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Mais um ano, mais uma despedida

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O ano letivo está quase a terminar e eu, mais uma vez, inicio um processo de despedida. Despeço-me dos alunos, dos colegas, dos funcionários, da escola, do bairro e provavelmente também da cidade.

Como professor contratado, já estou habituado, mas gostaria que fosse diferente. Aos encarregados de educação, deixo-lhes algumas indicações/conselhos e aos meus alunos, digo-lhes que no próximo ano terão um novo professor.

Este processo que agora chega ao fim começa todos anos da mesma forma: conhecer e adaptar-me rapidamente a uma nova realidade e a gerir as expectativas de todos. E se a turma com a qual tenho de trabalhar é do 1º ano, acresce as preocupações/dúvidas dos encarregados de educação por haver uma alteração significativa das rotinas e das metodologias de ensino que a criança vai vivenciar nessa importante etapa do seu percurso escolar.

Quando chego a uma escola e o coordenador do departamento promove a minha apresentação à turma, fico grato. Pode parecer uma formalidade sem importância, mas faz toda a diferença! Os alunos conhecem e confiam no coordenador e, por isso, o seu discurso é importante para criar as bases para o bom entendimento. Quando isso não acontece, o professor sofre as consequência pelo desconhecimento que a comunidade tem dele e do trabalho que pretende desenvolver.

Ao longo de vários meses de trabalho/convívio – 28 horas por semana – o professor vai conhecendo a realidade de cada aluno e vai moldando as práticas às necessidades da turma e assim consolida uma relação de confiança e de afeto com os educandos. A relação de proximidade e de diálogo que se estabelece entre o professor, o aluno e o seu encarregado de educação é decisiva para acompanhar a evolução da criança na aprendizagem de conteúdos e no desenvolvimento de outras competências.

As escolas do pré-escolar e do 1º ciclo tem um papel social muito importante nas comunidades. Por isso, é essencial que não exista inconstância no corpo docente, para que a escola não seja desvalorizada pela comunidade. A estabilidade é fundamental para o amadurecimento das relações e o desenvolvimento de projetos.

 

Independentemente da comunidade em que se vive, há dúvidas que acompanham sempre os pais:

  • ­Qual é a melhor escola para o meu filho?
  • Quem será o professor e como será ele?
  • O meu filho não frequentou o pré-escolar, será que vai conseguir adaptar-se?
  • O meu filho é tão novo… não devia ficar mais um ano no pré-escolar?
  • O meu filho mudou de escola, vai percorrer mais quilómetros, será que vai habituar-se a estar mais longe de casa?

Respondendo de forma clara e global:

  • A melhor escola não é aquela em que os alunos passam mais tempo, mas sim a que promove uma relação de proximidade com toda a comunidade para o desenvolvimento do aluno.
  • Independentemente da reputação que possa ter, o professor faz sempre o seu melhor, apesar de algumas condicionantes: turmas grandes, poucas horas para apoio educativo ou para necessidades educativas especiais.
  • O aluno que não frequentou o pré-escolar vai vivenciar um processo de adaptação diferente em relação aos seus colegas.
  • A criança precisa de alguma maturidade para conseguir ultrapassar as dificuldades. Na incerteza, é sempre preferível ficar mais um ano no pré-escolar.
  • Obrigar uma criança de 6 anos a acordar muito cedo para chegar à escola e só regressar a casa ao final da tarde é privá-la de sonhos e brincadeiras, de tempo lúdico que é importante para a sua felicidade e o seu desenvolvimento como pessoa.

 

Se refletirmos sobre o facto de muitas turmas do 1º ciclo perderem o seu professor no final do ano letivo, o que cria uma rotura na relação e no trabalho desenvolvido, por outro lado, os alunos têm a possibilidade de, com um novo professor, conhecer uma nova realidade, novas regras, com métodos e ferramentas de trabalho diferentes que podem estimular o desenvolvimento de outras capacidades.

Para mim, é essencial que os alunos gostem da escola e do professor, mas também que haja um clima de afetos e de valorização das pequenas conquistas e assim educar para a descoberta e para autonomia.

Se parto com saudades é porque também me senti feliz com aquela turma, naquela sala, escola, agrupamento…

Gonçalo Gonçalves

Professor do 1.º ciclo

 

 

 

 

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