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Uma referência? A Ana do 8ºA

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Na semana passada em apenas 30 minutos lidei com duas realidades proporcionalmente opostas e que são o espelho de muitos dos alunos que temos pela frente.

sucessoAo terminar uma das minhas aulas, uma aluna colaborou na arrumação do material e em tom de brincadeira disse-lhe “muito bem, vou dizer aos teus pais para te aumentarem a semanada” a resposta foi “não tenho semanada”, perguntei pela mesada, a mesma resposta, ao ver que a conversa não estava a correr lá muito bem e que já tinha metido a pé na poça, brinquei com a situação e a resposta foi um sorriso carinhoso.

Depois dela sair, o meu colega que já trabalhou na segurança social disse-me, que a aluna vive com os avós, porque a mãe tinha-se metido na droga e migrado para Lisboa, passado uns anos repetiu-se a mesma situação, mas desta vez foi o pai e que agora vive em Bragança. Sobre os avós, bem, o avô está num estado avançado de Alzheimer e a avó já tem uma idade considerável em que se confunde quem toma conta de quem… A Ana (chamemos-lhe Ana) é uma joia de rapariga, super educada, sociável, esforçada mas com dificuldades de aprendizagem. Humildade, esforço, dedicação e resiliência são a sua marca, algo que a vida lhe ensinou e que a fez crescer mais depressa do que devia, mas depressa do que merecia…

Passado 30 minutos estava a ouvir um aluno no âmbito de um processo disciplinar, um miúdo que tem pai, mãe e ambos estão presentes na sua vida. Curiosamente ele também apresenta dificuldades de aprendizagem, mas ao contrário da Ana é indisciplinado, não trabalha nas aulas, não leva o material, recusa a escola, recusa o futuro… E por muito que tenha tentado, e por muito que os pais se tenham esforçado, surge sempre aquela parede, aquele muro intransponível, aquela máscara que encolhe os ombros e rejeita a recuperação.

Tantas vezes damos valor aos alunos que estiveram perdidos e que foram recuperados, elogiando a sua mudança de atitude, que nos esquecemos dos que são realmente heróis, dos que por si só aguentaram o barco, sem precisarem de muletas da família, professores ou psicólogos…

Este texto é para ti Ana, e para todas as outras Anas por esse país fora em que a vida vos quis ceifar a esperança. Fizeram das fraquezas força, não desistiram e apesar de amputados da sua família, conquistaram por mérito próprio o direito a ter um futuro melhor e quem sabe criar também eles uma família. Num mundo em que as referências e exemplos de cidadania são bens escassos, por vezes esquecemo-nos que estão mesmo à nossa frente e ironicamente temos de olhar para baixo, como num ato de humildade, pois os seus tamanhos são apenas uma amostra do seu carácter e qualidade humana.

Amanhã irás sorrir, correr, saltar, brincar e eu terei o privilégio de assistir a tudo isso na primeira fila, terei a sorte de ser um dos que contribuiu para um futuro melhor e essa é maior honra que um professor pode ter. Obrigado Ana por não teres desistido, obrigado Ana por este balão de esperança que demonstra que vale sempre a pena, mesmo quando o que nos rodeia é tão negro que até queima o espírito.

Até amanhã. 😉

Nota: além do nome a turma também é fictícia.

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