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Um Problema No E&D: O Direito À Imagem

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Nas sessões síncronas uma maioria bastante significativa dos meus alunos não têm disponibilizado a sua imagem com base no direito à sua imagem. O professor tem à sua frente um ecrã com mosaicos escuros. Esta situação tem de ser resolvida para se poder utilizar o ensino à distância, pois como as coisas estão não sabemos se os alunos estão presentes nas aulas à distância. Para contornar este problema comecei por solicitar a sua participação com voz, o que só resultava marginalmente, depois em vez de fazer a chamada no início, comecei a fazê-la no meio ou mais perto do términos da sessão. Mas tudo isto é contornar o problema principal que a seguir se explana.

Os alunos têm de frequentar a escola obrigatoriamente até aos 18 anos, no ensino presencial há a recolha de faltas e também o controlo da postura do aluno na sala de aula. Não se percebe porque não haja também um controlo visual do aluno durante o E&D. Portanto, o normal seria o aluno disponibilizar a sua imagem e estar apresentável para participar na mesma, tal como se viesse para a escola, pois a aula à distância substitui a aula presencial, estão porque permitimos que o aluno ainda esteja na cama, como alguns me confessaram, para não mostrarem a imagem? Além de que não sabemos se o aluno está a prestar atenção ou se está ao telemóvel. Assim, para o ensino à distância continuar e eu espero que seja somente como supletivo do ensino presencial, tem que se legislar para que o aluno que esteja presente nas aulas síncronas, mostre a sua imagem e tenha postura adequada. Entre o direito à imagem e a obrigatoriedade de frequentar a escola, mesmo no E&D, com controlo dos alunos pelo professor, acho que deve prevalecer a segunda, já que a educação é um bem coletivo e o direito à imagem é individual.

Claro que este não é o único inconveniente do E&D, mas os outros, como a interação professor/aluno limitada, a discriminação dos alunos que não têm acesso à tecnologia, o que limita a escola pública como elevador social, já foram abundantemente referidos, tornam o E&D um remendo em alturas de crise. Deixo em aberto que possa suplementar o ensino presencial, mas o aluno deve ter deveres, como o de mostrar a sua imagem e apresentar durante a aula uma postura adequada, tal como tem deveres no ensino presencial. Além disso, tenho conhecimento de tentativas de boicote das aulas síncronas, como alunos que acedem mais cedo ao «classroom» para controlarem a sessão e tirarem o som ao professor, ou mesmo situações de indisciplina que levaram à exclusão de alunos destas sessões, pelo que é fundamental o professor ter controlo das aulas.

Concluindo, o E&D pode ser uma forma de complementar o ensino presencial, mas o direito à imagem não pode servir de pretexto para o aluno não ser controlado pelo professor, em termos de presença e postura durante as aulas, senão as aulas à distância deixam de ter dignidade.

Rui Ferreira

10 COMMENTS

  1. Rui Ferreira, a imagem na rede é diferente da imagem ao vivo numa sala.Ao vivo Não se expande até ao infinito.

    Relativamente ao ser-se expluso de uma videoconferência não tem nada demais. Fazes o mesmo numa sala de aula!

  2. Concordo e discordo. Tem razão quando diz que o [email protected] é um remendo à altura da crise. Um mau remendo que a Madeira soube resolver muito melhor. Concordo que dados os circunstancialismos do [email protected], este foi mais uma machadada na dignidade da educação e o manancial de desmandos e de indisciplina experienciados pelos professores são uma evidência disso. Discordo quando diz que sendo a educação um bem coletivo e o direito à imagem um bem individual deve prevalecer o primeiro sobre o segundo, se assim fosse estaria instalado o coletivismo. Felizmente estamos longe da Coreia do Norte e ninguém determina o nosso corte de cabelo. Discordo também, quando diz que os alunos têm o dever de mostrar a sua imagem. Os alunos não têm o dever de mostrar a sua imagem, têm o direito de a preservar e os professores deviam ser os primeiros a fazer o mesmo. O [email protected] foi um remendo urgente, como tal, ninguém teve tempo, nem oportunidade, nem frivolidade para equacionar as consequências da sua aplicação. Foi tudo ao molho e fé em Deus. A verdade é que pais e alunos devem ser firmes na preservação da sua imagem. Os professores estão tão habituados a ver virados do avesso os seus direitos, a ver entrar e sair da sua vida qualquer um, estão tão despersonalizados, tão habituados a não ter horário, nem vida privada, que se expõem gratuitamente a cada clique, tão mergulhados estão nesta insanidade que a consideram normal e pretendem que se alastre ao resto da sociedade. Os professores não são figuras públicas, não ganham o ordenado de figuras públicas, o que compensa o prejuízo da exposição, no entanto, de forma completamente alienada, mostram a sua casa, o seu quarto, o seu espaço familiar, a sua família, os hábitos e necessidades dos seus filhos, os modismos do seu relacionamento, a sua intimidade. Transformados em youtubers de ocasião, a troco de nada, constrangem com decisões e ações os restantes membros da comunidade educativa a fazer o mesmo. A educação não pode transformar-se num grande Big Brother. O que em contexto presencial, seria considerado perturbador, como a entrada de alguém estranho numa reunião que requer sigilo, esta mentalidade prepara para que se normalize: qualquer um pode entrar numa reunião on-line, qualquer um pode observar uma reunião on-line, em direto ou em diferido, qualquer um pode gravar uma reunião on-line, qualquer um pode fotografar a imagem de um professor, exposta no écran de um computador, divertir-se fazendo photoshop e impulsionar o circular no whatsapp da sua criação, acompanhada com comentários de chalaça. Os professores, entretidos com os brinquedos tecnológicos e divertidos com as aprendizagens de competências novas, ignoram os perigos que rondam esta exposição. No rescaldo, espero que pais e alunos resistam, por todos nós, e não permitam a normalização da exposição pública. O ensino à distância pode trazer muitas vantagens, mas se não há contenção e escrutínio de como e quando o aplicar, e se se subjugam os direitos individuais de professores e alunos a interesses inconfessados , os riscos dessa aventura não ficarão à distância.

    • Maria, parabéns pelo seu extraordinário pensamento relativamente a esta matéria. E lamentar a atitude da grande maioria dos professores, que apenas têm demonstrado ser o que verdadeiramente são: uns bons e leais funcionários, desprovidos de qualquer coluna vertebral.

    • Por isso é que nem eu nem os alunos mostrámos imagem…. No teams só áudio… e foram eles que começaram assim, ainda tentei que existisse vídeo, e começaram a dizer que a câmara estava avariada… Ponderei e não voltei a referir o caso, colocaram uma foto de perfil e aqui estamos…. Para quê mais preocupações, sei lá o que estão a fazer do outro lado, mas a gravar as minhas aulas certamente não terá interesse, se estão deitados ou não, a jogar ou a ver tv, sei lá… são propostas tarefas para a semana, que as realizem…

      • Sou professor e não tenho qualquer receio da minha imagem ficar disponível para o Sr. Ministro da Educação, o Sr. 1º Ministro e sua Exª o Sr. Presidente da Republica. A solução adotada, em face das circunstâncias deste momento estranho, não sendo a ideal (nesta situação o ideal talvez seja uma utopia), parece-me a mais sensata. Sou adepto da transparência e, neste contexto, considero a utilização da webcam um instrumento indispensável para um processo transparente e credível (alunos sem internet ou outros constrangimentos é outro assunto). A utilização de direitos de imagem para outros fins, deverá ser denunciada por todos os que defendem o melhor para a EDUCAÇÃO. Portanto, quem não deve não teme.

  3. Eu, como docente tenho direito à imagem e que está não apareça num sem número de ecrãs. EU NÃO QUERO MOSTRAR A MINHA Imagem. E não o fiz e pedi aos alunos para não o fazerem. Aulas sincronas não são videoconferências obrigatoriamente. As minhas foram audio conferências e todos os alunos participavam várias vezes na aula obrigatoriamente ou tinham falta. Conheço – lhes a voz a todos eles… Fala-se na imagem do aluno como se o professor não tivesse direito a recusar a vidroconferencia. Enfim..

  4. Enfim … O ano letivo está prestes a chegar ao fim e os critérios já foram definidos. Assim, parece-me de bom senso, na medida do possível, aguardar com normalidade o término do mesmo. Não obstante, no futuro deverão ser apresentados todos os argumentos dos prós e contras, relativamente ao [email protected] Permito-me, neste momento, não ter a certeza se serei dotado de ouvido absoluto e ter em conta o número de alunos e a natureza das tarefas propostas para identificar quem as realiza.

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