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Uma reforma para a escola, já! – Margarida Correia

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Em obra basilar, Metaphors We Live By (1980; trad. Metáforas da Vida Cotidiana), G. Lakoff e M. Johnson demonstram o papel que as metáforas, entendidas como recursos cognitivos, desempenham na compreensão da realidade e na construção do conhecimento. O discurso da covid-19 está inevitavelmente recheado de metáforas bélicas, expressando bem a “guerra invisível” que governos e povos têm “travado contra” este “inimigo silencioso”, que nos mergulhou numa crise sem precedentes. No “combate” à pandemia, as vacinas são “armas” decisivas e justifica-se a constituição de uma task force de vacinação. A “bazuca” financeira que nos chega da UE, para implementar o Plano de Recuperação e Resiliência 2021-2026 (PRR), é apenas mais metáfora neste retrato da realidade atual.

O PRR (10/2020) está estruturado em torno de três dimensões, resiliência, transição energética e transição digital; cada uma abriga três roteiros para a retoma do crescimento sustentável e inclusivo, num total de nove roteiros. A palavra “educação” tem 12 ocorrências no PRR, maioritariamente no âmbito dos roteiros Potencial Produtivo e Emprego (integrado na dimensão resiliência) e Escola Digital (integrado na dimensão transição digital). Afirma-se que a Reforma para a Escola Digital visa permitir a modernização do espaço escolar, a democratização do acesso às tecnologias e o desenvolvimento de competências digitais, com o objetivo maior de modernizar o sistema educativo português [citação livre].

É impossível não concordar com a importância de uma reforma para a escola digital e não perfilhar os objetivos enunciados no PRR. A transição para o digital havia já começado mas tornou-se irreversível. Os iletrados digitais do futuro serão iletrados tout court, condenados ao exercício dos trabalhos mais mal remunerados e à exclusão de muitas das potencialidades da sociedade. Esta reforma é tanto mais justificada agora quanto o país faz um esforço notável para fornecer equipamento informático e ligação internet a tantos que, de outro modo, ficariam excluídos da escola digital, e da escola.

Para que a escola funcione, não bastam, porém, infraestruturas e equipamento. O capital humano é fundamental e os professores são dele parte inalienável. Não teremos professores aptos para o ensino digital se não tivermos professores aptos científica e pedagogicamente para ensinar e desempenhar papel ativo nas comunidades a que pertencem. Professores aptos e motivados, claro. Não há professores suficientes e, nas últimas duas décadas, a carreira docente tornou-se tudo menos motivadora e atraente, mas antes estagnada, burocratizada, sem perspetivas de crescimento pessoal, social e de uma vida estável e digna, ao nível da importância da sua missão. É preciso formar professores já! Muitos. Mas é também fundamental que a carreira docente seja capaz de atrair os melhores e não apenas os abnegados ou os que não têm outra saída. Há que aprender com os erros do passado!

As crises são oportunidades de aprendizagem e fortalecimento. Sobre as ruínas não basta reconstruir. Impõe-se construir melhor. A escola não depende só dos professores; muitos outros aspetos deverão ser repensados e reformados. Não haverá “reforma para a escola digital” sem uma “reforma para a escola” e esta tem que começar agora.

Nem todos estão na frente de batalha. À retaguarda pode e deve alicerçar-se o futuro. Só assim sairemos mais fortes desta guerra.

Professora e investigadora, coordenadora do Portal da Língua Portuguesa

DN

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