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Uma questão de tempo

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TEMPO_CONGELADOHoje coisas banais e alguma trivialidade de escrita. Não peço desculpa, é mesmo uma questão de tempo. E o Alexandre voltou a ter uma boa quota parte de responsabilidade. Valha-lhe isso mesmo.

Hoje uma questão de ou sobre o tempo. O nosso tempo, o tempo escolar e pessoal, o individual e educativo. Uma mera questão de tempo.

O tempo é diferente consoante o tempo que dele fazemos e para que o queremos. O mesmo tempo, por que circunscrito a um momento, tem diferentes significados consoante os envolvidos e as envolvências.

Desde o momento fulgurante de uma paixão, ao tempo que se arrasta de uma situação ou circunstância. O tempo é vivido e percepcionado de muitas e diferentes maneiras.

O tempo precisa de tempo para dar sentido a nós mesmos e ao tempo, o nosso tempo ou o nosso momento que é de tempo feito. Precisamos de tempo para conferir sentido e significado às coisas e a nós mesmos. É o tempo que separa a espuma dos dias, que cria fronteiras entre o que é importante e aquilo que passa.

Sendo eu formado em História, disciplina que remete para a relação que temos com o tempo, com um tempo, este torna-se algo incontornável em qualquer processo de análise, insubstituível na criação de princípios de relatividade, seja da dor como da alegria, das preocupações como das emoções.

Contudo e de há tempos a esta parte que o tempo se esvai por entre os dedos, por entre as múltiplas situações e circunstâncias que nos atormentam.

Diferentes pressupostos no tempo.

Para os professores o tempo é algo complicado de gerir, de utilizar, de ter. H. Heardgraves (1994, Os Professores em tempos de mudança, Mc Graw-Hill, Lisboa) identifica algumas formas ou sentidos dado ao tempo pelos professores, desde o tempo fenomenológico, ao socio político, passando pelo técnico e racional ou micro político o tempo é encarado essencialmente como mecanismo de constrangimento na e para a mudança escolar e educativa.

Quantos de nós não fizemos alguma queixa sobre a falta de tempo para isto para aquilo. Contudo, muita das vezes o tempo é utilizado enquanto elemento de desculpa, podendo, em face das circunstâncias e dos contextos (cá está, outra vez, uma questão de relação entre um tempo, um espaço e os saberes) ser utilizado enquanto argumentação (precisamos de tempo para…) como de justificação (não tive tempo de…).

O tempo e em particular a sua falta, é sempre uma referência para gerirmos interesses, darmos conta de objetivos ou simplesmente de negociarmos disponibilidades. Não sei hoje se o tempo nos faz ou se fazemos o tempo ou, terceira via, se nos fazemos e desfazemos mutuamente num enleio de coisas que raramente olham ao tempo.

Na escola (mas não só) o tempo tornou-se um clique. Um clique de aprender, estar e ser. São os alunos manifestamente enquadrados naquilo que designo de geração clique, que querem tudo num instante, fazendo do tempo um mero ponto, um clique. São os próprios professores que querem soluções a tempo e em tempo, rápidas e indolores, que poupem tempo. São os pais Encarregados de educação que pedem tempo para si e para os seus, para o presente e para um futuro da qual duvidam, na melhor das hipóteses. É o tempo político, desfazado do escolar, que perde tempo no tempo que não se tem, na urgência dos indicadores e das variáveis que não consideram o tempo.

Afinal e simplesmente é o tempo que passa e nós com ele. Nunca como hoje se torna mais pertinente a referência que é preciso dar tempo ao tempo.

Manuel Dinis P. Cabeça

Novembro, 2015

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3 COMENTÁRIOS

  1. Gostei mesmo muito daquilo que o Manuel Cabeça “sem tempo” escreveu mas queria apenas sublinhar que as frases “cada vez tenho menos tempo” ou” não tenho tempo para nada “que se ouvem provenientes de professores, alunos, pais , mães – e não sei se toda e qualquer pessoa escapa a este lugar comum- são para mim enigmáticas. Explico
    -Não se tem tempo para quê ? Lá vem a definição do tempo : será ele uma ocupação permanente?
    Será algo que se contabiliza fácilmente em minutos ou horas que consumimos na realização do que
    nos é solicitado profissionalmente ? É que oiço por aí “gastei muito tempo” a preparar aulas por ex a
    realizar qualquer tarefa que é da sua exclusiva competencia.Mas então o” tempo gasta-se ” quando
    significa um período normal da nossa atividade ? Como aquele médico que se lamenta dum periodo
    longo, mas necessário,que lhe foi exigido para que o diagnóstico e suas consequências fossem
    entendidos e logo úteis ,ao doente.
    E o meu enigma mantém-se refletindo em muitas outras situações.Para encurtar apenas dizer que” o
    tempo” enquanto momento de ócio também não merece ser maltratado.É necessário, é saudável, é
    útil, é profícuo. A História Universal em todas as suas vertentes é rica na demonstração do valor deste
    “tempo” a que me refiro.

  2. Mais um artigo brilhante Manuel. Adorei! E permite-nos refletir na importância do tempo e na complexidade que é ter tempo, desejar tempo mas também de quem se aproveita do tempo, ou falta dele, para justificar o injustificável. Parabéns!

  3. costumo dizer, entre provocação e desafio (o que é um sem o outro) que só não tenho tempo para aquilo que não quero,
    ou seja, a gestão do nosso tempo é quase sempre uma questão (ou gestão) de prioridades, de hierarquias, de interesses e objetivos;
    dizer que não tenho tempo para pode significar tão só que não estou interessado, não faz parte dos meus objetivos, tou noutra, não chateiem;
    é mesmo uma questão de tempo… ou de interesses;
    agradeço os comentários, fazem-me ter tempo para quase tudo
    🙂

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