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Uma flor

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A D. Dália é uma senhora de personalidade forte, esperta que nem um alho, nas suas próprias palavras. À D. Dália ninguém faz o ninho atrás da orelha. É daquele tipo de pessoas que é muito difícil de enganar, que tem sempre uma opinião firme sobre as coisas (todas as coisas) e que não tem qualquer pejo em as expressar, seja onde for, seja a quem for, porque a frontalidade é uma das suas maiores virtudes.

florA D. Dália não tem muita instrução, pelas mais variadas razões lá da sua vida, mas faz questão absoluta de que isso não a iniba em nada. Pelo contrário, a universidade da vida, como costuma referir, tem-lhe dado todas as ferramentas de que necessita para percorrer o seu caminho com muito sucesso. A par da humildade com que foi abençoada, a D. Dália é uma senhora muito orgulhosa da sua maneira de ser e nunca permitiu – nunca – que descartassem ou menosprezassem a sua opinião com base na sua impreparação (ou em qualquer outro fundamento, diga-se a bem da verdade). Mais, está firmemente convencida que tem tanto direito a opinar como qualquer um e não admite a ninguém que ponha em causa esse direito, elle est charlie, ora essa, foi para isso que fizemos o vinte cinco de abril, afirma com frequência, o plural ‘fizemos’ a estufar-lhe o peito.

A D. Dália tem perfeita noção que carregará eternamente a cruz de não ser compreendida ou apreciada pela maioria das pessoas. Sabe muito bem que, a maior parte das vezes, os outros, estúpidos como são, confundem a sua intuitiva sabedoria de mulher humilde do povo com ignorância, tacanhez e atrevimento. Mas não faz mal. Ela sabe que tem (sempre) razão e essa fé inabalável proporciona-lhe a força intrínseca de continuar a brindar os outros com as suas inesgotáveis pérolas de sabedoria. Faz amiúde reparos observadores e sagazes em relação à vida das outras pessoas, percebe nas pequenas coisas irregularidades passíveis de investigação policial, suspeita de como vivem na incongruente abundância sem verdadeiramente trabalharem para isso, de como parecem indecorosas as suas rotinas, de como se orientam obscuramente em benesses injustificadas.

A D. Dália reconhece a milhas a esperteza saloia de todos os que pensam enganá-la, sabe lindamente como contorná-la e isso traz-lhe uma imensurável felicidade. Por exemplo, costuma celebrar com uma portentosa bola de Berlim na pastelaria da esquina a sua consulta médica mensal, onde um chico-esperto, só porque é doutor, acha por bem amedrontá-la com os níveis dos açúcares e dos trinãoseiquê e as maldosas profecias dos achaques dos velhos. Tá bem, tá. No supermercado, compra sempre duas tabletes de chocolate. Uma para si própria, que partilha generosamente com o seu Pantufa, apesar do imbecil de veterinário lhe afirmar categoricamente que os cães não podem comer chocolate, porque o seu organismo não processa nãoseiquê. A outra, esconde-a ardilosamente debaixo da almofada do neto, quando o sabe de castigo e impedido do desfrute de quaisquer guloseimas. Sabe lá aquela parvalhona da nora como se educam crianças. Sempre a embirrar com o miúdo por conta dos palermas dos professores.

Ah, se a D. Dália mandasse, outro galo cantaria e o mundo seria certamente um lugar melhor.

MC

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