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Uma Docência Cansada

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«Dias que não passam nas escolas

Início do ano letivo. A reunião estava quase no fim. Sentadas à volta de uma mesa enorme, olhávamos umas para as outras com um ar entre o triste e o expectante. Não estava a ser fácil concluí-la. Era necessário que uma de nós assumisse uma determinada função e nenhuma considerava estar capaz de o fazer. Não se tratava de uma fuga caprichosa ao trabalho que se impunha. O facto é que cada uma das sete professoras presentes havia apresentado motivos válidos, que justificavam a sua escusa. Ou porque tinham muitas turmas, ou muitos níveis para lecionar, cansaço físico, desgaste emocional, problemas de saúde que não se compadecem com o ritmo, a energia e o entusiasmo necessários para o desempenho do cargo em questão. Perante a situação, a diretora de turma, resignada, assumiu o papel em causa. Concluiu-se, enfim, a reunião e fomos saindo da sala. Deixámos a diretora de turma e a secretária a concluir os procedimentos burocráticos habituais – a conclusão do preenchimento de grelhas, a verificação de assinaturas e demais papelada que perdura na organização escolar.

No corredor que conduz à saída da escola, sentia-se um silêncio pesado. Vínhamos tristes. Nenhuma de nós disse nada porque nada havia para dizer. Ouviram-se suspiros.
Na escola, respira-se uma docência cansada. Sente-se o peso da idade e quem lá trabalha reconhece este peso. Reconhece-o na lentidão com que se sobem as escadas, nas passadas mais curtas ao longo dos corredores da escola, no corpo vergado ao peso das pastas e dos livros, no respirar mais pesado no fim de cada aula, nos fundos suspiros que se escutam pelo meio das conversas informais. A par do peso dos anos, também paira no ar o desgaste de uma profissão cuja praxis se mantém ao longo do tempo. No início ou no fim da carreira, a grande maioria dos professores mantém, na essência, a mesma atividade: dar aulas e desempenhar cargos e rotinas a isso associados.

São professores que viveram já um tempo muito difícil e exigente, professores que se formaram numa pedagogia exclusivamente humana, alicerçada no saber dos mestres e que se adaptaram, com sucesso, a uma pedagogia humano-tecnológica que a ciência e a técnica ofereceram à didática. Nestes professores reconhecem-se a experiência, a segurança, a solidez consistente de um saber adquirido, trabalhado e estruturado ao longo dos anos vividos numa profissão estimulante. Mas, paradoxalmente, a capacidade de resposta a esse estímulo, a capacidade de fazer despertar no aluno a centelha do interesse na pesquisa e na procura de mais conhecimento, exige um esforço cada vez mais difícil. O ritmo é mais intenso e a idade, sorrateira, de mansinho, vai chegando. Conscientes, os professores ajustam-se, adaptam-se e recorrem a tecnologia mais sofisticada e funcional que, aliada à solidez do seu conhecimento, lhes permite cumprir melhor a sua missão. Mas ainda assim, inexoráveis, a impaciência e o cansaço vão-se instalando.

Hoje, é frequente, terem uma carga horária significativa, muitas turmas, vários níveis de lecionação, uma multiplicidade de funções, cargos e responsabilidades que, no seu conjunto, concorrem para um cansaço que a todos consome. Os desafios podem continuar a ser aliciantes, mas conseguir responder-lhes exige uma energia que já nem sempre é possível. Não se consegue fazer tudo que, obviamente, se quer fazer bem, com profissionalismo e competência. “Ser competente” não é o mesmo que “ter competência para”; “ser competente” traduz “mobilizar o que se sabe para fazer bem”; e os professores querem “fazer bem” porque se sentem “professores”, pessoas que ensinam a “fazer bem”. Talvez seja (também) isso que acaba por os levar a afastarem-se quando reconhecem que já não lhes é possível. Talvez.

Por isso, o silêncio em que saímos daquela reunião foi tão triste. Tão incómodo. Tão pesado. É que quem é professor traz dentro de si a vontade de querer construir e, quando reconhece que não o consegue, ficam apenas os suspiros, o silêncio, o vazio.»

Ana Luísa Melo

15-09-2019

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1 COMENTÁRIO

  1. Fica o desânimo, a desmotivação…a desmobilização ….
    E, afinal de contas , quem ou como reconhecem as Instâncias Educativas / Ministeriais , a importante missão que tem um Professor na condução dos destinos e destrezas dos futuros profissionais da Sociedade ?
    Simplesmente tratam-nos com displicência…, conforme se constata no exarado do teor do texto supra .

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