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Topo e Fundo | A falta de professores e a discriminação nas escolas

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No Topo: Quem quer ser professor?

Uma parte significativa dos alunos portuguesas estar neste momento sem professor numa ou noutra disciplina não é, decerto, uma boa notícia. Mas, olhando mais atentamente para o que estará a acontecer, podemos encontrar sinais de mudança no panorama da docência em Portugal: apesar de praticamente não terem entrado novos profissionais para o sistema nos últimos dez anos e de o ensino superior não ter deixado de formar novos professores, a verdade é que, pelo menos em algumas disciplinas, em certos tipos de horários e em determinadas zonas do país, já há vagas para substituições temporárias que ficam, ao longo de semanas sucessivas, por preencher.

A aposta na proletarização da profissão docente tem passado, também, por manter um imenso exército de reserva de docentes qualificados e desempregados, permanentemente disponíveis para “tapar os buracos” que vão surgindo nas escolas ao longo do ano lectivo. Só que isto não é vida para ninguém, e na falta de melhores perspectivas é natural que as pessoas procurem outros empregos, deixando de estar disponíveis para a precariedade extrema dos contratos ao mês com que o ME as tenta aliciar.

Isto liga-se a um outro problema, que também tem sido falado ultimamente: o da falta de vocações docentes. Os melhores alunos não querem ser professores e os cursos de formação em ensino são, muitas vezes, segundas escolhas de candidatos que não conseguiram entrar noutros cursos com média mais elevada. Também aqui há que fazer escolhas: assegurar a formação de uma nova geração de bons professores implica tornar mais selectivo o acesso aos cursos, melhorar a qualidade da formação científica e pedagógica e oferecer, aos jovens professores, perspectivas decentes de acesso e de progressão na carreira. Só assim se garantirá, a médio e longo prazo, a existência de docentes qualificados capazes de responder às necessidades do sistema educativo nas próximas décadas.

No fundo: Discriminação e racismo na escola pública

Apesar de o caso que esta semana foi publicamente divulgado se referir a uma escola do concelho de Portimão, a acusação será extensiva a outras escolas do país que alegadamente discriminam alunos de minorias étnicas, colocando-os em turmas “especiais”.

Claro que este problema tende a ser exclusivo da escola pública, pois o ensino privado, ao implicar o pagamento de mensalidades geralmente só acessíveis a famílias da classe alta ou média-alta, já é discriminatório por natureza. E resolve, logo por aí, muitos dos problemas que as escolas públicas, inclusivas, têm de enfrentar.

A segregação dos alunos, com base em características étnicas ou culturais é, à partida condenável, e deve ser evitada numa escola dita inclusiva. O ideal é que todos os alunos aprendam a conviver com todos, a aceitar a diversidade e a desenvolver a tolerância.

Mas é igualmente verdade que nem sempre as escolas conseguem funcionar nas condições ideais. E quando os sentimentos de desconfiança, incompreensão e ódio que existem localmente entre diferentes comunidades se manifestam na escola? Quando os miúdos de determinada minoria étnica formam um grupo relativamente numeroso e não se querem integrar? Quando se percebe que uma resposta educativa mais direccionada pode ser a melhor opção? Talvez nestes casos a formação de turmas relativamente homogéneas possa ser, transitoriamente, a melhor solução. E o ponto de partida para um trabalho de integração que precisa, obrigatoriamente, ser feito. Envolvendo os alunos, as famílias, a comunidade.

Um tema complexo, que merece ser discutido abertamente e sem preconceitos.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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