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Um “LIKE” Na Vida: À Distância De Um Dedo

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A virtualidade da realidade que vivemos transforma o que considerams o real e o que consideramos ilusório. Ambos os campos se misturam caracterizando a nossa vida através de “LIKES” de aprovação social.

Ao longo do tempo o processo educativo tem vindo a sofrer alterações desproporcionadamente elevadas. O que neste momento é verdade dentro de um segundo deixou de ser porque bastou um clique à distância de um dedo para se reformularem pensamentos, opiniões e transversalmente nos modificarmos numa humanidade solitária rodeada por biliões de pessoas. Se o número de “LIKES” do que acabei de tornar público for elevado então é porque há aceitação, senão é porque pouco importo aos outros. Com facilidade aprovamos e desaprovamos o que somos, como e porque o somos. A aprovação mantém o ego no lugar de destaque que pretende, a desaprovação pode muito “perfeitamente” no caso específico do adolescente levar ao suicídio.

As crianças nascem com este dedo apontado para o clique do “LIKE”. No desenvolvimento psicomotor a fase de apontar é importante para percebemos a interação, a procura, a afirmação. A partir dos 9 meses de idade um bebé pode começar a apontar e este treino que parece ridículo é essencial. Mas o facto é que estas crianças nascem já com tal “chip” incorporado na ponta do dedo que virar um telemóvel ou tablet do avesso é superior à capacidade dos pais que rapidamente se tornam obsoletos por nem entenderem onde os filhos andam a navegar com tão pouca idade.

Onde deveriam eles navegar? No meio dos brinquedos reais, aqueles que os cinco sentidos tocam, cheiram, sentem, ouvem, olham, manipulam. Mas a realidade transforma-se em virtualidade nas ligações neuronais que se constroem na criança. Até que ponto é que os “LIKES” da vida se tornam demasiado fáceis de dizer, ou melhor “clicar”?

Olhar nos olhos do outro e dizer o que se sente, o que se pensa é uma tarefa quase em vias de extinção como determinadas espécies. Talvez esta nossa espécie de ser frontal, olhar a alma através dos olhos também ela esteja em vias de extinção. De onde veio esta aprendizagem? Como fomos ensinados, educados que um “LIKE” à distância de um dedo é mais importante que olhar-te nos olhos e dizer que te AMO? O porquê é fácil de entender. Atrás de um ecrã escondemo-nos e podemos gostar ou desgostar sem ter que assumir que ferimos o outro. É mesmo isto que queremos ensinar à nossa espécie em contínua evolução?

De acordo com a Academia Americana de Pediatria (AAP) na revisão de 2016 o tempo de exposição a ecrãs está estabelecido, sendo que: para crianças com idade inferior a 18 meses deverá evitar-se toda e qualquer exposição a ecrãs exceto no caso de vídeo-conferência para comunicar com familiares próximos; dos 18 aos 24 meses se for muito desejável por parte dos pais deverão introduzir algo educacional e visualizar com a criança; dos 2 aos 5 anos de idade o tempo de exposição aos ecrãs deverá limitar-se a uma hora por dia; a partir dos 6 anos de idade estabelecer bem os limites do tempo de exposição com possibilidade de acesso a outro tipo de atividades fora deste contexto.

Mas a AAP não definiu regras para a relação humana de olhos nos olhos. Quando numa sala de aula de trinta alunos o professor tem que dar a atenção que cada um espera, de acordo com a sua vivência, seria bem mais fácil o docente através de uma aplicação no telemóvel ou tablet colocar um “LIKE” nos alunos que preencheram os critérios daquele dia: de bom comportamento, bons resultados académicos, etc. Poupava-se tempo na escola e sobrava mais tempo para os professores poderem cumprir os programas sem terem que se desdobrar em vários hologramas para corresponder às necessidades de cada um.

Mas reparem, mais ainda! Isto seria fabuloso! Em casa, quando a família chega após um dia de trabalho e escola, em vez de um abraço, um olhos nos olhos, uma palavra – AMO-TE, uma expressão – QUE SAUDADES TIVE DE TI, pudesse colocar um “LIKE” numa qualquer aplicação que ainda será inventada para dizer ao outro gosto do que fizeste neste dia, apesar de no meio de tantos “LIKES” que coloquei já nem me lembrar muito bem do que foi. Que tempo seria poupado à família e disponibilizado para mais um relatório para entregar no dia seguinte ao chefe ou para os múltiplos trabalhos de casa que a criança traz após o seu dia de escola.

Em todos os casos é uma questão educacional e “positiva” até! Imaginem num casal em vez de cara a cara dizerem que se AMAM e que todos os “LIKES” da vida estão nas mais pequenas coisas que partilham e que nem precisam de ser ditas, tal não é a cumplicidade, apenas precisavam de colocar “LIKES” nas partilhas que o outro faz nas redes sociais. Com isto poupavam tempo, continuavam numa realidade virtual de amor e ainda mostravam ao mundo como se amam profundamente.

É mesmo isto que queremos passar às nossas crianças e a nós mesmos? É isto que é aceitação social, familiar, educacional? Seria tão bom que em vez de ecrãs tivessemos pessoas para partilhar a vida. Poder colocar um “post” na alma do outro através do olhar, do abraço ou da palavra dita.

Este paradigma tem que ser mudado! É-nos dada essa oportunidade de (trans) formar mentalidades quer sejamos, pais, professores, cidadãos ou apenas nós próprios. As redes sociais são importantes porque até determinado nível o mundo fica em rede, mas já pensaram que nós todos juntos somos uma rede bem mais real que a que virtualmente seguimos através de ecrãs tranformados em vida?

Vera Silva

Pediatra

Investigadora na linha de investigação a Escola e o Cérebro

Universidade Católica Portuguesa

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