Home Rubricas Topo e Fundo | Os protestos em Vagos e as escolas “do...

Topo e Fundo | Os protestos em Vagos e as escolas “do insucesso”

1224
0

No Topo: O protesto dos estudantes de Vagos

Duas alunas da Escola Secundária de Vagos foram chamadas à Direcção por se terem beijado. Advertiram-nas de que o seu gesto provocava incómodo e não o deveriam repetir. Mas o caso não morreu aí: os colegas souberam do sucedido e, revoltados, organizaram um protesto no interior da escola, onde se manifestaram a plenos pulmões contra a atitude homófoba e discriminatória da Direcção. Os vídeos e as imagens do sucedido rapidamente chegaram às redes sociais e à comunicação social. E enquanto a Direcção da escola procurava salvar a face da pior forma possível – internamente, ameaçando alunos com processos disciplinares, e para o exterior, recusando-se a dar os esclarecimentos que se impunham – o caso entrou na agenda política nacional.

Certamente que outros estudantes já se beijaram nesta escola, sem que por tal tenham sido repreendidos. O que aqui incomodou, e os jovens sentiram-no bem, foi o beijo ter sido entre duas raparigas. Ora isto é discriminação com base na orientação sexual, algo que a Constituição Portuguesa, assim como o Estatuto do Aluno, expressamente proíbem.

Os alunos da escola de Vagos estiveram bem, e estão de parabéns. Conhecem os seus direitos e lutam por eles. Mostram-se solidários e interventivos. Rejeitam a discriminação e o preconceito, venham de onde vierem. Manifestam-se pacificamente, sem medos nem pedidos de autorização. E demonstraram que na escola não aprendem apenas teoria: perante uma boa oportunidade, deram-nos a todos uma excelente lição prática de cidadania.

No Fundo: As escolas “do insucesso”

O insucesso escolar português continua a ser elevado, sobretudo quando comparado internacionalmente: a maioria dos países com resultados escolares semelhantes aos nossos, consegue-os com menos reprovações. Somos bons – e na verdade temos vindo a melhorar a nossa posição nos rankings educativos – mas precisamos de mais tempo para fazer as coisas.

Esta semana fomos surpreendidos por uma abordagem diferente ao tema do insucesso: uma equipa de investigadores dirigida pela antiga ministra da Educação Maria de Lurdes Rodrigues constatou que uma grande parte do insucesso escolar que persiste nos primeiros anos de escolaridade se concentra numa minoria de escolas do 1º ciclo. Chamaram-lhes as escolas do insucesso.

Muito haverá a fazer, por certo, para que estas escolas, frequentadas por muitos alunos com problemas que não serão apenas de aprendizagem, se venham a tornar, um dia, verdadeiras escolas de sucesso. Mas não me parece que rotulá-las daquela forma, como se a missão dos professores que aí trabalham fosse “chumbar” alunos, seja  a melhor maneira de motivar e valorizar os profissionais da educação nessa luta sem tréguas que se diz querer travar contra o flagelo do insucesso.

Que Maria de Lurdes Rodrigues tem, na relação com os professores, a sensibilidade do elefante na loja de porcelanas, é algo já que tivemos oportunidade de descobrir da pior forma. Agora saber porque ainda tentam recuperar esta “investigadora”, trazendo-a para a linha da frente do reformismo educativo, esse continua a ser um mistério difícil de resolver.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here