Home Escola Um exemplo do potencial e do “preço” da Flexibilização Curricular

Um exemplo do potencial e do “preço” da Flexibilização Curricular

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Agrada-me bastante certos aspetos da Flexibilização Curricular, nomeadamente o trabalho cooperativo, uma maioria autonomia, avaliação diferenciada e o sair do tradicional professor de pé e aluno sentado. Vejo o seu potencial mas reconheço que existem riscos que ainda não foram colmatados.

A OCDE está claramente pró Flexibilização e não o tem escondido.

No seu mais recente relatório, surge um projeto bastante interessante e que mostra como pode ser utilizada a PAFC.

Nas visitas técnicas realizadas pelos peritos e técnicos da OCDE às escolas do projeto piloto, uma revelou um projeto que juntou alunos e professores de História, Artes e Educação Física na criação de raiz de um jogo de xadrez humano, integrando disciplinas num objetivo comum.

“O jogo apresentou aos alunos conceitos relacionados com a história medieval e o fabrico dos trajes, mas também movimento e pensamentos crítico para demonstrar de que forma os conflitos podem ser resolvidos de forma pacífica”

Segundo o relatório, os professores revelaram que o projeto piloto lhes deu a oportunidade de aprender e melhorar as suas práticas de ensino, ao lhes dar a oportunidade de refletir sobre o desenho dos currículos escolares, para além da oportunidade de trabalhar matérias numa perspetiva de colaboração com os colegas.

O trabalho interdisciplinar e colaborativo, aliado à introdução de contributos externos à escola, sejam de cientistas, empresários locais ou outros membros da comunidade, levou os professores a reportar um maior interesse e sucesso escolar dos alunos.

Os benefícios são claros, mas depois de os ler surgiu-me de imediato as seguintes questões:

Quantas aulas foram utilizadas?

Haverá tempo para dar o restante currículo?

As horas não letivas semanais, foram suficientes para planificar tudo?

É que a OCDE também diz isto no seu relatório…

Por exemplo, a aprendizagem interdisciplinar requer que professores de diferentes áreas colaborem e aprendam uns com os outros para encontrar áreas de trabalho comuns. […] Novas práticas pedagógicas e curriculares levam tempo a desenvolver e a ser aplicadas e continuadas. Devido a isto, devem ser encaradas como medidas a longo prazo que futuros governos devem ser fortemente encorajados a comprometer-se a manter”, defende a OCDE.

Ora, aqui estão as principais dificuldades para a sobrevivência e aceitação da PAFC. É preciso dar condições (tempo) para os professores trabalharem em colaboração e não ficar à espera do “amor à camisola” quando o “amor” que os professores têm sentido por parte dos sucessivos Ministérios da Educação/Finanças é muito pouco. E depois temos o mais que provável fim da PAFC, mal a Direita volte ao poder, é por isso natural que os professores estejam de pé atrás para mergulhar de cabeça em algo que sabem que tem os dias contados.

Ficam mais alguns aspetos positivos referidos na notícia do Observador

O projeto piloto tem o potencial de aumentar a equidade e a inclusão. Tem também o potencial para diminuir as taxas de retenção e de abandono escolar precoce. Por exemplo, uma das escolas visitadas pela OCDE referiu que sem a flexibilização curricular um aluno que chumbe pode ter que repetir em dois anos consecutivos exatamente a mesma matéria, mas com a flexibilidade esse aluno tem a oportunidade de aprender novas matérias de novas formas, de forma mais personalizada e com maior sucesso. A flexibilidade curricular permite também aos docentes criar planos de aulas mais inclusivos para diferentes formas de aprender”, lê-se no relatório.

Pelo seu lado, os alunos destacam a possibilidade criada por este projeto piloto de aprenderem ao lado de alunos de outros anos e realçam a possibilidade de visualizar de forma mais clara a relação entre o que estavam a aprender e o que iriam fazer na universidade, na sua vida profissional e na sua vida pessoal futura, destacando que esta é uma forma de aprendizagem menos “dirigista” do lados dos professores e mais próxima da aprendizagem autónoma que se espera deles quando se tornarem universitários.

A OCDE aponta como desafios ao sucesso deste modelo o conflito desta forma de ensino com o modelo vigente de preparação para exames nacionais, a organização dos tempos escolares, atualmente demasiado rígidos e centrados na sala de aula, dando pouco espaço à interdisciplinaridade e à aprendizagem fora da escola, e as diferenças entre modelos de ensino criadas pelo próprio projeto piloto em comparação com as restantes escolas.

3 COMMENTS

  1. Pois a mim o projecto do tal xadrez humano parece-me um exemplo claro de empobrecimento curricular.
    Que actividade física desenvolveram com isto?
    Que conteúdos de História adquiriram?
    Aprenderam ao menos a jogar xadrez? Duvido muito.
    Já para os professores metidos ao barulho, acredito que tenha sido uma trabalheira…

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