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Uma Escola, Dois Sistemas

O problema é da quase total ausência de valores, de regras, de educação e de instrução. Ou da sua subversão.

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O verão quente passara, mas as autênticas guerras entre seguidores do MRPP, dos ML e do MIRN tinham sequelas diárias com recorrentes chuvadas de pedras da calçada.

Até ao dia em que o Ministério da Educação teve de colocar um ponto final nas arruaças, restabelecendo a ordem e deslocando para aquele liceu um corpo docente ‘de luxo’, pela qualidade pedagógica e pela autoridade e capacidade disciplinadora.

Do professor Froes (de Filosofia) – presidente do conselho diretivo e referência para todos os alunos – ao professor Correia (Português), de Maria Manuela Azevedo (Latim) a Edite Estrela (Português e Francês) ou João Joia (Física e Química), do professor Mota à professora Margarida (ambos de Educação Física) ou à ‘Piteca’ (carinhosa alcunha de uma extraordinária professora de História, já de idade, pequenina, franzina, mas dura como tudo e que punha a gandulagem toda em sentido) ou ao ensimesmado mas implacável professor Nafarro (Geografia).

O liceu tinha de tudo, mesmo de tudo, e, como dizia o professor Correia, todos os que por lá passavam e sabiam resistir – na altura, havia droga em abundância e morria-se por overdose ou por consumo de outras substâncias adulteradas e tóxicas – saíam mais bem preparados para a vida.

O D. Dinis era, mesmo, uma escola de preparação para a vida. Como outros liceus, igualmente inseridos em zonas críticas da capital, como o Passos Manuel, Camões, Afonso Domingos ou Josefa.

Os Viveiros, o Rainha, o Filipa ou o Pedro Nunes eram para quem à época era conhecido por ‘betinho’. Tinham outros problemas. E, porventura, não menores.

A verdade é que, criado o 12.º ano de escolaridade e havendo uma só escola entre Olivais e Chelas só para esse ano de acesso à universidade, os alunos vindos do D. Dinis davam ‘baile’, tanto nas notas de final de período como nas dos exames nacionais.

À época não havia rankings com a fartura dos dias que correm, mas a verdade é que estavam muito mais bem preparados.

O Liceu D. Dinis era, já então, também famoso pelas suas instalações desportivas (tinha um pavilhão onde se disputavam jogos da primeira divisão de andebol – já que era a ‘casa’ do Clube TAP – e de futebol de salão – jogava lá a mais famosa equipa do Correio da Manhã) e promovia torneios de tudo e mais alguma coisa (havia campeonatos de xadrez e de damas) em cada final de período. E a rádio do Liceu (dos alunos), precursora das piratas, dava música e notícias.

As guerras da pedrada deram lugar a disputas no campo de futebol de cinco, entre as tabelas de basquetebol, no pavilhão de andebol ou nas corridas de corta-mato nos descampados circundantes.

A organização era complexa mas impecável. Os professores eram árbitros, polícias, advogados e juízes, eram tudo – eles ditavam as regras, davam as ordens e o pessoal cumpria.

Incluindo na gestão dos balneários, que a coisa não era fácil de controlar com tantas equipas e tanta competitividade e, não raro, tanta tensão.

Recordar hoje esses tempos é dar real valor àqueles extraordinários professores que geriam como ninguém todo um caldo social a fervilhar numa panela de pressão que ameaçava fazer saltar a tampa a qualquer momento.

Eram, de facto, extraordinários. E tudo acabava por decorrer num quotidiano de normalidade digno de registo.

O que valeu aos professores do D. Dinis daqueles idos anos de 70 e 80 e às gerações de alunos ali instruídos e preparados para a vida foi o apoio que o Ministério da Educação lhes deu, independentemente do partido no poder.

Os professores tinham autoridade e capacidade para impor disciplina e valores.

Essa autoridade, essa disciplina e esses valores não foram impostos por despacho do Ministério então sediado na 5 de Outubro.

Ao Ministério cabia definir políticas e apoiar e dar meios a um corpo docente capaz de liderar e de lidar com jovens de diferentes orientações políticas, religiosas, sexuais, com comportamentos mais ou menos problemáticos, legais e ilegais, num quadro social muito complexo, mas gerível com autoridade e disciplina.

O problema do sistema de ensino é que tudo isso se inverteu. O papel do Ministério, o papel dos professores e os dos alunos e os dos pais dos alunos.

O problema não é dos despachos, nem dos professores, nem dos alunos e dos pais ou encarregados de educação.

O problema é da quase total ausência de valores, de regras, de educação e de instrução. Ou da sua subversão.

Na escola, mas, muito pior, na sociedade que a amesquinha.

Tudo o resto é baralhar e dar de novo.

Fonte: Sol

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