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Um outro olhar sobre as aulas, o que se passa nas aulas, com a minha revolta

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O ComRegras é isto mesmo, pluralidade e liberdade de opinião. Sei que o que vão ler pode originar reações mais quentes. Peço por isso moderação e respeito pela opinião de todos.


Desafiei o autor deste blogue a publicar este texto. Sou técnico de logística numa empresa, mas antes disso sou pai e trabalho com muitos colegas que são pais e tenho muitos amigos que também têm filhos nas escolas. Por isso, falamos sobre as nossas vidas e como é claro sobre os nossos filhos e sobre as suas escolas e as experiências que lá temos.
Também seguimos as notícias e vivemos na pele as consequências do que se passa.
E confesso-me revoltado com o que se passa. Não ponho em causa o direito a contestar. Também o faço na minha empresa e também negoceio com os meus administradores.
Mas deixe-me explicar o sentido da minha revolta, partilhada também por muitos outros.
A primeira razão é o sentimento de que os professores não conhecem a realidade à sua volta. Pedem que seja contado o tempo que trabalharam. Com certeza que é justo. Mas sabem quantos perdemos o emprego durante a crise? Sabem há quanto tempo a generalidade dos portugueses não tem aumentos salariais? Sabem qual é o salário médio de um licenciado e têm noção de que ganham em média mais e e que têm muito mais estabilidade do que todos nós? Não digo que ganham bem ou que ganham o que deviam ganhar, mas olhem à volta e saibam que a generalidade das pessoas com formação superior ganham mil euros?
Queixam-se de estar longe de casa. Mas acham que algum de nós tem o seu emprego em função da morada ou que tem escolha?
Queixam-se de burnout. E os outros? Os que trabalhamos 35 ou 40 horas por semana, lá no local de trabalho, com prazos que não se negoceiam, com metas de produtividade muito concretas, com trabalho que é levado para casa, a recebermos telefonemas dos nossos chefes e emails para responder a qualquer hora do dia ou da noite. Os dias de férias são os mesmos que os vossos, mas até ao dia de férias estamos sempre no local de trabalho. Sempre. E também temos que nos actualizar e fazer formações que pagamos para progredirmos. Também nos cansamos, também temos burnout, mas não andamos por aí a choramingar, porque assumimos que escolhemos a nossa profissão com tudo o que tem. Sabem a imagem que passam aos alunos do que é um profissional?
Mas tudo isso são questões de carreira, que nós também temos e com muito maior seriedade, porque os nossos empregos estão em causa e os vossos nunca estão.
Olhem para os outros, olhem para os pais dos vossos alunos, a quem cobram tudo. Tudo é culpa da família, tudo é culpa dos pais, mas nós temos vidas tão ou mais complicadas profissionalmente.
Mas tudo isto é entre pais e professores. A principal razão da minha revolta é o que se passa nas aulas, na relação com os nossos filhos. E a partir daqui conto só experiências com as minhas filhas e com filhos dos meus colegas.Faço uma lista, como a das compras e peço que pensem sobre isto para pensarem sobre os nossos filhos.
1.Todos os anos, todos os anos mesmo, há pelo menos um mau professor nas turmas dos nossos filhos. E mau é muito mau. Não cumpre o programa ou ensina com erros, corrige testes mal e recusa-se a admitir erros. Nós, pais, não temos qualquer meio de livrar os nossos filhos deste professor, nenhum! Fala-se nas reuniões de pais e não fazem nada. Desde respostas como que não posso falar pelo meu colega até sim é um problema vou levar ao conselho de turma e nada acontece depois. Há um comportamento defensivo sempre protector dos colegas e desconfiado em relação a nós, como se fôssemos desqualificados para opinar sobre o que se passa com os nossos filhos e sobre a forma como os professores ensinam.
O que pensam os professores fazer sobre isto? Porque nunca falam dos problemas deste tipo que são tão frequentes? Porque se protegem corporativamente?
2. A quantidade de aulas que os nossos filhos não têm é escandalosa. O dinheiro dos nossos impostos financia um absentismo que não tem comparação em mais nenhum sector. Muitos professores usam todas as baixas possíveis. Interrompem baixas longas só para não irem a junta médica. Toda a gente sabe isso e todos se protegem. Os conselhos directivos não fazem nada sobre isto.É uma vergonha. Greves e mais greves. Faltas e mais faltas. Falta um funcionário e torna-se moda fechar a escola. Nos nossos trabalhos, se um falta assumimos o trabalho dos outros, não prejudicamos os clientes. É chato? É. Mas o interesse dos clientes é a nossa credibilidade. Os professores queixam-se de falta de valorização mas faltam e faltam e faltam e faltam.
3. Há cultura de medo nas escolas, imposta por professores. Todos os que conversamos já nos vimos em situações, umas mais pontuais outras mais regulares em que dissemos aos nossos filhos que é melhor não dizer nada porque o professor o pode prejudicar. Os nossos filhos têm medo de questionar o professor, porque ele o pode prejudicar na nota. Que grave que isto é.
4. Todos os anos assistimos a falta de coordenação entre os professores. Marcam todos os testes na mesma semana, mandam uma carga pesadíssima de trabalhos de casa sem saberem se o outro professor também mandou uma carga igual no mesmo dia. Eles têm vários professores, mas é indiferente para os professores o que têm em cada disciplina. Nenhum adulto aguentaria o que estes alunos têm para fazer nalguns dias.
5. As visitas de estudo são uma vergonha. Os nossos filhos vão a visitas de estudo e os professores das outras disciplinas queixam-se porque as suas aulas ficam com menos tempos. Até parece que as visitas são um passeio e que não têm nada a ver com as aulas. E ainda temos de justificar as faltas deles.
6. Há muitos professores a fazerem comentários preocupantes aos nossos filhos. Num jantar com seis casais há dias, listámos entre os nossos 16 filhos as seguintes observações ouvidas em aula: burro, deves sair à tua mãe, estavas melhor numa escola profissional, leva isso para fazeres na explicação que eu não vou repetir outra vez, se estás triste alegra-te (a avó do aluno tinha morrido na véspera), aviso já que hoje não estou com pachorra para vos ouvir por isso fiquem calados. Não são coisas pontuais, mas são recorrentes..
Este é um comportamento regular para miúdos que vão para as escolas e ouvem poucos reforços positivos sobre o que fazem ou sobre o que são.
Sei que os nossos filhos podem ser muito indisciplinados e até mal educados. Não os desculpo. Com as minhas filhas nunca tolerei qualquer falta de respeito para com os professores. Mas o professor tem de estar acima desse nível e tem de saber corrigir comportamentos e não ser igualmente mal educado.
7. O discurso dos sindicatos sobre os professores é igualitarista. Todos são bons, todos devem progredir, todos devem chegar ao topo da carreira. Mas os professores sabem que não são todos iguais. Todos nós gostariamos de ter os nossos filhos na turma a e na turma b. São as turmas onde se encontram os filhos dos próprios professores. Os que não somos professores temos os filhos no horário da tarde ou na turma dos alunos problemáticos. Nada contra ter as minhas filhas com outros alunos, mas turmas de filhos de professores existem e ninguém fala nisso. Chama-se favoritismo.
8. Todos nós, mesmo todos, tivemos os nossos filhos a ouvir as queixas sobre a carreira no tempo em que deviam estar nas aulas a aprender. Quantos dos que estão a ouvir estes lamentos têm os pais desempregados, emigrados ou com dois trabalhos? A sala de aula é espaço para isso? Sabem o que é a vida profissional dos que têm à frente a ouvir os comícios individuais?
9. Também falámos sobre exames. Todos os que queremos que os filhos tenham boas notas pagam explicações. Todos. Quantos alunos com notas altas nos exames fazem isso sem explicações? Dadas pelos professores que dizem que não têm tempo para nada excepto dar horas e horas de explicações todas as semanas? Pagamos fora o que dizem que é burnout nas escolas. Sou de Lisboa, mas sei que nas terras pequenas os explicadores são os professores das escolas.
Nove pontos na lista e podia continuar.
Não leiam nisto um ataque aos professores. É um apelo à razão e ao profissionalismo.
Respeito-vos, mas respeitem as minhas filhas.
Para cada ponto mau, há muitos bons. Mas sabemos que há muitos pontos maus. Estão desmotivados e cansados? Também nós e não descarregamos nos clientes.
A opinião pública estará com os professores quando os professores não falarem apenas dos seus direitos mas também dos seus deveres e mostrarem uma preocupação real em erradicar estes comportamentos e atitudes do dia a dia dos nossos filhos.
Paulo Sousa
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44 COMENTÁRIOS

    • Se quiser mostrar que percebo a simplificação diria “Alguns professores” …. e já agora as escolas não são país real?

  1. Este pai deve estar a ver a escola da primeira metade do século passado. Pura fantasia. O Mocho4 deve ser daqueles professores socialistas que recebem o muito bom ou excelente sem o mínimo de mérito.

  2. Um longo discurso salpicado de boas observações: os professores devem ver o seu trabalho justamente reconhecido; os professores são um classe profissional sem comparação com qualquer outra e é um erro usar facetas da profissão para fazer analogias; em 120 000 profissionais é estatisticamente impossível não encontrar nódoas: os pais devem denunciar à Inspecção essas nódoas ( os colegas não o farão para não se assumirem como “bufos” e isso será válido para qualquer trabalhador que se integre numa equipa…ou para qualquer lobo numa alcateia!). Nós, sociedade, devemos apelar ao Governo para que, passado o estado de emergência da troika, se volte paulatina e seguramente à legalidade e não se utilize o passado para continuar a roubar o fruto do trabalho de quem quer que seja (o dinheiro existe e os corruptos ou quem vive do erário público parasitariamente, podem fazer uma pausa nos proveitos e, eventualmente, trabalharem em concorrência durante algum tempo?!….). Os professores no caso dos 942 estão cobertos de razão e devem ser justiçados! Quanto a outros assuntos levantados e omitidos, mas respeitantes à escola pública, temos de apontar baterias para quem decide, a saber, o Governo, a Assembleia da República e a Sociedade eleitora! Estes sim merecem todo o nosso cuidado e toda a nossa coragem/temeridade na denúncia e na emenda!

    • Entendo a pertinência de alguns aspetos referidos, maus profissionais existem em todas as áreas. No que toca à instabilidade não conheço outra profissão em que a instabilidade seja a constante como esta (mudar de residência várias vezes por ano, todos os anos, famílias separadas, porque os professores também têm filhos) Quanto às remunerações, posso dar o exemplo da perspetiva da minha filha sobre este assunto, ela emigrou para o Reino Unido para escapar à mentalidade portuguesa de dar-mos tudo e contentarmo-nos com vencimentos irrisórios. Isto é que tem de tem de acabar, ela é licenciada e se fosse acomodada ainda estaria a fazer estágios, a viver em casa dos pais e a contentar-se com um salário míseravel, como a escolha foi outra , tem uma posição permanente, casa própria e a empresa está a pagar-lhe um mestrado. Se o mérito fosse reconhecido neste país, a minha filha e milhares de outros jovens estariam a contribuir para o crescimento e desenvolvimento do nosso país. Ainda somos herdeiros da mentalidade do Estado Novo.

  3. David Ferreira, é apontar baterias a todos menos aos profissionais. Esses não são responsáveis por nada. É o que eu dizia. Só tem direitos, não tem deveres. E não é um em 120 mil. Experimente falar com pessoas à sua volta e sair do casulo das salas dos professores.
    E sabe o que acontece quando há queixas à Inspecção? Nada! Nem respondem. Arquivam.

    • Sr. Paulo Sousa, a si não incomoda, as suas filhas estarem numa sala onde a conversa sistematica, alheia ao conteúdo dado pelo professor, perturbe a matéria que as suas filhas deveriam ouvir e que tem por direito aprender?
      As suas filhas não têm melhor resultado, se calhar pelo mau comportamento dos seus colegas. De certeza que essas crianças são filhos dos pais que vão aos seus convívios, onde está a sua preocupação em que as suas filhas aprendam, comece pelo seu meio em vez de apontar somente aos professores.

    • Não tem razão…. fui instrutor de 2 processos disciplinares a professores e deram sanção e se realmente soubesse algo sobre processos disciplinares percebia o problema….

  4. Sou pai… Depois sou marido, filho… Depois sou professor… O que é que acontece quando se está afastado da família ou do enquadramento ideal…que não existe…a batina do professor é como a do médico a do padre que é de coração que dói muito…ser se professional de Ensino não é ser professor. Ser se pai é um dia de cada vez. Sermos marido é um pouco de nós de damos a outra vida… Ser professor é ser dentro e fora da escola… Não existe profissão que tenha este tipo de responsabilidade. Se não estamos bem. O ser humano pode ser um fiasco. Cuidar do professor é como cuidar de si próprio…. Pois o seu filho… Já estive noutras profissões, e saindo do local de trabalho era normal mas fora da escola sou o professor…

  5. Sou professora e, muito sinceramente, não me revejo nesta descrição, nem mesmo a minha escola. Talvez porque ensino no interior norte (mas ainda assim perto de uma grande cidade, o Porto). Acredito que haja escolas onde algumas das situações descritas aconteçam. Não concorro para elas… Mas também sei que , pelo menos no que diz respeito aos tais “maus profissionais”, as escolas pouco ou nada poderão fazer…

  6. Como mãe de um aluno no sexto ano e outro no primeiro, não reconheço esta escola que o senhor descreve, pois as escolas dos meus filhos não é nada assim! Como professora também não!! Há bons e maus profissionais em todas as áreas. Quanto ao tempo, apenas reclamamos aquilo que nos prometeram! E claro que todos sofreram com a crise! Ninguém diz o contrário; os professores, como tantas outras profissões, contribuíram para a causa! Agora, prometeram-nos mundos e fundos e, depois, caluniando-nos e dizendo mentiras, dizem que já não pode ser? Não, não aceito!!! E acredite, pai, que olho muito a minha volta e sei bem a realidade dos meus alunos!! Às vezes, os pais e que se esquecem que os professores também têm filhos, maridos, casa, vida, saúde,… muito para além da escola, mas acredite que a escola está sempre em minha casa!!

  7. Procuro imaginar o repasto e os comensais cujo discurso, depois de espremido foi “(…) listámos entre os nossos 16 filhos as seguintes observações ouvidas em aula: burro, deves sair à tua mãe, estavas melhor numa escola profissional, leva isso para fazeres na explicação que eu não vou repetir outra vez, se estás triste alegra-te (a avó do aluno tinha morrido na véspera), aviso já que hoje não estou com pachorra para vos ouvir por isso fiquem calados. Não são coisas pontuais, mas são recorrentes..”

    Em quase 40 anos de profissão este retrato escolar é inimaginável para mim. O que conheço de Escola e de Professores está muito mais próximo daquelas sondagens que dão os professores como uma das profissões mais respeitáveis, do que de prosas deste tipo que parecem retiradas de qualquer caixa de comentários anónimos de jornais.

    Ou então é mérito da Escola, dos Professores, dos Alunos e dos Pais com quem lido desde há 34 anos.

    Felizmente dentro de oito ou dez anos já quase não haverá professores e todos ficarão a ganhar.
    Pais como estes ganham porque se livram dos professores.
    Os professores ganham porque se livram destes pais.

    • …e não é preciso dizer mais nada! Quanto a este pai, apenas lamento que tome como referência a escola do século passado e nem se preocupe em confirmar as afirmações que faz para não fazer esta figura. Mal (ou bem?) “acomparado”, lembra a Ana Leal e a TVI.

  8. Fazer uma lista das situações más como se fossem a generalidade não é verdade nem justo. Os pontos negativos que aponta existem mas não na maioria das escolas e na percentagem equivalente à de outros empregos. Muitas vezes não temos nem a colaboração dos pais para uma boa educação dos nosso alunos nas aulas e se apresentamos os factos os pais estes não nos dão crédito. Quando queremos ensinar (fazer os alunos aprender, com entusiasmo, de uma forma sustentada), percebemos que pais e alunos estão apenas focados nas notas e na passagem de ano não importa à custa de quê. Eu tenho a sorte de nunca ter mudado de escola em 30 anos de ensino mas há que reconhecer que a lógica de mudança de local de trabalho anualmente não é boa para ninguém. Por fim o ponto 3 é surreal e poderá significar que, não obstante a boa intenção do artigo em muitas coisas descritas, este demonstra o desconhecimento da realidade interna das escolas públicas. Tem no entanto um mérito. Propõe um diálogo sem posições pré-concebidas ou seja pais de um lado, professores do outro. Todos queremos uma educação melhor e como tal as plataformas de debate são sempre bem vindas.

  9. Sou professora há 35 anos e não me revejo em nenhuma destas situações. Se calhar há uns anos atrás talvez houvesse algumas situações semelhantes. Até porque hoje em dia os pais têm imenso poder na escola, reclamam por tudo e super protegem os filhos, dando-lhes sempre razão sem muitas vezes saberem a versão do professor. É verdade, como em todas as profissões, há bons e maus profissionais, mas ser professor é ser alvo de muito ódio e falta de compreensão. Adoro ser professora, adoro o que faço e, acima de tudo, respeito os meus alunos. Como tal, exijo respeito da parte deles e dos respectivos encarregados de educação. Felizmente trabalho numa escola em que muito pouco do que é referido no texto se observa. A nossa luta incomoda muita gente!!

  10. O ponto 6 sugere-me que o senhor em questão e os seus amigos têm filhos que são profundamente mal educados. É curioso: são sempre estes os que mais se queixam dos professores – é mais fácil culpar os outros pelas nossas próprias insuficiências.

    Sou professora (há pouco tempo) e fui uma excelente aluna. Tive maus professores mas tinha melhores pais, que me souberam educar e preparar para a autonomia, para a persistência e para a responsabilidade. Não precisei de explicações fora da escola, e os maus professores passaram pela minha vida como cão por vinha vindimada. Cumpria a minha parte. Estudava de madrugada caso percebesse que isso era necessário para alcançar uma melhor nota. Consultava as informações constantes do manual caso os apontamentos de aula não fossem bons. Prestava atenção nas aulas e nunca me passou pala cabeça desafiar um professor (uso propositadamente o verbo “desafiar” porque muitos acham que “questionar” é seu sinónimo: não é, e a mais elementar educação deve reconhecê-lo).

    Sou perita numa área do saber (como todos os professores) e a isso somo um mestrado em ensino (agora obrigatório para acesso à profissão), que me deu ferramentas de psicologia e pedagogia. Pasmo, no entanto, ante a imagem de uma aluna que rola os olhos quando a alerto pela enésima vez para não conversar com os colegas durante a aula. Estarei perante uma perturbação desafiante de oposição? Será fruto de uma abordagem menos interessante da minha parte aos conteúdos? Na maior parte das vezes, é infelizmente, falta de uma mui pedagógica bofetada bem aplicada pelos excelsos encarregados de educação nos momentos certos.

    Suspiro. Divago. Enfim…

  11. Revejo e concordo em muito do que diz. Infelizmente precisamos que os pais se juntem a nós, professores, para que a escola seja um lugar melhor. Vão verificar que, infelizmente, o grande problema da escola não são os professores. E as reinvindicações também não são o que devia ser… As escolas estão a cair, os professores a fixar velhos e fartos a formação cai em saco roto porque não há condições para a aplicar, receboneos alunos novos todas as semanas que temos de por a par da matéria desde o início do ano… (Impossível para ambos, portanto), quando falta um funcionário,cair tbm tem direito a faltar para ir ao médico por exemplo a segurança da escola, dos alunos, fica em risco. Acha mesmo que devia abrir? O número de funcionários fja não chega para todo o serviço, já está no mínimo! Se falta um não há quem assuma o lugar dele. É impossível estar em dois lados ao mesmo tempo. Não há condições logística nas escolas. O governo gasta milhões nos manuais gratuitos mas há salas sem computador para aceder aos manuais virtuais, laboratórios sem material, salas com problemas elétricos… Mas quase todos os alunos teem um telemóvel. Não podemos usar porque não é democrático com os que não teem. Mesmo que seja só um. Veem os pais e questionam logo a nossa prática porque o menino sentiu-se excluído. Ninguém nos dá titnteiros suficientes para imprimir um teste, e se o passamos no quadro é o mesmo que dizer que somos do século passado, ou meio caminho para quase ninguém o fazer porque “da muito trabalho”. A parte da indisciplina também é muito engraçada. É normal que eles sejam mal educados mas quando passamos 45min a mandar calar, ser interrompidos, falar alto, mandar alunos ir pra rua, tentar tentar tentar … E nos vemos numa autêntica aldeia dos macacos eu queria vê-lo a si calmo e sereno, sem que saísse uma barbaridade pela boca, e escrever 15 cadernetas, com recados individuais e diplomaticamente corretos, sobre o comportamento dos Príncipes. Tenho 210 alunos, 20 são especiais e ainda tenho de pensar aulas para eles ao mesmo tempo que dou as dos outros com o grau de exigência que é devido. É logisticamente impossível. Desisto. Todos os dias. Desisto do que seria melhor para os meus alunos porque ninguém me ajuda. Que isto tem de mudar, tudo, tem. Mas vocês são parte do processo e só aparecem na escola e nas redes para dizer mal. Não há soluções, ideias, uma associação que ajude á união. Já reparou? Quantas vezes foi á escola perguntar o que pode fazer por ela? Porque tomamos do princípio que os professores que se desunhem e eu não quero saber? Desafio-o começar um movimento para melhorar a escola pública. O trabalho consome-lhe o tempo? Já somos dois. Mas nós, muitos mais do que lhe parece, ainda não desistimos da ideia de que o país pode ser melhor. Se outros países conseguem a jornada das 8h máximas para todos, porque é que os portugueses aceitam a carga esctavizadora? Em detrimento dos seus filhos e da harmonia social que teimam passar para outros.

  12. Esse jantar, provavelmente, organizado só para esse efeito, não me parece que tenha tido algum efeito benéfico.16 casais reunidos para listarem o que de mau se passa nas salas de aula é assustador! Posso concordar com o facto de que,nesta profissão como em qualquer outra, existirem maus profissionais, mas fazer tábua rasa de todos nós é muito injusto.Apoquenta-o o facto de os professores lutarem pelo que é seu por direito, porque as outras profissões também estão mal e todos sofrem…Façam o mesmo, lutem e exijam pelo que é vosso, também por direito.Não se acomodem.Se assim fizerem, talvez que o dinheiro que injetam nos bancos, que a corrupção impune, e que todos os males que o governo inflige à sociedade, se minimizem!
    Porque não pedem aos diretores das escolas que os vossos filhos frequentam para os deixar ir assistir a algumas das aulas dos vossos filhos? Nenhum prof.se recusaria a tê-lo lá!
    Talvez, depois, sentisse obrigação de fazer outro jantar para listarem o que podem mudar nos vossos filhos já que todos são tão bons educadores…

  13. Professora, sou a primeira licenciada da minha familia direta. Tenho na familia desde agricultores a operários (muitos deles a ganhar mais que eu com menos tempo de serviço) e outras profissões. Com pais operarios sei bem o que é viver em crise pois passei pela década do encerramento de muitas fábricas. Mas também sei porque tal me foi ensinado o valor de cada profissão e de quem a exerce. Apenas afirmo a quem escreveu o texto que existem en todas as profissões quem não é profissional e que se mantém no lugar. Vejo muito poucas vezes um araque tão cerrado a uma profissão como o que é feito a esta. Explicações muitas vezes porque querem, porque será que vejo todos os dias salas de estudo na escola vazias porque os alunos não vão… Tenho muitos exemplos de alunos que terminaram ou que chegaram à universidade sem ter explicações.

  14. Todos opinam sobre a sala de aula, porque passaram por lá e julgam que essa experiência lhe dá crédito para tal. É muito fácil. Eu conseguiria fazer o mesmo sem esforço. No entanto, hoje em dia, o trabalho de professor não tem nada a ver com aquele que presenciaram no passado aquando as suas passagens pelas escolas. Ora por aqui, já vemos que o fundo disto é uma observação tendo em conta o que se disse é que deturpa a realidade conforme melhor lhes aprouver.
    Todavia, concordo que haja mais profissionais em todos os setores, ou não fôssemos nós humanos e, como tal, errantes.

  15. Um depoimento cheio de preconceitos( só para citar alguns: uma profissão estável? Melhor horário de trabalho e menos pressão que nas outras profissões? Os professores faltam mais que as outras profissões? Insultam aos alunos?). A confundir a árvore com a floresta. Não percebo a sua publicação, sem contraditório num blogue de professores e para professores…

  16. 16 pais a listar o que corre mal nas aulas dos filhotes, pela boca dos filhotes… ouseja, acreditam piamente em todas as alarvidades que lhes contam… Está-se bem. Já agora, por que razão não aproveitaram o jantar para todos os comensais “listarem” o que corre mal nos respetivos ninhos? É que não vos passa pela cabeça os relatos que chegam à escola sobre os pais, pela boca dos respetivos filhotes…

  17. Gosto muito de ler estas pesoas que por estarem mal na vida, acham que os outros não podem reclamar, devendo-se subjugar ao poder político.
    Unam-se e reclamem também.
    Há muita nódoa nas escolas? Há! Todos sabemos que sim. Como há nódoas em todas as profissões e muito provavelmente em muito maior percentagem. Muitas das nódoas existentes na nossa eram evitadas se os meninos viessem de casa com uma boa educação.

  18. Os esquemas que os técnicos de logística fazem relativamente a mercadoria desviada, roubada e danificada é inimaginável.
    Vejam as equivalências que esta gente faz acerca de outras profissões.

  19. É o grave problema do português. Sempre aponta os defeitos, os problemas mas nada de bom, nada de virtudes. Vamos as respostas:
    1 – Maus profissionais há em todo o lado. Depois tem de definir o que é ser mau professor, pois o que é mau para uns, para outros nem tanto. Ser mau é por não cumprir o programa ou ensina com erros, corrige testes mal e recusa-se a admitir erros? Esta pessoa tem assim tanto tempo para conhecer o programas dos professores? Como sabe que ensina com erros? esteve lá a assistir as aulas? E como sabe que o teste esta mal corrigido?
    2 – Total desconhecimento. Se os filhos não tem aulas é porque há professores que já não estão dispostos a fazer horários pequenos. Já lá foi esse tempo em que faziam horinhas, mas agora abriram os olhos. E quando um professor falta, meu amigo, não é um qualquer que vai dar aulas a seu filho. Ou quer que o professor de matemática que faltou seja substituído por um outro colega qualquer de outra disciplina? No seu local de trabalho desenrascam, na escola já não funciona tão bem assim. E quanto as baixas, se elas existem é que sao necessárias. fale com os médicos que as passaram pois, como profissionais, tiveram motivos para isso.
    3 – A tal cultura do medo, pelo que diz, vem é de casa. Afinal de contas “dissemos aos nossos filhos que é melhor não dizer nada porque o professor o pode prejudicar.” Aqui mais nada a dizer.
    4 – Bem, os professores nao seguem o programa. Agora é falta de coordenação. de certeza que os testes não sao marcados todos na mesma semana. Se são, os alunos devem intervir, caso contrario o professor nao adivinha. nem todos os professores estão desde as 8h até as 18h sempre juntos. Não é como no seu local de trabalho onde todos, de certeza, estão no mesmo espaço e no mesmo horário. A unica coisa que concordo é nos trabalho de casa. acredito que sim, tudo junto é pesado.

    5. “Os nossos filhos vão a visitas de estudo e os professores das outras disciplinas queixam-se porque as suas aulas ficam com menos tempos. Até parece que as visitas são um passeio e que não têm nada a ver com as aulas” Com que então, hum… os professores não cumprem o programa porque são maus. Hum..entendo. Então e já vê uma das razoes para que seja algo mais difícil cumprir o programa? Alias, eles até estão preocupados pois tem menos tempo para dar aulas. para que será que querem mais tempo? para jogar as cartas? Ou será a preocupação de cumprir o programa?

    6 – Nisto acredito profundamente que acontece. Infelizmente é uma realidade. Dai haver o tal de burnout, aquele de desvaloriza. Quero ver voce tratar de 25 clientes, todos de uma vez durante 60minutos. Nem o melhor dos profissionais aguenta, pois afinal de contas admite-se que “os nossos filhos podem ser muito indisciplinados e até mal educados”.

    7. O discurso dos sindicatos sobre os professores é para uma luta. Isto é um tema a parte, nem vale a pena entrar por este lado. Falamos de professores que trabalham directo com os alunos e nao de sindicatos que trabalham para os professores. Quanto as turmas, nem todos podem ter o mesmo horario. Eu durante anos tive aulas sempre de manhã e não tinha turma de elite, onde se encontravam filhos de professores. éramos alunos. Mais nada. E depois, se há favoritismos, nao sao os professores que escolhem horários. faça queixa na direcção da escola. Acredito que falou aqui, mas na escola….nada!

    8. Bem, aqui entra a confusão. Então afinal as tais visitas de estudos, aquelas que tiram tempo de aulas a outros professores e estes queixam-se, afinal deve de ser para ” os filhos ouvir as queixas sobre a carreira no tempo em que deviam estar nas aulas a aprender”. Já não se entende. Será que isso efectivamente acontece? Você viu isso acontecer? tenho aulas e tal não assisti, pois a preocupação do professor é aproveitar o máximo do tempo para dar a aula. pelo menos noto isso…

    9. Queixa-se dos exames, mas não reclame com estes. reclame com os governos que mudam as regras anos após ano.
    “Todos os que queremos que os filhos tenham boas notas pagam explicações.” Todos?Ai está o profema dos pais, nao dos filhos. Os pais querem que os filhos tenham boas notas, mas e o resto? o ser bom aluno nao significa boa nota. Pense nisso.
    “Quantos alunos com notas altas nos exames fazem isso sem explicações? Dadas pelos professores que dizem que não têm tempo para nada excepto dar horas e horas de explicações todas as semanas?” Primeiro, chama-se a isso dedicação, estudo! E segundo, as notas que estes têm nos exames não são dadas pelo professor da sala. Ai, ai ai o desconhecimento do papá!

    É o mal de reclamar, reclamar e algo de bom? disse? Nada! Zero!

  20. Nao sou professor. Apenas pai. Lamento muito que haja pais destes porque não acredito que haja escolas como as descritas – se as houver devem ser alvo de denúncia em vez de caluniarem todas as escolas e professores. Os professores do meu filho são dedicados, corretos e assiduos. Há professores maus mas isso é como em todas as profissões – deviam ser avaliados sim, para recompensar aqueles que dão a alma e o coração pelo ensino, a maioria das vezes em péssimas condições tais como turmas enormes, falta de meios fisicos e logisticos ( em que profissão é que os proprios profissionais tem de comprar canetas, lápis, folhas, tinteiros, impressoras, livros,…. para poderem trabalhar) para além da falta de educação dos alunos e da maioria dos pais. Também é verdade que muitos alunos não aprendem nas aulas mas isso deve-se à falta de investimento da educação dos sucessivos governos – não é com 28/29/30 alunos em cada hora que um professor consegue chegar a todos – nao se esqueçam numa manhã um professor pode ter 5 turmas diferentes ou seja cento e tal alunos. O que pode fazer um professor nestas condições.?? Ajudar os que têm mais dificuldade..? E os outros, ficam para trás? Muitas vezes não faz mais nada para alem de tentar acalmar a má educação dos alunos e dos maus ensinamentos vindos de casa. Por isto tudo e por muito mais, o meu obrigado à maioria dos professores deste país e o meu inteiro apoio à sua luta.

  21. Sou professora e sou mãe. Sim, identifico perfeitamente todas as situações assinaladas. É tempo de reflexão e não de reacção. A maior parte das vezes reagimos a estes factos dizendo “não é comigo”, “não conheço”, na minha escola não”… Pois bem, eu digo: foi comigo/com o meu filho, conheço perfeitamente uns quantos casos nos 30 anos de serviço que tenho, na minha escola sim! E para que não fiquem dúvidas sobre o tipo de escola que “frequento” devo dizer que passei por algumas outras onde se encontravam o mesmo tipo de situações. Lamento, mas já é tempo de pormos a ficção de lado.

    • Cara colega,se conheceu casos como diz,deveria tê-las,de pronto, denunciado à Direção.
      Parece-me que as tais situações são graves porque,apenas,envolveram o seu filho ou quereria tirar benefício para o seu filho por ser professora?

      • Caríssimo, ou não leu o que escrevi por falta de tempo, ou não consegue ler por qualquer outro motivo. Vejamos: eu disse que tenho registado casos semelhantes aos descritos, ao longo da minha carreira. Alguns foram comigo, outros não. Aquilo que fiz ou não fiz no sentido de corrigir tais situações não o referi nem refiro porque não preciso de vir para aqui fazer esfregaços ao ego. Quanto aos “benefícios” que queria tirar para o meu filho, devo dizer-lhe que quem não se sabe comportar em público deve resguardar-se em casa. O que referiu é um ataque pessoal desnecessário e tonto, indício de clara impotência para o debate. Lamento que assim seja, mas enfim, as caixas de comentários estão abertas a todos os níveis de público….
        Votos de boa semana

  22. Fui apanhado por parte do 942. Digo por parte, porque entretanto reformei-me. Por causa disso acabei por me reformar no escalão anterior ao que tinha direito. Perdi quase 1/3 do meu ordenado. Como eu deve haver muitos colegas a quem isto aconteceu e que nunca irão recuperar o que perderam. Não vou falar aqui das inúmeras tropelias que os vários governos e ministros de educação fizeram, o que quase me levaram a odiar a minha profissão, que adoro. Vi, ao longo da minha carreira, alguns colegas que de uma forma muito abusiva, usavam as facilidades de um sistema inoperante para faltarem às aulas. Encontrei um colega da minha disciplina que através de uma legislação defeituosa, veio leccionar sem saber rigorosamente nada da mesma. Houve quem publicasse na net fotografias de uma viagem feita em tempo de aulas. Não há maus professores: há, isso sim, más pessoas. Gente sem responsabilidade que só consegue ver o seu prazer imediato e se demite das suas funções. Encontrei vários desses colegas e devem continuar a existir. Há também aqueles que não têm vocação nenhuma para o que estão a fazer. É penoso vê-los a arrastarem-se pelos corredores com a amargura estampada nos rostos. Mesmo assim não concordo com a sua exposição, porque do outro lado há aqueles colegas que conseguem chegar aos alunos através de um saber estar que os cativa. Orgulho-me de ser um desses professores. Senti sempre por parte dos Encarregados de Educação um apoio e também uma grande confiança na minha pessoa para resolver os problemas não só na minha aula como também na turma, quando fui Director de Turma e muitas vezes de duas turmas. Não cumprir o programa? Quando dão preferência à Matemática e ao Português e cortam as horas das outras disciplinas sem adequarem o programa, é muito difícil meter o Rossio na Betesga. Professores que faltam muito? Tente ir trabalhar com dois cancros diagnosticados sendo um na garganta. Para não falar nos desarranjos emocionais que nos põem os nervos em franja quando os meninos resolvem fazer barulho com um simples lápis. Professores prejudicarem os alunos invocando uma cultura de medo? Deixe-me rir. Os alunos não têm medo de nada. E muito menos de ter más notas. Muitos passam sem pôr os pés nas aulas. Mas atenção: a culpa não é dos professores; as ordens vêm de cima: Director, Ministério, Governo….. Testes na mesma semana podem acontecer. Aconselho-o a consultar a lei. Deve lá vir qualquer coisa sobre o assunto. Chamar nomes aos alunos é ridículo. Tenho muita dificuldade em acreditar. Até porque há pais que não se importam, por muito menos, de ir à Escola tentar agredir o professor que fizesse uma coisa dessas. Ou então o professor tem conhecimento de causa, pois já falou com o pai ou com a mãe e percebe que o menino sai a um deles.Sobre os sindicatos não me pronuncio porque não concordo com muita coisa que fazem. Quando precisei de ajuda, viraram-me as costas. Como atrás disse, reformei-me aos 60 anos. Estive 5 a tentar perceber o que deveria fazer com tanto tempo livre. Acabei por voltar para a escola, desta feita para as AEC do primeiro ciclo. Estou extremamente feliz e tenho tido experiências fabulosas com o mais pequenos. Eu dava aulas do 5º ao 8º ano. Meu caro pai: gostaria de dizer muitas mais coisas; mas uma coisa é certa: por falta de educação em casa por parte dos alunos, por causa da inoperância de vários governos e ministros de educação, por causa de alguns colegas que deveriam estar a trabalhar noutras funções, por causa de colegas que deixaram de dar aulas para vir pisar os outros pois são directores e sub directores e outras coisas mais é que o ensino está como está. Culpam sempre o elo mais fraco que neste momento está a rebentar. E vai rebentar um dia. Cada vez há menos professores. Dos que chegam à profissão muitos já não têm qualidade. Lembram-se do que está a acontecer em Inglaterra? Há um grande deficit de muitas profissões. Entre elas a dos professores. Fiquem bem.

  23. Sou professor, mas antes disso também sou pai e tendo também vida fora dos estabelecimentos de ensino onde leciono, lido diariamente com os profissionais das mais variadas áreas do ramo privado.

    Acompanho as notícias deste país, ouço comentadores e leio comentários e sinto-me muito revoltado.

    A primeira razão é verificar que na generalidade quem fala sobre as os professores e as escolas demonstra uma ignorância gritante sobre a realidade do ensino.

    Ouço dizer por exemplo que durante o tempo de crise nenhum professor perdeu o seu emprego. Nada mais falso. A classe profissional que perdeu mais profissionais foram precisamente os professores: eram 156 mil em 2010 e são atualmente 125mil. Como foram poucos os que se reformaram podemos afirmar que cerca de 30 mil perderam o seu emprego. Foram forçados a mudar de profissão e muitos mudaram de país. Os professores conhecem bem a dura realidade, lidam com ela todos os dias.

    A diferença entre os privados e os professores é que no privado diz-se que os profissionais são despedidos, no caso do ensino diz-se apenas que diminuiu o número de professores.

    A verdadeira questão é que no privado um trabalhador que está a prazo numa empresa durante 3 anos ingressa nos quadros, no caso dos professores podem andar 20 anos a serem contratados anualmente e não entram para os quadros. Porquê esta diferença de tratamento? Quem são afinal os privilegiados?

    Os professores não são despedidos porque após 20 anos ainda não entraram para um quadro, mas tal como os outros também ficam sem o seu emprego e sem o seu ganha-pão, tendo que emigrar.

    Ouço também dizer que os professores ganham acima da média. Não sei qual será essa média. A realidade é que um professor com 20 anos de serviço ganha cerca de 1200 euros mensais: cerca de 400 euros são para as deslocações entre a residência e a escola; no final do ano, após 40 ou 50 mil quilómetros, as revisões da viatura ficam em cerca de 1200 euros; contrariamente ao que acontece nas empresas é o professor que tem de arcar com as despesas das suas ferramentas de trabalho, computador, impressora, livros, etc. E nenhuma destas despesas pode ser abatida em sede de IRS, ao contrário do que acontece com os privados. Fazendo bem as contas se retirarmos ao ordenado de professor o que ele gasta para trabalhar ficarão cerca de 600 euros. Mais uma vez pergunto quem são afinal os privilegiados?

    Ainda recentemente tive de contratar uma série de serviços a um topógrafo, um arquiteto, um engenheiro, um eletricista e um canalizador. Quando apresentaram os orçamentos choramingaram, que a vida está muito difícil, etc. Todos com carros de marca caríssimos ou carrinhas de caixa aberta novinhas em folha. Após o trabalho realizado e pago, sem demoras, com todo o tempo de serviço contabilizado, incluindo a cervejinha e as horas ao telemóvel, verifiquei uma atuação comum em todos estes profissionais… Até hoje nenhum me entregou a fatura!

    Depois fazem as médias dos vencimentos. Mas as médias são apenas dos valores declarados, porque aquilo que não é faturado não conta. Quem são afinal os privilegiados?

    Diz-se ainda que a profissão de professor tem estabilidade. Devem estar a falar da estabilidade de trabalhar 4 meses em Cinfães, 3 meses em Espinho e depois mais quatro meses em Sines, tudo no espaço de um ano. Experimentem andar com filhos de terra em terra, dizerem-vos que já não há apartamentos para alugar nem vagas em creches, com direções a exigirem que reponham as aulas de cursos profissionais sem pagamento de horas extraordinárias. Estabilidade? Mas que estabilidade é esta?

    Ouço dizer que outros profissionais trabalham muito, 35 ou 40 horas… Só? Pergunto eu. Um professor para além das aulas que leciona tem uma carga burocrática totalmente avassaladora, chegando a fazer semanalmente mais de 60 horas para cumprir com o que lhe é exigido pelo ministério, pelas direções e pelos pais dos alunos.

    Recordo um pai de um aluno que me ligou a dizer que só podia falar comigo, para receber as notas, a partir das 19:30 horas, eu acedi e esperei por ele na escola. Estivemos a conversar até às 20:30, no final da reunião o senhor foi para casa, ali ao lado, para jantar. Nem apenas por um segundo lhe ocorreu que eu estava a trabalhar desde as 08.30, ainda tinha 200 quilómetros pela frente até chegar a casa e que para estar ali, até aquela hora, tinha faltado à entrega das notas dos meus próprios filhos. Quem são afinal os privilegiados?

    Verifico ainda que nada é cobrado aos pais, eles é que sabem, eles é que conhecem os filhos. Seria interessante colocar camaras de vídeo nas escolas e nas salas de aula para que os pais verificassem o que fazem os seus filhos. A maioria dos pais leva os filhos aos centros comerciais mas é incapaz de os levar a visitar um museu. Alguns recebem subsídio escolar mas depois levam os filhos à escola em carros de alta cilindrada. Um número significativo de pais dá aos filhos telemóveis de quase 1000 euros mas depois acham caro uma visita de estudo custar 15 euros. Mas afinal que pais são estes? Devo acreditar no pedopsiquiatra Daniel Sampaio e concluir que cada vez mais as crianças do nosso País são órfãs de pais vivos?

    Relativamente aos bons e maus professores, há canais próprios para fazer queixas. Se as queixas forem fundamentadas há lugar a procedimento disciplinar e o professor é expulso. Mas é muito raro que isto aconteça, porque será? (As queixas revelam-se infundadas?) Em todas as escolas onde trabalhei ao percorrer o País sempre encontrei bons profissionais e profundamente esforçados e dedicados à profissão, capazes de trabalhar até à 2:00 da manhã agarrados ao servidor para que os alunos no dia seguinte tivessem internet. E se por acaso me deparei com alguém mais desiludido com o miserável “patrão” que é o ministério da educação não o condeno, porque considero que a razão e a justiça estão do seu lado.

    As faltas dos professores são um mito. A percentagem total das aulas que não são dadas são irrisórias. Se por acaso há baixas médicas estas são passadas por um médico. Porque quando se trata de saúde o assunto deve ser entregue aos profissionais da área. As faltas dos professores são de facto muito visíveis, porque quando um falta cerca de 150 alunos fica sem aulas, mas quando um técnico de logística falta (sim, porque também falta) ninguém dá conta…

    Quando se trata de ensino, obviamente o assunto deve ser entregue aos professores e não a meros opinadores de circunstância, são aqueles que conhecem os programas das disciplinas, que passam mais tempo com os alunos e são também quem melhor conhecem as dificuldades dos alunos.

    Ouço dizer que nos outros trabalhos quando um trabalhador falta os restantes trabalhadores assumem o trabalho do que falta, não prejudicando os clientes. Pois bem, isto só no mundo da fantasia de um conjunto de iluminados que marca jantaradas em que o tema principal é malhar nos professores. Felizes aqueles que marcam jantaradas, porque se fossem professores estava um em cada canto do País. Ainda há pouco tempo tive de fazer uma reparação na rede fibra ótica na casa que arrendo e por seis vezes estiveram presentes equipas de uma empresa privada que não procederam a qualquer intervenção porque faltava uma qualquer instrução num dos tablets deles, foi só um mês e meio á espera…E depois ainda dizem que os clientes não são prejudicados. Numa dessas vezes um dos técnicos até apareceu completamente bêbado. Não me venham falar do profissionalismo dos privados em comparação com o público.

    Fala-se da cultura do medo nas escolas (imposta por professores?) mas nunca ouvi falar de um professor que tenha agredido um encarregado de educação, o que geralmente é notícia são encarregados de educação a agredir professores.

    Quanto à suposta “luta” dos professores esta visa sempre melhorar o sistema de ensino em Portugal. É uma luta que é feita principalmente em prol dos alunos e sai do bolso aos professores, porque cada dia de greve é religiosamente retirado do parco vencimento dos professores. Quando alguns fazem almoçaradas e jantaradas para malhar nos professores esquecem que devem a liberdade a Portugueses que lutaram por melhores condições de vida, não a pensar em si, mas a pensar nas franjas mais desfavorecidas da população. Alguns estão em jantaradas mas esquecem que as condições de vida que agora têm não foram dadas, foram conquistadas por Portugueses que lutaram, levaram porrada e alguns morreram, para hoje estarmos aqui com a liberdade possível nestes tempos que correm.

    Lamento que a luta dos professores por um sistema de ensino condigno, com condições para os professores e para os alunos seja reduzida a um pretenso “comício individual”, até porque a luta dos professores é também um exemplo para os alunos. Esta ensiná-los-á a ser mais exigentes e combativos com quem nos dirige e representa.

    Não compreendo estes ataques dos pais aos professores (porque é disso que se trata), até porque o objetivo é comum, que os filhos de uns e alunos de outros tenham o melhor ensino possível e no futuro possam abraçar uma profissão que os realize, sejam socialmente ativos e vivam em felicidade.

    Sr. Prof. Zé
    (Professor e Pai)

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