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Topo e Fundo | O exemplo dos enfermeiros e a tragédia dos incêndios

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No Topo: O sucesso da luta dos enfermeiros

Excepcionalmente, o topo da semana não é hoje ocupado por algo que tenha a ver, directamente, com os professores, a escola e a educação. Indirectamente, até tem.

De facto a luta longa, dura e, finalmente, bem sucedida dos enfermeiros pode bem servir de inspiração e exemplo aos professores portugueses. Que se queixam do eterno congelamento da carreira, das más condições de trabalho, dos concursos injustos e da prepotência ministerial, mas se têm mostrado incapazes de, de forma organizada, consequente e eficaz, lutarem pelos seus direitos e aspirações.

Noutro local, expus sete razões que permitiram aos enfermeiros satisfazer o essencial das suas reivindicações e que ao mesmo tempo têm constituído, para os professores, sete impedimentos para conseguirem o mesmo sucesso. No essencial, direi aqui que os professores não podem querer tudo: precisam de focar a sua luta em dois ou três objectivos essenciais, exequíveis e mobilizadores. Que estes devem envolver interesses comuns a toda a classe profissional e, finalmente, que tem de haver organização, resiliência, persistência e, acima de tudo, união entre os professores, para que algo possa ser alcançado.

O êxito, nas lutas laborais, não está ao virar da esquina, nem é servido de bandeja, como o caso dos enfermeiros amplamente demonstrou.

No Fundo: A tragédia dos incêndios

Pelo lado negativo, não pode deixar de destacar-se a vaga incendiária que varreu o país no início da semana e provocou já 44 mortos, centenas de feridos e milhares de pessoas afectadas pela perda de bens, incluindo não só casas e automóveis mas também terrenos de cultivo, fábricas e máquinas que eram a base da actividade económica de muitas famílias.

Nos concelhos mais afectados, as escolas foram encerradas. Com algumas estradas intransitáveis, famílias desalojadas, pessoas feridas, desaparecidas ou simplesmente exaustas ao fim de tantas horas a combater fogos avassaladores, não havia condições para abrir as escolas, algumas delas transformadas até, temporariamente, em centros de acolhimento das populações que foram obrigadas a abandonar as suas casas.

Trabalhando num dos concelhos mais duramente atingido pelos incêndios, conheço razoavelmente esta face do nosso país, um interior esquecido e abandonado à sua sorte, que geralmente só chega às parangonas informativas pelos piores motivos. Esperemos que a dimensão da tragédia que não se conseguiu evitar sirva ao menos para ajudar a compreender a necessidade de olhar com mais atenção para os problemas do país que está para além das grandes cidades do litoral. E construir, para eles, respostas à altura.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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