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Uma questão de sucesso

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O mote está lançado. Na preparação do próximo ano letivo, faz-se um certo balanço do que foi feito e perspetiva-se mais do mesmo.

Mais. Muita da conversa e da escrita é retomada, com mais ou menos exemplos, mais um menos práticas/resultados.

Ao se retomarem conversas antigas por via de políticas educativas antigas ou requentadas virá daí mal ao mundo? Incorrerá a escola em prejuízo? Serão os professores envolvidos alvo de discriminação, trabalho assoberbado ou desvio pedagógico? Serão os alunos abrangidos pela medida alvo de estigma, guetizados, excluídos ou limitados na sua ação pessoal e pedagógica? A qualquer uma das questões direi simplesmente que não.

E digo mais, a questão do (in)sucesso escolar e educativo é muito mais que simples tutorias. Vai além de medidas de política educativa, transcende, em muito, as limitadas esferas de ação educativa. As questões em redor do (in)sucesso envolvem e implicam concepções diversas, modelos vários, ideias diversificadas. Ou seja, se há exemplos que podem ser enquadrados no contexto das designadas políticas públicas de educação (transversais, carregadas de ideias e valores, altamente simbólicas), as que se referem ao (in)sucesso são assumidamente um desses conjuntos.

Falar de (in)sucesso e, muito particularmente, falar das medidas de promoção do sucesso implica quase que inevitavelmente falar de modelos e práticas pedagógicas – do professor, do serviço letivo e não letivo, dos modos de organização da escola, do tipo de respostas educativas, da relação que têm (ou não) com os contextos (sociais e geográficos). Implica, por outro lado, trazer para a discussão  concepções e ideias de aluno – do seu trabalho, das suas funções, do seu papel, dos seus desempenhos, do seu empenho. Implica falar da e com a família, as suas relações, dificuldades, papéis e concepções.

Falar de (in)sucesso implica falarmos, na escola sobre o que é o insucesso e o que é o sucesso. Há quem considere que 30% de níveis inferiores a 2 é “normal”. É um valor aceitável, consoante as disciplinas (aceita-se na matemática, não se percebe a educação visual, compreende-se em física e química franze-se o sobrolho na história). Ou o período letivo (aceitável no 1º período, de desconfiar no 3º).

As tutorias são um modo, uma estratégia que o governo assume como central na promoção do sucesso. Depois de existir insucesso. Isto é, as tutorias são uma medida para quem já caiu ou foi alvo no insucesso, para quem já teve pelo menos duas retenções. É insuficiente? Claro que é. É curto, é escasso? Obviamente que sim.

Contudo, retomo uma ideia que me é cara, o papel do local na identificação de propostas de trabalho. A questão central, nesta e em muitas das medidas, passa por ser o local (os professores, o conselho pedagógico, o conselho geral), a assumir o que é, num contexto concreto e numa realidade objetiva (social e cultural, económica e geográfica) in/sucesso. A partir dessa ideia, então procurar quais as opções para evitar o insucesso, qual o conjunto de estratégias a usar no sentido de valorizar o trabalho do aluno, apoiar o trabalho docente, salvaguardar a ação da família, identificar factores de sucesso.

Falar é fácil? Pois é. Obedecer é muito mais fácil. Teoria é fácil? Claro, acusar as políticas educativas é igualmente fácil. Tanto quanto apontar o dedo culpando outros, é prático. Isolar variáveis como que culpados, é o hábito. E é sempre o outro – os outros.

Difícil é construir, localmente, pontos de consenso (pois eles não existem “naturalmente”). Difícil é o local envolver-se nas suas soluções, identificar quais as suas propostas de trabalho. Difícil é o local assumir a opção por outros modelos, criar propostas adequadas à sua situação, pensar a organização mais ajustada à(s) sua(s) realidade(s). Difícil é adequar recursos a soluções.

Fácil, fácil é mesmo moer problemas.

Manuel Dinis P. Cabeça

Coisas das aulas

23 de janeiro, 2017

imagem daqui

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