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Um professor pode ter 30 anos e ser velho, como um professor pode ter 60 e ser novo

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Correndo o risco de ver mísseis a serem disparados nas redes sociais, pois alguém, ainda por cima professor, ousou criticar a postura de alguns colegas, julgo que a forma como nos ligamos aos alunos é um tema que merece ser discutido e este espaço é exatamente para isso… Para refletir e opinar, com a educação que a idade e responsabilidade nos incute.

Então cá vai.

Vou passar por cima de todos os problemas crónicas que os professores passam. Isso mesmo, pois se começo a ir por aí escrevo um texto de 5 páginas… A burocracia, o excesso de trabalho, a carreira, a indisciplina, passemos à frente. Até porque tal como um jogador de futebol, durante um jogo, nenhum professor está a pensar na carreira, nas reuniões enquanto está a dar aulas…

Na minha opinião, um dos maiores obstáculos ao ensino é o distanciamento do professor perante o seu aluno. Longe vai o tempo que bastava o professor entrar na sala de aula para que o processo de ensino se iniciasse. Hoje não, tudo é mais complexo, tudo é mais complicado, pois o aluno deixou de ser passivo, tornando-se “algo” ativo e o resultado de inúmeras situações que ocorrem dentro e fora da escola.

Sou um fortíssimo defensor da empatia enquanto catalisador no ensino. Ninguém aprende de quem não se gosta, como ninguém aprende de quem não se quer estar.

Ouço os comentários dos alunos, apesar de lhes chamar a atenção de que o respeito deve sempre existir, mas frases como “aquele professor é uma seca”, acredito que muita gente já ouviu, seja professor, aluno ou pai. E provavelmente o aluno até pode ter razão, pois já estive em palestras de altos Doutorados que ao fim de 10 minutos simplesmente comecei a pensar no que ia fazer para o jantar…

Na ideia desse professor, ele até pode julgar que está a fazer bem e até estará, mas é como se fosse uma refeição sem sal e hoje em dia, os alunos querem e precisam de comida muito condimentada, pois lá fora a comida é muito variada, extremamente apetitosa e muito, mas muito condimentada.

O professor é um ser humano e nas escolas há muito professor velho mas também muito professor novo, mas onde a idade não passa de um número no cartão de cidadão. E essa idade espiritual é claramente visível na relação que os professores têm com os alunos, na capacidade de ajustar o discurso a estes, na capacidade de compreender as suas conversas, os seus gostos, os seus desejos, os seus amuos, lidando com eles, gerindo-os e canalizando as suas energias para a aprendizagem.

Tal como um pai ou uma avó é capaz de brincar, ou não, às bonecas/carrinhos (ai a ideologia de género…) com o filho/neto. A capacidade de descer ao mundo deles, prova que o espírito ainda tem alguma/muita jovialidade.

Por outro lado, há quem goste de manter um distanciamento significativo, que não se adapta, nem vai ao encontro dos objetivos e características dos alunos. Que recusa associar ideias, ou dizer certas palavras que, na sua cabeça, desprestigia o estatuto do professor. Mas qual estatuto? Um professor que dá aulas a pensar no estatuto, não é professor, é um doutor no mau sentido da palavra, ou se preferirem um snob intelectual.

Que não percebe, ou pior, não quer perceber os caprichos da idade, as irreverências próprias e que são salutares desde que permaneçam dentro de certos limites. Esse alguém, quer algo que não existe, quer algo que desapareceu há 40 anos, não quer alunos, quer um lar de terceira idade (com o devido respeito) onde o movimento, o entusiasmo e as conversas são de outro patamar, claramente diferentes e irreais no contexto escolar atual. Esses são os professores velhos, tenham eles 30 anos ou 60 anos.

Nota: os professores têm uma tendência natural para ficar logo à defesa quando algo lhes aponta o dedo, sendo esse efetivamente o primeiro sinal de que algo não está bem, a incapacidade de reconhecer que também os professores precisam de evoluir, não são um produto finalizado e tal como os alunos, também eles podem e devem aprender, inclusive dos próprios alunos…

E como eu gosto de aprender!

Alexandre Henriques

 

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