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E que tal uns anexos habitacionais nas escolas para professores?

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(texto publicado no dia de ontem na página FaceProf)

Eu tenho defendido que os professores deviam fazer greve amanhã, mas sou uma sentimental e da mesma maneira, que me veio a lágrima ao olho, quando o nosso estimado Presidente da República disse que os professores são heróis, senti-me novamente sensibilizada com o nosso ME, quando partilhou connosco o seu novo sonho e depositou a sua total confiança em nós, para edificar as Escolas – Alfaiate.

Fazer greve seria uma ingratidão com alguém que valoriza tanto a classe docente. Confesso que sinto algum desconforto e concordo que não há um motivo forte para esta rebeldia da classe, além de que é uma incoerência. Durante uma década viveram com o mesmo salário, o que não impediu muitos de fazer centenas de quilómetros de carro, gastar ¼ do salário em combustível, portagens e outros consumíveis, outros tantos, de pagar duas casas, e um grupo significativo de ter computador, internet, colunas, projetor e uma mochila catita para transportar todo este material para a sua escolinha. Posto isto, pagar-nos mais seria uma autêntica rebaldaria, eramos bem capazes de começar a gastar o erário público no supérfluo, além de que toda esta ostentação de riqueza mina completamente a nossa imagem de heróis, de mártires e de missionários.

No entanto, não querendo ser impulsiva, nem desiludir de todo o ME, sinto-me algo infeliz e noto que existe um estado geral de infelicidade na classe e penso, que havendo boa vontade, é possível devolver a alegria aos professores e melhorar de vez o estado da Educação, no nosso país.

Tendo em conta o tempo gasto em viagens, a confusão e o desgaste em viver, gerir e fazer a lide doméstica em duas casas, os problemas de coluna com os carregamentos de todo o material necessário para a escola, eu proponho, algo diferente e fora da caixa, que no orçamento do próximo ano venha contemplada uma verba para a construção de anexos habitacionais nas escolas para professores, com uns beliches, com um quartinho para as visitas conjugais, uns sacos cama para receber as visitas, uma enfermaria para tratar das pequenas maleitas, com acesso a uma salinha de computadores, para durante a noite podermos tratar dos aspetos fundamentais e essenciais ao sucesso educativo. Seria agradável um passe social para darmos umas voltinhas na cidade ou então, um acordo com o município, de forma a termos alguma mobilidade. Como somos flexíveis e polivalentes, podemos tratar das cantinas, sabemos tudo sobre alimentação saudável, os problemas elétricos e de canalização, o arranjo dos telhados, a pintura das paredes e a limpeza do recinto. Se for preciso, de vez em quando, podemos dar o banho a uma ou outra criança que precise. Sendo tudo isto exequível, já seria possível pagar o salário mínimo aos docentes e usar o remanescente em resgaste aos bancos, em sacos azuis e outros fins tão mais nobres, reduzir para dois o número de professores em sindicatos, já que são suficientes para anotar as requisições de bens alimentares, os stocks do champô de piolhos e outros materiais necessários à manutenção dos edifícios.

Para melhorar a auto estima dos docentes contribuiria bastante a visita, de vez em quando, do Presidente da República, do ME, de membros do governo e até dos Diretores, para tirarmos umas selfies , que possamos exibir com orgulho nas nossas paredes. Umas excursões, do tipo volta ao Minho, seriam bastante apreciadas. E por fim, que fossem salvaguardados uns euros para os andarilhos, os genéricos e as fraldas. Nós não queremos destabilizar, transtornar a vida de terceiros, estamos nisto por vocação, por amor à camisola, é a nossa missão, só queremos agradar e que gostem de nós.

Cassilda Coimbra

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