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Umas ideias gerais sobre greves dos professores

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A greve é um direito constitucional e uma liberdade democrática essencial.

O trabalhador faz um contrato com o seu empregador (neste texto, Patrão). Se este não cumpre, o trabalhador suspende temporariamente o contrato (faz greve). Tem esse direito legal: não cumpre o trabalho (a sua prestação no contrato), se o empregador não cumpre. Em termos simplificados, não é muito diferente de um outro contrato qualquer. A greve é isso. Tão só, e esqueçam as complicações pseudo-moralistas sobre outros interesses.

Se o Governo se preocupa tanto com os alunos, resolva depressa o conflito (como faz com outras classes profissionais).

Muita gente opina sobre greves de professores

Quando os professores fazem greve vem logo trolls em rebanho, pelas televisões e espaços de opinião de jornais (em colunas ou comentários anónimos), invocar a grande desgraça dos alunos e os graves prejuízos às famílias.

Esses opinadores, muitas vezes com tiques fortes de antidemocratas (são contra qualquer greve e até apelam bastas vezes ao regresso do seu amado Salazar), têm muitas vezes um discurso edificante (“a greve é indigna dos professores”) ou uma conversa seráfica (“dialoguem” ou “sejam responsáveis”). Esse tom permite logo adivinhar o estilo ideológico e o seu genérico “anti-professorismo” (ideologia lusitana de gente básica, com alguns cultores ilustrados, que prolifera no país e que diz, sem base real, que os professores são uns privilegiados). Tal ideologia redutora sofre do problema do confronto com o real das condições de trabalho docentes: sendo assim tão privilegiados, começa a haver entre os jovens quem fuja da profissão como o diabo da cruz.

Os outros grupos fazem greve, pouco se ralam com teorias e ganham com isso…

Quando os médicos fazem greve também levam na espinha da opinião publicada, mas, convencidos da justiça das suas reivindicações, não se comovem com discursos chochos que os visam. Normalmente, a persistência na adesão e pouco receio face a discursos bacocos faz com que saiam das greves mais bem pagos ou com melhores condições de trabalho. Os professores deveriam ser seus bons alunos….

 

Quando os professores fazem greve começam os chorrilhos de mentiras sobre a sua vida (ganham demais, trabalham pouco, têm muitas férias, faltam muito, são desqualificados, etc, etc). A mais injusta de todas: não se preocupam com os alunos. Uma sociedade com Governos que adotam, como base para uma política, as opiniões reles  das caixas de comentários dos jornais e sites (ou redes sociais) está pronta para ser governada pelos grunhos que por lá escrevem. Informem-se bem antes de repetir sem filtro as mentiras habituais.

As greves dos professores são sempre “instrumentalizadas”….

Quando os professores fazem greve, lá vem a tese da instrumentalização pelo Partido Comunista. O mais conhecido dirigente sindical docente é militante e dirigente do PC, é verdade. Mal ou bem, foi eleito pelo seu sindicato e pela sua federação. Quem me conhece sabe que divirjo muito de Mário Nogueira (MN) e que defendo, há muito, que devia ter cessado funções por via de uma limitação efetiva de mandatos. Sou sindicalizado num sindicato da FENPROF (SPN), não quero ser dirigente, e posso dizer isso com a autoridade de quem paga 1% do seu salário mensal para sustentar a ação do sindicato. Não sou comunista.

A maioria dos comentadores falam de MN sem saber do que falam e esquecem o resto dos sindicatos, que  não serão assim proporcionalmente tão mais pequenos. Esquecem o que pensam os professores, que são 150 mil e são muito diversos (e gente instruída, que não vai em rebanhos só porque sim). E até esquecem que os sindicatos docentes, com as suas negociações e trapalhadas de acordo, são mais um tampão ao ferver da indignação docente, que vem de há muitos anos, do que um motor dela.

A manifestação “dos 120 mil”, que fez Sócrates tremer, foi um exemplo (quando começou a ser preparada, os sindicatos não queriam e tudo acabou numa noite de negociação, empurrada com fatias de pizzas, em que os resultados foram uma falácia: acabou a categoria de titulares, mas as vagas para progressão são piores). Curiosamente, a negociação apressada esvaziou o protesto, mas, mesmo assim, o PS perdeu depois (também por isso) a sua preciosa maioria absoluta.

Os sindicatos até nem queriam esta greve e devem estar genuinamente desiludidos com “Tiago, o vago”

MN chegou agora à greve às avaliações e aos exames, que é um assunto antigo entre os professores (desde que o início do congelamento de tempo de serviço, mas que só pode ser convocada por sindicatos). Antes de MN lá ter chegado, já outro sindicato a tinha convocado, com efeitos para as reuniões de avaliação desta semana. Antes de MN irromper pelas televisões à hora de almoço a ameaçar, já tinha tentado, semanas a fio, esvaziar o sentimento de que a greve fazia falta, acenando com a ilusão do fruto que viria de uma negociação responsável, acolhendo as vagas promessas do Ministro Tiago.

Não veio ainda nada e parece que virá pouco. Talvez porque o PS quer descolar do PC. E MN hoje até esteve bem. Falou mesmo claro. Foi pena ser tarde. Como alguém dizia: esgotou-se a luta mansa. Agora é preciso coisas mais fortes e talvez novas.

A luta dos professores, grupo profissional com muita formação, não pode ser só greves e manifestações

Mas para ser, também pode ser isso. Embora possa ser outras coisas. Entre essas coisas, de que sou proponente, com gente muito diversa (e bem mais interessante que eu) está a Iniciativa Legislativa de Cidadãos para contagem do tempo, que aguarda ter 20 mil assinaturas para entrar no Parlamento, e obrigar a definições políticas sérias sobre o problema.Qualquer cidadão pode assinar. Quando for discutida no Parlamento, acaba-se o teatro de sombras do Governo e dos seus apoiantes da geringonça.

“Ou sim ou sopas”, como se diz no Minho (e o Ministro é minhoto, percebe bem o dito).

Outro passo, é a greve sem limites a que MN se rendeu hoje.

Outro passo, ainda, é garantir que, qualquer acordo que venha a ser feito, depois da fase conflitual, seja validado pelos professores e não fruto de um misto espúrio de negociação partidária e arranjo aparelhista sindical.O modelo Auto-Europa, em que os acordos são referendados, talvez fosse de bom tom….

E o ponto essencial é António Costa começar a pensar em Sócrates e nas dificuldades em que este ficou pela sua luta estúpida inspirada pelo “anti-professorismo.” E perceber que a variante Leitão de tal ideologia é realmente má conselheira e Maria de Lurdes Rodrigues é, para o mal e para o bem, irrepetível.

Aliás, se os partidos da Ex-PAF fossem uma oposição de jeito, apresentavam no parlamento uma solução do conflito, com pés e cabeça, e talvez ganhassem mais do que com as excitações facciosas de discurso que cultivam, sempre que veem o Mário Nogueira a falar na televisão.

O mesmo se diga para os “geringonços”….ou, em geral, dos deputados professores.

Para entender uma greve é preciso conhecer os grevistas concretos

Quem fala da greve, esquece quase sempre os grevistas concretos. Este, exemplo de uma geração de milhares, tem 46 anos e, licenciado em História, começou a dar aulas em 1995. E escolheu essa via depois de ter tido outras profissões onde tinha sucesso e onde podia até voltar. Já leccionou em mais de 13 escolas, fruto das agruras das colocações (e acha que teve sorte). Tem uma nota de graduação de 16,5 valores, 3 especializações correspondentes a partes curriculares de mestrado e milhares de horas de formação especializada para a docência. Foi diretor de um agrupamento de escolas, durante 6 anos, e escolheu retornar às aulas por gosto nelas. Em 2004, quando, depois de muitas voltas, entrou na carreira, o contrato com que o Estado (Patrão) lhe acenou previa que, em 2017, estivesse no 7º escalão da carreira legalmente prevista. O Estado Patrão nunca o deixou passar do 2º e, durante anos, além dos impostos acrescidos que todos pagaram, ainda teve cortes de subsídios de férias e de Natal e uma percentagem mensal de redução salarial (perdeu uns 45 mil euros do que seriam direitos nesses anos). Trabalha muito mais horas do que estava previsto em 2005. Perde mensalmente, face ao que deveria estar hoje a ganhar, centenas de euros líquidos. Quando escolheu a carreira não foi isso que estava previsto e lhe foi proposto escolher. E não interessa nada que até tenha sido avaliado várias vezes de Muito bom ou Excelente. Ganha 1200 euros líquidos mensais, para semanas de trabalho reais que chegam às 48 horas, numa profissão em que o mínimo de habilitação é a licenciatura. Se a sua mãe tivesse investido o dinheiro do curso num apartamento, agora alugava-o a turistas e ganhava muito mais.

O Patrão enganou-o. A ele e a muitos outros (milhares). O Patrão suspendeu-lhe a carreira 9 anos, 4 meses e 2 dias (os tais 112 meses de que falava hoje MN). Não quer pagar o que cortou nesses 9 anos (o que os professores já aceitaram, para o passado; por isso, o relógio não anda para trás, nem nunca tal passou pela nossa cabeça). Não quer considerar os efeitos futuros desse tempo que foi trabalhado.

E acham que, com isto tudo, faço greve só porque Mário Nogueira me manda?

Na verdade, eu e muitos outros anónimos, dos vários sindicatos e não sindicalizados, é que “mandamos” que a greve se faça. E somos muitos. E não usamos todos barba ou bigode. E, como dizia a outra, Mário Nogueira não interessa nada para o caso (tirando ter o poder de convocar a greve, coisa em que se atrasou). E vamos fazer a greve que fizer falta até António Costa ir estudar o problema e deixar de dizer banalidades e se convencer que 150 mil pessoas e suas famílias é muita gente. Ou Tiago Rodrigues acordar e perceber como foi um erro ter aceitado fazer este papel gago e como uma escola não é feita só de alunos e pais.

E perceber que lutar radicalmente tem um significado muito mais preciso…..

 

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2 COMENTÁRIOS

  1. Já temos as 20.000 assinaturas da ILC da recuperação de todo o tempo de serviço congelado ou ?
    EU ASSINEI! Faltam quantos? Quantos dias?

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