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Topo e Fundo: A avaliadora que não gosta de avaliações e a má-fé negocial do ME

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No Topo: A avaliadora que não gostou de ser avaliada

Não é que me dê prazer a desgraça alheia, mas no caso de Maria de Lurdes Rodrigues a maioria dos professores do básico e secundário que soube da notícia não terá resistido a esboçar, pelo menos, um sorriso. De facto, ficou a saber-se esta semana que a ex-ministra da Educação viu o seu desempenho classificado como “Inadequado” por não ter cumprido todos formalismos da avaliação referente ao período de 2014/16.

Na sua contestação, a professora do ISCTE insurgiu-se contra um modelo de avaliação que considerou “burocrático e administrativo” obrigando os docentes a preencher um extenso formulário numa plataforma criada para o efeito. Lurdes Rodrigues pediu uma avaliação alternativa mas não foi atendida por ter deixado passar o prazo para a requerer. E o Conselho Científico validou o “chumbo” da antiga ministra.

Ora a verdade é que foi este tipo de argumentos que os professores do ensino não superior apresentaram contra o modelo de avaliação que a ministra favorita do socratismo lhes quis impor: uma avaliação burocrática, formalista e punitiva, que nada contribuiu nem para melhorar as práticas pedagógicas nem para incrementar o trabalho cooperativo nas escolas. Na altura, os professores esbarraram na insensibilidade e na teimosia de Lurdes Rodrigues. Agora, será caso para dizer que certos problemas e constrangimentos se compreendem melhor depois de termos passado por eles…

No fundo: A má-fé negocial do ME

Forçada, pela luta dos professores e pela pressão dos parceiros de coligação parlamentar, a negociar a da recuperação faseada do tempo de serviço em resultado do descongelamento da carreira docente, a equipa ministerial está a fazer um jogo que, no mínimo, teremos de considerar pouco limpo. Na tentativa de recuperar campo de manobra política virando a opinião pública contra os professores, a última cartada foi a apresentação de valores falsos e enganadores acerca do custo real das progressões na carreira.

Aquilo que o ME fez, basicamente, foi considerar apenas o factor tempo de serviço para estimar o número de docentes que, em cada escalão, estariam em condições de progredir a partir de 2018. Só que em pelo menos em duas das transições – do 4º para o 5º e do 6º para o 7º – a maioria dos docentes estará dependente de vaga para progredir. E o ministério não só tem recusado qualquer compromisso em relação ao número de vagas a abrir anualmente, como não divulgou sequer quantas pretende criar já no próximo ano. São mais de 20 mil os professores que não sabem quando irão progredir, mas cuja progressão está já a ser considerada um custo efectivo nas contas ministeriais.

Claro que entre os professores e os negociadores sindicais haverá sempre gente atenta a estes truques e preparada para os desmontar e denunciar. Contudo, para a opinião pública, o que passa é uma vez mais a mensagem dos elevados custos das progressões na carreira dos professores, tentando criar um ambiente hostil às reivindicações da classe. Quase como se tivessem sido os professores, e não os banqueiros do regime e os seus apaniguados, os responsáveis pela quase falência do Estado português em 2011.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

Com alunos e professores em merecida pausa lectiva, na próxima semana não haverá Topo e Fundo. Esta rubrica regressará em Janeiro, com o retomar das actividades lectivas. Até lá, votos de Festas Felizes a todos os leitores.

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