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Topo e Fundo | Mais vagas no ensino superior e a inutilidade das provas de aferição

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No Topo: Mais vagas no ensino superior

Logo após o primeiro-ministro ter anunciado a ambiciosa meta de, até 2030, conseguir que 60% dos jovens portugueses adquiram formação superior, soube-se da intenção de aumentar, já este ano, o número de vagas para acesso aos cursos superiores mais procurados. Saúde-se a medida agora anunciada. Mas recorde-se que ela contraria o que foi feito há um ano atrás quando, a pretexto de favorecer a fixação de estudantes no interior e fora das duas principais cidades, se diminuíram as vagas disponíveis nas universidades de Lisboa e do Porto.

Já no regime especial de acesso para alunos dos cursos profissionais, dispensando a realização de exames nacionais, aí o Governo recuou. Temendo os eventuais efeitos nefastos da implementação apressada de uma medida que tem sofrido contestação, optou-se pelo seu adiamento.  Uma opção sensata, ainda para mais em ano eleitoral.

Na verdade, o concurso anual de ingresso no ensino superior é um dos processos mais sensíveis do nosso sistema educativo. Estão em jogo as carreiras académicas e o futuro profissional dos alunos melhores e mais motivados que terminam o secundário e também, como não poderia deixar de ser, as expectativas e apreensões das suas famílias.

Aos sucessivos governos, além de continuarem a facultar oportunidades de acesso a quem quer continuar a estudar numa universidade ou politécnico, conviria que começassem a prestar mais atenção à escassez de oportunidades que a nossa economia oferece aos jovens graduados. Não basta melhorar as qualificações das novas gerações: é preciso que o mercado de trabalho aproveite e valorize os novos profissionais. Nas últimas duas décadas o nosso país tem estado a descobrir uma vocação tardia de exportador de mão-de-obra altamente qualificada. Cujo valor, reconhecido lá fora, continua a ser desaproveitado cá dentro. Está mais do que na altura de trabalhar a sério para superar de vez esta situação.

No Fundo: A inutilidade das provas de aferição

Surgiram como a grande aposta deste ministério, em alternativa aos malfadados exames da era de Nuno Crato. Não tendo repercussão na avaliação dos alunos, as provas de aferição retirariam do processo avaliativo a carga de stress associada aos exames. Não produzindo uma nota, mas um relatório individual, dariam uma indicação mais precisa, a alunos e pais, sobre as aprendizagens realizadas e as dificuldades persistentes. Sendo realizadas a meio e não no final de um ciclo de estudos, deixariam margem para futuras progressões e ajustamentos no processo educativo, tendo em conta as falhas detectadas.

Contudo, se em relação aos exames as opiniões se dividiam, em relação a estas provas é difícil encontrar, nas escolas, que as defenda convictamente. O modelo avaliativo é demasiado pesado e burocrático. Os alunos não valorizam uma prova que, dizem, “não conta para nada”. A ideia de uma prova igual para todos os alunos do país soa estranha quando ao mesmo tempo se promove, de forma pouco controlada, a autonomia pedagógica das escolas e a flexibilidade dos currículos e aprendizagens. Assoberbados com as últimas aulas, as avaliações finais e os exames nacionais que começam em breve, os professores designados para classificar as provas dizem mal da sua sorte.

É importante continuar a aferir as aprendizagens dos alunos a nível nacional. Afinal de contas, há um currículo comum a que todos devem ter acesso; há disparidades e assimetrias entre escolas e regiões que interessa conhecer e, tanto quanto possível, corrigir. Mas, perante o coro de críticas e a óbvia inutilidade de alguns procedimentos, parece óbvio que o actual figurino das aferições deveria ser repensado. Se os habituais conselheiros do ME andam falhos de ideias, atrever-me-ia a fazer uma sugestão que, para algumas mentes, poderá soar a provocação: que tal, por uma vez que seja, falarem com os verdadeiros e sempre disponíveis especialistas da Educação – os professores?…

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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