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Topo e Fundo | A greve de sexta-feira e o ME à deriva

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No Topo: A greve da administração pública

A greve de sexta-feira passada teve uma adesão muito expressiva da parte de docentes e não-docentes, levando ao encerramento da grande maioria das escolas e agrupamentos. No caso dos professores, é preciso recuarmos a 2013 e à greve às avaliações para encontrarmos níveis de adesão semelhantes.

E no entanto os professores não costumam gostar muito de fazer convergir as suas lutas com as da generalidade dos funcionários públicos. Ainda para mais quando é notório que se impõe uma agenda reivindicativa própria e específica dos professores, que tem à cabeça a questão da não contagem, para efeitos de progressão na carreira, do tempo de serviço obtido durante os anos do congelamento.

Mas esta era uma luta em que os professores não se podiam dar ao luxo de não marcar presença. Numa altura em que a devolução de rendimentos anda a ser negociada a conta-gotas e deixando muitas exigências por satisfazer, o alheamento dos professores seria um sinal de que estariam conformados com a sua actual situação. Um erro estratégico que os professores, e os sindicatos que os representam, não quiseram cometer.

No Fundo: O ME à deriva

O actual ME teve um início auspicioso: reverteu algumas das medidas emblemáticas mas pouco consensuais do anterior governo e assumiu uma postura mais aberta e dialogante com os diversos parceiros educativos. Sem deixar de ser firme e assertivo quando o entendeu necessário, como se viu no caso dos contratos de associação. Mas nos últimos tempos o que tem prevalecido é uma postura errática ao sabor dos acontecimentos e a incapacidade política de resolver problemas, construir verdadeiros consensos e definir um rumo para a Educação portuguesa.

É hoje evidente que as reformas educativas que se pretende lançar necessitam de uma renovação geracional da classe docente, que permita a entrada de uma nova geração de professores nas escolas, a par da saída progressiva dos mais idosos e desgastados. São necessárias mudanças profundas no sistema de formação de professores e um investimento sério na formação contínua, dando prioridade, não a modas educativas, mas às reais necessidades sentidas pelos professores nas escolas. Também é claro que o reforço de meios tecnológicos que se pretende associar à escola dita do século XXI não se faz sem um significativo investimento financeiro, algo que parece ausente das prioridades governamentais.

Incapaz de resolver as contradições entre o discurso e a realidade e de ganhar os professores para a concretização das mudanças pretendidas, o ME vai-se aos poucos aproximando da posição hostil aos professores que marcou o lurdes-rodriguismo e da tentação de impor as suas reformas contra a vontade e a convicção dos seus principais agentes no terreno.

Com um ministro que, em termos políticos, é um peso-pluma, incapaz de defender junto dos seus pares os interesses dos professores que tutela, o ministério gasta as suas energias a conter os professores, em vez de os ouvir, valorizar e defender. É significativo que o ME, em vez de resolver de forma justa os problemas dos concursos, esteja simplesmente a investir no recrutamento de juristas para se defender nas centenas de processos que os professores lesados estão a intentar contra ele.

 

2 COMMENTS

  1. Portanto um dos problemas para a renovação da educação em Portugal é a dos velhos que não querem ”entrar” na pedagogia vanguardista…
    Sem contestar que os quadros necessitam de renovação, se isso quer dizer ” esta malta está arcaica e não gosta dos objectos modernaços e uma escola que se torne um grande recreio” então estamos conversados…
    Quando ouvimos certos teóricos ligados à educação, que, na sua maioria , nunca se confrontaram com uma sala de aula real, parece que tudo faz sentido: é necessário renovar a educação, os métodos estão ultrapassados e o impúbere adolescente sofre, horrivelmente, se não está conectado ao mundo irreal em que vive… Para acabar com este estado de coisas surgem propostas supostamente revolucionárias : mildfulness ; yoga para crianças; filosofia para bébés; educação para o optimismo… Podíamos continuar numa infindável lista de ‘’tralhas’’ pós-modernas que pretendem colonizar as cabeças dos educadores e inocular-lhes um certo grau de culpa e mostrar-lhes como estão ‘’outdated’’…
    Pois vemos que as escolas, colégios em geral, que adoptaram tão amorosamente o novo modelo da flexibilidade curricular são as mesmas que há poucos dias se digladiavam nos rankings examinativos… A coerência com esta suposta visão formativa, global e humanista, é de tal ordem que, supostamente, apesar do progressivo abandonado o velho modelo estratificador e centrado nas disciplinas, continuam a manter cerimónias rituais de mérito, para os melhores alunos, fogueiras de vaidades para papás embevecidos, e não há Agrupamento que não continue a reclamar o Mérito; a Excelência; o Empreendedorismo como o alfa e o ómega da sua práxis. Mesmo que muitos continuem a apresentar uma taxa de sucesso miserável, sempre que avaliação externa lhes faz cair o cutelo, mesmo que uma grande parte da sua população escolar seja rapidamente encaminhada para os cursos profissionais, e que, mesmo assim, os resultados sejam sofríveis, o jargão do Mérito; da Excelência e da Inovação há-de infestar todo e qualquer Projeto Educativo… Neste quadro um dos barómetros instalados para atestar a excelsa qualidade pedagógica dos agrupamentos é a caça ao prémio … Investem neste particular as Direcções que sentem legitimada a sua liderança, e qualidade inovadora (sim, Inovação é uma palavras santa) com a vitória, ou até uma mençãozinha honrosa, num concurso onde são escolhidos para participar , por regra, os melhores alunos numa encenação orquestrada que não diz absolutamente nada sobre o funcionamento global da instituição educativa…
    Não é por acaso que muitos teóricos, especialistas ou não, em educação aderiram às supostamente novas metodologias (que de novas têm nada…) da aprendizagem por competências, tentando realizar uma revolução há muito ansiada, da desvalorização do papel do professor e do próprio conhecimento. A ‘’ domesticacão ‘’ da classe docente, de tornar a seu papel de simples mediador de conhecimentos; a pulverização dos sindicatos. A nova escola deve ‘‘engendrar’’ cidadãos cooperativos; acríticos; facilmente adaptáveis; trabalhadores de grupo; amistosos e sociáveis; que procurem sempre soluções e não questões… São estas as necessidades da Globalização! A desvalorização do conhecimento, a redução dos conteúdos disciplinares, é uma imperativo para indivíduos que devem trabalhar em grupo sem ‘’fazer muitas ondas’’. Deixemos pois o velho velho Marx dormir descansado, tornemo-nos todos ‘’colaboradores’’… Se houver problemas de stress , se nos sentimos usados, se passámos da sala de refeições para a cozinha, se o nosso emprego varias com as estações; nada como um bom cursos de meditação, e resignação oriental, para melhor o jugo da Nova Era…
    Esta onda imparável que varre os sistemas educativos da velha Europa tem como preocupação central a formação utilitária de novos ‘’colaboradores’’ para um panorama dominado pela tecnologia… Não nos deixemos enganar, então, pela conversa fiada do fim escola tradicional, como uma necessidade de formar cidadãos mais livres autónomos e conscientes, mas almejemos o fim da denominada ‘’ escola tradicional’’ porque ela parece não responder às necessidades do capitalismo globalizado e aos anseios de uma minoria…
    Nesse farol, que supostamente guia o lado bom da educação, a Finlândia’’, processa-se neste nosso tempo a revolução necessária para a hodiernidade : os alunos aprendem por tópicos , de modo transdisciplinar, e, mais importante, um conhecimento útil , acima de tudo, antes de tudo, soberanamente acima de tudo ÚTIL … Um dos ideólogos destas reformas, em terras glaciares, é o senhor Pasi Silander… Numa das muitas entrevistas que vai dando, muitas para os íncolas menos iluminados do Sul da Europa e da América Latina, o senhor não esconde ao que anda, e que parece encantar também muitos por terras lusas, ‘’ Os jovens usam computadores bastante avançados. No passado, os bancos tinham muitos funcionários a fazer contas, mas agora isso mudou totalmente. Portanto, temos que fazer as mudanças na educação necessárias para a indústria e a sociedade moderna “. Cá está, bem expressa, a preocupação central com a formação integral do cidadão e do bem da Humanidade, em geral…
    A questão do útil é, nos dias que correm uma questão central… Pela necessidade do que é útil ao aluno vão-se enterrando, alegremente, a História; a Filosofia; as Línguas Antigas; a Literatura Clássica; a Ciência Política… Como isto poderá ser útil para alguns…
    Termino com um excerto do ensaio , ‘’ A utilidade do inútil’’ do professor Nuccio Ordine, um senhor especialista em matérias antigas e, por sinal pouco úteis, à Nova Era: ‘’ Quase todos os países europeus parecem estar orientados para uma descida do nível das dificuldade…’’ … ‘’ não se pedem mais sacrifícios mas, pelo contrário, procura-se atraí-los (aos alunos) com a redução progressiva dos programas e com a transformação das aulas num jogo interactivo superficial…’’ Da mesma obra: ‘’ …Será preciso que lutemos , nos próximos anos, esta deriva do utilitarismo, não só da ciência, a escola e a universidade e tudo aquilo que chamamos cultura’’. Será preciso resistir à dissolução programada do ensino, da investigação científica, dos clássicos, e dos bens culturais’’

    • Subscrevo, no geral, as considerações que faz. Mas gostaria de deixar claro que não defendo o modelo da escola utilitarista ao serviço do poder ou da economia.

      Quando defendo uma recomposição geracional da classe docente é porque não me parece que o desequilíbrio actual seja sustentável – acho que devemos ter professores de todas as idades, contrabalançando a energia e a vontade de inovar dos mais novos com o saber e a experiência dos mais antigos na profissão. Há um “passar de testemunho” que é necessário à profissão e que não está actualmente a acontecer. E isso aumenta o risco de os novos que irão entrar em massa daqui a dez anos venham a ser os tais acéfalos formatados para a escola tecnológica e divertida “do séc. XXI”. Ou criados para todo o serviço dos senhores directores.

      Na minha opinião, o pensamento crítico sobre a profissão e a autonomia profissional devem continuar a ser atributos de todos os professores, independentemente da idade, experiência ou nível de ensino em que leccionem.

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