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Uma escola da aldeia, se eu puder escolher!

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A mim, por mais que reflicta sobre isso, não me convencem Mega Agrupamentos, nem Escolas Sede a abarrotar de crianças, mesmo que cheirem a cimento, tinta fresca e tecnologia.

Sucessivos executivos foram invocando argumentos vários para acabar com a realidade das escolas pequenas. Em 2006, com Maria de Lurdes Rodrigues, foram quase 1500 a fechar. Alegam que os edifícios maiores têm melhores condições de ensino, mais recursos, como melhores bibliotecas e pavilhões desportivos; mais colegas da mesma idade e mais apoio para os docentes.

Há-de haver alguma verdade em tudo isto, mas não toda. Mais, nem sempre é melhor. Quantidade, nem sempre é qualidade. E, inegavelmente, há um intuito economicista neste reordenamento escolar a que é alheio o supremo interesse das crianças e pais contribuintes. Não há, como querem fazer crer,  uma relação directa entre a reduzida dimensão da escola e o insucesso.

A principal razão para o encerramento dos pequenos estabelecimentos de ensino prende-se com questões de contenção orçamental e não com a eficácia do ensino.

Na era da tecnologia, aliás, o argumento do isolamento é absolutamente falacioso. A escola pode ser rural e estar conectada com o mundo – o que é preciso é garantir o acesso à Internet.

Fechar as escolas pequeninas é cavar mais um pouco o buraco do despovoamento e acentuar os desfasamentos demográficos e económicos do país.

Normalmente, depois de fechar uma escola, fecham-se outros serviços como correios e centros de saúde. Por vezes, as autarquias ainda “aguentam os cavalos” por uns tempos, mas o ME é implacável com o fenómeno da redução do número de alunos. Não se quer alocar docentes e assistentes operacionais a instituições com menos de trinta alunos.

Contra os números, fica o meu testemunho como professora e encarregada de educação. Eu prefiro escolas pequenas, onde dificilmente há stress, indisciplina ou a necessidade de castigos. Onde todos se conhecem pelo nome, como se de uma família se tratasse. Onde o apoio a cada aluno é literalmente individualizado.

Eu prefiro a escola da aldeia, onde os miúdos estão enraizados na vida comunitária, convivem com os seniores nas festas de natal e nas sardinhadas de S. João.

Na escola da aldeia, o recreio ainda pode sujar as calças, por ser em terra batida, mas eu não me importo de esfregar essas nódoas, como mãe, e, como professora, sinto que esses intervalos que foram bem “corridos” e “jogados” no meio da natureza se reflectem em aulas mais produtivas, com maior concentração. (só faz falta é lavar as mãos primeiro!)

Como professora sinto que há mais meninos com ansiedades, hiperactividades e deficits de atenção nas escolas de maior escala. Escolas mais desumanizadas. Com tantos recursos prometidos, mas que, afinal, se revelam insuficientes: tão poucos funcionários para tantas crianças!

No primeiro ciclo, que bem que os meninos ficam na aldeia e perguntem aos séniores que lá habitam se é ou não uma alegria ter crianças por ali.

Honestamente, até me confunde e desentendo a forma como alguns pais que residem nessas aldeias preferem matricular os filhos em escolas da cidade. Podendo ter um ensino de qualidade, optam pela massificação. Provincianismo que não entendo.

Felizmente, há um grupo emergente de êxodo divergente, em busca de modelos de ensino mais alternativos e mais personalizado. Pode ser que, assim, ainda se salvem algumas.

Se eu puder escolher, se as não fecharem todas, eu não opto pelo betão. Eu prefiro o clássico edifício em granito do Plano dos Centenários, imagem de marca das escolas construídas no Estado Novo.

Marta Pereira

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7 COMENTÁRIOS

  1. Olá Marta excelente texto. Sou professor num centro escolar. Que saudades enormes da pequena escola. Um abraço para todos aqueles que mantiveram viva durante anos essa realidade. A minha revolta e o meu repúdio para os iluminados dos centros escolares.

  2. Era uma escola tranquila, sem “ruído, numa sã socialização… Tinha muito mais qualidade a escola de antigamente. E decerto mais económica para o estado, embora digam o contrário.

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