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Topo e Fundo | O grupo GPS em tribunal e a burocracia na avaliação

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No Topo: Corrupção no grupo GPS levada a tribunal

A realidade já é conhecida, há décadas, por quem tem acompanhado as questões educativas. A atribuição de dinheiros públicos a empresas privadas, para que prestem serviços educativos que deveriam ser assegurados pelas escolas estatais, mostrou-se um negócio altamente lucrativo para estas empresas. Ao embaratecerem os custos, sobretudo através da exploração desenfreada da mão-de-obra docente, os proprietários dos colégios obtiveram elevados rendimentos e, nalguns casos, acumularam verdadeiras fortunas, que alimentaram novos negócios e estilos de vida ostensivamente luxuosos.

Contudo, a expansão do negócio exigiu a celebração de novos contratos em zonas do país onde não existia carência de oferta educativa. Foi aqui que se surgiu a necessidade de aliciar altos dirigentes e governantes, de forma a actuarem como facilitadores destes negócios em troca de futuras e chorudas recompensas. Ora se esta promiscuidade de interesses há muito era notada, só agora o Ministério Público leva às últimas consequências uma investigação feita ao grupo GPS, deduzindo acusações a António Calvete, Manuel Madama e outros administradores do grupo, e também a José Canavarro e José Almeida, respectivamente secretário de Estado e director regional no governo de Santana Lopes.

Os ex-dirigentes do ME são acusados de se terem deixado corromper, atribuindo contratos de associação a quatro escolas do grupo, em troca dos lugares remunerados que mais tarde viriam a ter nos quadros do GPS. Quanto à administração, percebe-se pelo teor da acusação como era gasto o dinheiro público desviado dos fins educativos a que era destinado: dezenas de milhares de euros despendidos em vinhos, jantares, viagens, espectáculos, automóveis, tudo em benefício dos administradores do grupo e dos seus apaniguados.

Este desbaratar de dinheiro dos contribuintes, que deveria ter sido investido na escola pública em vez de alimentar a ganância privada, não é, obviamente, motivo de satisfação. Que se esteja a pôr fim a uma impunidade de décadas, apurando a verdade e levando a julgamento os suspeitos destes crimes, isso sim, é verdadeiramente uma boa notícia.

No Fundo: E não se podia avaliá-los… com menos burocracia?

O ritual das avaliações do segundo período cumpriu-se, uma vez mais, nas escolas portuguesas. Reunidos os diversos elementos de avaliação, ponderados através de grelhas ou outros instrumentos mais ou menos sofisticados, lá se atribuiu a cada aluno a classificação que exprime, o melhor possível, aquilo que cada um foi capaz de alcançar nas diferentes disciplinas.

Mas não é disto que a maioria dos professores se queixam. Todos sabem que avaliar decorre normalmente do seu ofício de ensinar e é uma tarefa que, de uma forma ou de outra, terá sempre de ser feita. O que a maioria dos professores detesta é a quantidade de burocracia associada aos conselhos de turma: os relatórios, as justificações, as estatísticas, o cumprimento de metas, actividades, programas, articulações, projectos. E outras coisas que cada direcção, conselho pedagógico, grupo de trabalho ou coordenador de directores de turma se lembra de inventar.

Algumas escolas deram já passos decididos, fazendo valer a sua escassa autonomia, no sentido de abolir toda a papelada inútil nos processos avaliativos. Fazem-se actas concisas, eliminam-se documentos redundantes, exploram-se as potencialidades dos programas de gestão escolar para centralizar e tratar a informação. Mas, na maior parte das escolas portuguesas, o que continua a predominar é a velha cultura de trabalhar para os papéis. E muitas vezes se dá conta, nas reuniões de avaliação, de que estas não se centram nos alunos, nos seus problemas e nas suas aprendizagens, mas na papelada, física ou virtual, que há para preencher. Pois mais importante do que o sucesso dos alunos, é o registo de tudo o que se fez para o potenciar. Para a posteridade, ou apenas para inspecção ver.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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