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Topo e Fundo | O inquérito aos professores e o agravamento das desigualdades

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No Topo: O inquérito nacional aos professores

Foi esta semana anunciada a realização do maior inquérito de sempre aos professores portugueses. Deverão ser abrangidos cerca de 40 mil profissionais docentes, que serão inquiridos sobre as diversas facetas da sua vida profissional e também sobre a forma como esta se reflecte sobre a vida pessoal. A iniciativa surge de uma parceria entre a Fenprof e uma equipa de investigadores universitários liderada por Raquel Varela.

Claro que nem na base deste inquérito nem nos seus resultados previsíveis estarão propriamente boas notícias: é sabido que a classe docente está desgastada, descrente e envelhecida, sofrendo as consequências de uma política de desinvestimento público no sector da Educação que os anos da austeridade acentuaram. Uma parte significativa dos professores portugueses não estão bem de saúde – suspeita-se de números alarmantes ao nível de baixas médicas – e a falta de melhores perspectivas para a profissão só tenderá a agravar os problemas actuais.

No entanto, apesar de o chamado mal-estar docente ser uma realidade que todos sentimos bem presente, falta-nos a sua tradução em números: uma radiografia completa da classe, obtida directamente de inquéritos aos próprios professores, permitirá perceber a dimensão e o alcance dos principais problemas da classe. O que deverá então nortear, não apenas a agenda reivindicativa dos sindicatos, mas também as respostas políticas que vêm sendo eternamente adiadas.

No Fundo: O agravamento das desigualdades na educação

Há uma realidade indesmentível que diversos estudos e estatísticas que vão sendo publicados continuam a sublinhar: a organização do nosso sistema educativo está a contribuir para o aumento das desigualdades. E ao longo da semana que agora termina tivemos, pelo menos em dois momentos, a confirmação desta ideia: primeiro com um estudo que demonstrou como a pressão para a obtenção de boas notas nos exames está a favorecer os alunos com maior capacidade económica; o segundo surgiu com a divulgação dos rankings das escolas.

No caso dos actuais exames do secundário, o facto de serem usados como provas de candidatura ao ensino superior cria uma pressão excessiva para a obtenção dos resultados que dêem acesso ao curso pretendido. Ora isto favorece os alunos de famílias mais abonadas, que podem pagar a frequência de colégios e de explicações que garantam a subida das notas. Em vez de serem, como seria natural, mais um instrumento de avaliação, os exames tendem a tornar-se, nalgumas disciplinas, um objectivo em si mesmo, condicionando severamente todo o trabalho de alunos e professores.

A divulgação dos rankings escolares funciona no mesmo sentido. Sem negar a pertinência de outras leituras que também podem ser feitas a partir dos dados divulgados pelo ME, a verdade é que para a opinião pública o que passa habitualmente é a habitual publicidade gratuita às escolas privadas que se destacam no topo. E a mensagem subliminar de que as boas escolas fazem os bons alunos, o que leva a um aumento da procura das que, públicas ou privadas, se encontram no topo. Na verdade as coisas funcionam mais ao contrário: é sobretudo a concentração de bons alunos e de famílias empenhadas na educação dos filhos que conduz certas escolas ao topo da tabela. Os rankings dão assim o seu contributo anual para a segmentação dos públicos educativos, ajudando a subir as escolas que já têm melhores resultados e empurrando as que têm dificuldades ainda mais para o fundo.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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