Home Rubricas Topo e Fundo | A valorização do professor e a escola “racista”

Topo e Fundo | A valorização do professor e a escola “racista”

227
1

No Topo: Professor, não é qualquer um

O convite feito ao antigo primeiro-ministro para ser professor numa universidade pública portuguesa suscitou, esta semana, um interessante debate público. É relativamente comum que políticos retirados do activo partilhem e sua experiência governativa através de conferências, livros, seminários, e se fosse esse o caso provavelmente o assunto não levantaria celeuma. Acontece que o lugar oferecido a Passos Coelho no ISCSP por um seu correligionário político é, nada mais nada menos, do que o de professor catedrático convidado. E, quanto a habilitações académicas, elas limitam-se a uma licenciatura obtida aos 37 anos numa universidade privada de fama duvidosa.

A questão que se coloca então, independentemente do mérito da acção política e governativa de Passos Coelho, é se a “experiência de vida” constitui só por si competência bastante para que um licenciado oriente mestrados e doutoramentos. Ou, mais prosaicamente, se as leis e as éticas criadas por uma certa elite política e académica só servem para aplicar aos outros, pois a eles próprios tudo é permitido. Será legítimo, ao primeiro-ministro de um governo que acabou com o programa “Novas Oportunidades” e as suas “histórias de vida” em nome da exigência e do rigor na formação de adultos, entrar na docência universitária pelo topo da carreira, sem habilitação ou currículo académico relevante, como manda a lei?

Pelo que se leu e ouviu ao longo da semana, a opinião pública não parece apoiar as pretensões de Passos Coelho. Longe vão os tempos em que, na falta de professores habilitados, a profissão era acessível a qualquer um. Em que “dar umas aulas” podia ser um biscate que se fazia enquanto não se arranjava profissão mais atractiva ou compensadora. Ao contrário do que pensam certos políticos, os professores devem ter as competências e habilitações exigidas para o exercício da profissão. Felizmente, é assim parece pensar, nos dias de hoje, a maioria dos cidadãos…

No Fundo: A escola “racista”

O discurso é insidioso e recorrente: crianças e jovens pertencentes a determinadas minorias étnicas, sobretudo ciganos e afrodescendentes, apresentam maiores taxas de insucesso e abandono escolar. Como aparentemente a escola não consegue proporcionar a estes alunos o mesmo sucesso que têm os outros, conclui-se, de forma apressada e irresponsável: a escola é racista. Ou, naquele sociologês pedante com que se pretende disfarçar o preconceito e a falta de rigor: há “racismo institucional” na escola portuguesa.

Ora a verdade é que não é a escola que exclui ou discrimina os alunos: são as condições económicas, sociais, familiares e culturais do seu meio de origem que determinam, em larga medida, o insucesso escolar. Há mais alunos negros ou ciganos a reprovar, assim como também há mais insucesso entre as crianças pobres do que entre as ricas, seja qual for a comunidade ou etnia a que pertençam. Ou entre os filhos de pais analfabetos do que entre os que têm pais com formação superior.

Cai assim em saco roto o apelo patético a que a escola “mude”, quando a verdadeira e necessária mudança vai muito para além da escola: passa por corrigir as causas profundas que geram pobreza, exclusão e desigualdade na sociedade. Não é a barreira linguística ou cultural que faz com que uma criança chinesa ou moldava tenha, em média, melhor aproveitamento escolar do que um menino cigano ou de origem africana. Mas, para a sociologia preguiçosa e conformista instalada nas academias e nos “observatórios”, é incomparavelmente mais cómodo insistir em eternos clichés e encontrar sempre os mesmos culpados.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

1 COMMENT

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here