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Topo e Fundo | As refeições escolares e os resultados dos PIRLS 2016

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No Topo: A qualidade das refeições escolares no Parlamento

Já são antigas, e atravessam gerações, as queixas dos alunos e dos pais acerca da comida das cantinas. E têm sido quase sempre desvalorizadas, pois todos sabemos que os gostos e hábitos alimentares de muitos miúdos não são os mais adequados e saudáveis. Na verdade, a tradicional refeição de cantina, com sopa, salada e fruta, acaba por ser mais barata e saudável do que a fast-food que os alunos mais velhos procuram no exterior da escola.

No entanto, os casos mais recentes alarmaram a opinião pública porque partiram de denúncias concretas, algumas delas documentadas por fotos e vídeos tirados com os telemóveis dos alunos, da má qualidade das refeições: doses insuficientes, carne ensanguentada, bichos a passear pela salada, rissóis crus e outros “petiscos” que não constam do caderno de encargos das empresas a quem estas cantinas foram concessionadas.

A discussão de fundo acabou por se centrar precisamente aqui, na concessão a privados de um serviço público que as escolas, durante muitos anos, asseguraram com meios próprios. Actualmente, cerca de dois terços das escolas públicas geridas pelo ME têm a cantina gerida por uma empresa externa. Só que as poupanças que o ministério consegue por esta via obrigam as empresas concessionárias a cortar nos custos se quiserem ter lucros significativos. Isto traduz-se na degradação da qualidade dos alimentos, da confecção e do serviço.

Esta semana, o assunto chegou ao Parlamento, tendo sido votadas várias recomendações ao governo sobre a matéria. Embora não tivesse vingado a proposta do BE, que pretendia o fim das concessões nos casos em que as escolas desejassem retomar a gestão dos refeitórios, a discussão pública entretanto gerada obrigou o ME a anunciar medidas efectivas de fiscalização das cantinas escolares, incluindo a qualidade da comida servida e o cumprimento das condições contratadas com as empresas concessionárias. E aplicando, espera-se, as penalizações previstas sempre que sejam detectados incumprimentos.

No Fundo: A descida de resultados nos PIRLS 2016

Foi a notícia da semana no campo da avaliação educativa: Portugal desceu nos rankings dos testes internacionais de leitura realizados em 2016, passando de 19º a 30º numa lista de 50 países. E, como é habitual entre nós, logo se passou à fase de, mais do que apurar razões, imputar responsabilidades.

Não é difícil reconhecer que esta descida representa em larga medida o fracasso das reformas introduzidas por Nuno Crato: os alunos do 4º ano que fizeram os testes cumpriram durante todo o 1º ciclo os novos programas e as metas curriculares impostos pelo anterior ministro. Um ensino demasiado prescritivo e mecanicista, desajustado, nalgumas exigências, do nível etário das crianças. Mais focado em coisas como a velocidade e a fluência da leitura do que na compreensão do que se lê, por exemplo. Com os resultados que agora estão à vista. Mas também não fica muito bem ao actual governo responsabilizar as metas criadas pelo seu antecessor se, sabendo que são prejudiciais, não as revogou ou reajustou.

Interessa agora, mais do que as críticas ao passado, planear o que deve ser feito para corrigir o que tem corrido mal. Antes que, das bandas do ministério, alguém desbobine a velha cassete da necessidade de “mais formação para os professores”, atrevo-me a sugerir que, por uma vez, venham às escolas. Falem com os professores e os alunos, tentem perceber as reais necessidades. Planeiem-se mudanças ditadas pelos problemas e desafios concretos que temos pela frente, e não pelas velhas cartilhas de “especialistas” e “cientistas da educação” desconhecedores da realidade e mentalmente parados ali por alturas da viragem do milénio…

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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