Início Rubricas Topo e Fundo | Tempo de reflexão e a violência contra os...

Topo e Fundo | Tempo de reflexão e a violência contra os professores

153
0

No Topo: Tempo de reflexão

Numa semana em que encontrar uma boa notícia na área da educação parece ser missão impossível, talvez seja proveitoso reflectir sobre os acontecimentos das últimas semanas. O assentar de alguma poeira mediática e a clarificação de algumas posições políticas também ajudarão a esse exercício.

Na falta de uma verdadeira política educativa, retirada há muito a Educação da lista das prioridades governativas, o que hoje preocupa os responsáveis é controlar os custos de funcionamento do sistema educativo. E é neste contexto que deve ser entendida a recusa sistemática do governo em negociar a devolução integral do tempo de serviço dos professores e a cambalhota dos partidos de direita no apoio à posição governamental. Pretende-se conter os custos futuros de uma tal medida, mantendo uma Educação baratinha, pois ainda não se sabe ao certo a dimensão dos buracos que ainda haverá por tapar no sistema financeiro.

Aqui, deve reconhecer-se o fracasso das lutas dos professores em torno de um objectivo que não foi alcançado. Da parte dos sindicatos, a clarividência com que se percebeu, agora, que a estratégia do confronto se encontra esgotada, nem sempre esteve presente durante o longo processo reivindicativo dos 9-4-2. E, do lado dos professores, a ambição – perfeitamente legítima, note-se – de recuperarem da sua carreira e fazerem valer os seus direitos nem sempre correspondeu a igual determinação na acção colectiva.

Os professores são hoje uma classe cansada, descrente, dividida. Superar o desânimo, estabelecer objectivos realistas e recuperar a confiança em si mesmos, começando pelas batalhas que podem ganhar – eis um ponto de partida para a necessária reflexão que, em conjunto, precisamos de fazer.

No Fundo: A violência contra os professores

O final da semana ficou marcado por mais uma inqualificável agressão a uma professora, praticada por familiares de uma aluna do 2º ano. O acto, ao qual assistiu toda a turma, mereceu o imediato repúdio dos colegas da professora, que reagiram manifestando-se, logo no dia seguinte, em defesa da segurança e contra a violência escolar. A escola terá feito o que está ao seu alcance, participando a ocorrência e garantindo o apoio aos alunos e a substituição da professora agredida.

Mas continua a sentir-se, nestes casos, o silêncio ensurdecedor do Ministério da Educação. Será que ninguém, entre ministro, secretários de Estado e directores-gerais, percebe que sempre que um professor é vítima de um crime, estando em exercício de funções e por um motivo relacionado com a profissão, há uma responsabilidade a que o ME, enquanto empregador, não se pode furtar? Que, ao contrário do que sucede nos gabinetes ministeriais, nós não trabalhamos com segurança à porta? Que, quando se manda ir toda a gente para a escola e esta se mantém aberta à comunidade, isso é também um convite a que energúmenos ponham em causa a segurança do espaço e a integridade física de quem ali estuda e trabalha?

A escola “inclusiva” não pode ser apenas uma lista de obrigações para os professores. Tem de envolver um acréscimo de meios e de condições para que se possa dar resposta aos problemas e trabalhar em segurança. E quando alguma coisa corre mal, quem superiormente dirige não se pode escudar na “autonomia das escolas” nem mostrar-se indiferente ao que aconteceu. Neste caso, inteirarem-se do Estado da professora, providenciando – e pagando – tudo o que seja necessário à sua recuperação seria apenas o mínimo a fazer. Mais: sempre que há agressões a professores ou outros funcionários, o ME deveria processar judicialmente os agressores, acompanhando a acusação do Ministério Público e pugnando pela aplicação de penas exemplares. A escola deve ser um espaço de referência no respeito pelos Direitos Humanos e na promoção de uma cultura de paz e tolerância – mas isto não pode ser apenas palavreado oco: tem de ser intransigentemente defendido pelos máximos responsáveis.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

COMPARTILHE

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here