básica do ensino. São as já chamadas “escolas do futuro”, embora Rui Lima, coordenador pedagógico do Colégio Monte Flor, de Carnaxide, “prefira o termo “escolas do presente”, porque estamos a trabalhar para os alunos de agora. O que procuramos é articular o ensino dos alunos com o mundo que os rodeia”, explicou recentemente ao DN, numa apresentação na Futurália. “E as novas tecnologias são um dos aspetos desse mundo.”

E deixo-vos com mais algumas aplicações referidas nesta última notícia: Scratch, Kodu, MinicraftEdu e Poverty is not a game.

Minecraft edu

O futuro está a bater-nos à porta, vamos abri-la?

 

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2 COMENTÁRIOS

  1. Há uma coisa que, deve ser mesmo da idade, não compreendo… Ao que parece se os alunos usarem máquinas a motivação é imediata e , por consequência, o conhecimento ” entra”. Ora, sendo assim, tudo me parece fácil! Eu que julgava, vícios de uma mente arcaica, que o problema era a proveniência sócio-económica dos educandos, as periferias, o dinheiro que não chega, a família que não há, ou não educa… Afinal tudo é um engano e se eu sentar o jovem púbere, na suavidade de um puf, há-de recitar com gosto, e dicção perfeita os ” Sonetos” de Quental; ou as ” Ficções” de Borges…
    Também não entendo, mais um problema da idade, que a escola portuguesa, segundo alguns mais ilustrados, seja uma espécie de ” cascalheira” frequentada por desmotivados e ordenada pelos que não motivam! Parece que tudo isto não tem uma história e que nos anos 70 ainda havia cerca 26% de analfabetos e, os que não o eram, tinham aprendido na famosa , e exígua trindade, do ler, escrever e contar… A Escola Pública portuguesa prestou um serviço extraordinário num país com níveis de qualificação baixíssimos. E, ao contrário do que se vocifera, encontra-se ao mesmo nível, segundo o famoso PISA, de alguns países do Norte da Europa (Suécia, por exemplo) que no século dezanove tinham uma taxa de analfabetos inferior a trinta por cento…
    A fascinação pelo uso (não pela invenção e pelo árduo trabalho da ciência, que isso é outra ” fruta”…) da tecnologia não é nova… Nem é nova aquela ”conversa” de que os velhos estão ultrapassados, e são adversos à mudança… Essa dos conflito de gerações , e das coisas novas, já está em letra desde os Velhos Gregos…
    Uma máquina é apenas uma máquina! Ler , e compreender, até amar os velhos clássicos, há-de fazer ”mossa” na pestana seja ele no écran do” tablet ” ou no cheiro a mofo de um cartapácio… Tudo o resto é conversa…!

    • Quero agradecer a sua resposta Rui e elogiar a qualidade da escrita. Como é evidente, não vamos agora enveredar por uma educação “bimby” em que colocamos os ingredientes e “voilá”. A questão tecnológica não resolve tudo, mas permite uma motivação acrescida. Ex: realizar perguntas, utilizando uma plataforma que permite pontuar automaticamente e comparar resultados no momento, criando um exercício ao estilo “concurso”, levará que os alunos estejam muito mais motivados.
      Naturalmente que deve existir um equilíbrio, algo que agora não se verifica mas por defeito.
      Cumprimentos.

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