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Topo e Fundo | Exames mais acessíveis e o calendário escolar desajustado

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No Topo: Exames mais acessíveis

A época de provas e exames nacionais é, tradicionalmente, uma fase crítica do nosso ano escolar. Para mais de cem mil alunos, sobretudo do ensino secundário, é o momento de pôr à prova os conhecimentos e competências adquiridos ao longo do ano, confrontando-os com as exigências das provas nacionais. Dos resultados obtido depende, muitas vezes, a possibilidade de se concretizar, ou não, a ambição de ingressar no curso superior pretendido.

Ora ao contrário de anos anteriores, em que uma ou outra prova surgiu envolta em alguma polémica – ou porque a estrutura era desequilibrada, ou porque uma ou várias perguntas eram confusas ou incongruentes, ou porque se apresentava demasiado fácil ou excessivamente difícil – este ano, e até ao momento, não parece haver grandes razões de queixa por parte de alunos e professores.

As provas são, regra geral, equilibradas, incluindo perguntas de diferentes tipos e diversos graus de dificuldade. Parecem mais próximas daquilo que realmente se ensina e aprende nas aulas. Aparentemente, são mais acessíveis, sem caírem no facilitismo – algo que só a análise dos resultados se encarregará de confirmar. E se nem sempre os seus autores conseguem evitar uma ou outra “rasteira” presente nos enunciados, nota-se em contrapartida que há um esforço sério feito no sentido de avaliar, não tanto a capacidade de memorização – embora o bom uso da memória tenha o seu lugar – mas sobretudo o que é realmente importante: a forma como os estudantes raciocinam e aplicam os seus conhecimentos.

No Fundo: Um calendário escolar desajustado

Foi publicado, como é habitual nesta altura do ano, o calendário escolar de 2019/20. Em ano de eleições não se esperariam surpresas numa matéria sempre sensível. Ainda assim, há um balanço negativo que não pode deixar de ser feito e que passa pela persistência, ao longo de toda a legislatura, de um modelo desadequado de organização do ano escolar.

A tradicional divisão do ano lectivo, pautada pelas principais festividades festas religiosas, origina três períodos de duração desigual. O primeiro período tornou-se, com o início das aulas em inícios de Setembro, excessivamente longo. Deveria ser amenizado, como é usual no resto da Europa e já em tempos foi experimentado com sucesso entre nós, com a introdução, a meio, de uma pausa lectiva de 3 a 5 dias de duração.

Quanto aos dois períodos restantes, a sua duração varia de ano para ano, condicionada pela data móvel da festa pascal. Não é raro o segundo período ser tão grande como o primeiro, ficando o terceiro reduzido a pouco mais de um mês. Talvez não seja fácil, num país de forte tradição católica, desligar o calendário escolar do religioso. Mas há no mínimo um debate público que deveria ser lançado a este respeito.

Outro constrangimento do ano lectivo, que este ano foi especialmente visível, prende-se com a realização das provas de aferição em simultâneo com as aulas a funcionar em pleno. O aparato excessivo em torno das provas, envolvendo rigores securitários quase como se de exames se tratasse, não se mostra compatível com o funcionamento normal das escolas. Se é para manter este figurino, mais valeria deixar as aferições, tal como os exames, para depois do término das aulas.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

2 COMMENTS

  1. O problema dos exames e complexo. Para mim estes deveriam ser feitos com as universidades. Não nas universidades pois estamos a ver os filhos dos advogados entrarem em advocacia, filhos de médicos entrarem em medicina, etc… Fazer os exames mais fáceis ia privilegiar os alunos do ensino particular cujas avaliações internas são, na maioria das situações, amplamente favorecidas. Assim o que me parece mais correto é na formacao do júri de exames estar algum professor da universidade e haver uma verdadeiraavalicao das escolas e não o que existe.

    • É efectivamente um problema complexo, e isso tem contribuído para o deixar andar um sistema cada vez mais desajustado. E o principal argumento para não alterar o sistema injusto que temos actualmente é que outro qualquer seria ainda pior. Não concordo, acho que há muita margem para melhorar e claro que a principal mudança deve passar pelo envolvimento das universidades na selecção dos seus alunos.

      Para se encontrar melhores soluções é preciso olhar a prazo, e nessa perspectiva parece-me que a questão dos favorecimentos no acesso tenderá a tornar-se um falso problema, porque a tendência é para a quase universalização das licenciaturas. Actualmente, cerca de 50% dos jovens prosseguem estudos numa universidade ou politécnico e no futuro a percentagem deverá aumentar ainda mais. A grande luta nas instituições de ensino superior será – já é agora – pela captação de alunos, não pela criação de barreiras para que só entrem os filhos dos senhores doutores.

      Claro que depois há um número reduzido de cursos – medicina e ciências da saúde, algumas engenharias e áreas da informática – onde há e certamente continuará a haver um excesso de procura e aí deverão existir processos de selecção mais justos e rigorosos do que os que temos actualmente, em que quem tem dinheiro para certos colégios privados facilmente sobe dois ou três valores à média que teria se continuasse na escola pública.

      A selecção deveria descartar as notas do secundário – que num quadro de autonomia e flexibilidade curricular – deixam de fazer sentido comparar directamente e focar-se em instrumentos que coloquem todos os candidatos em pé de igualdade. Poderiam aproveitar-se os actuais exames ou introduzir outras provas feitas e avaliadas pelas universidades, de preferência num processo conjunto. E aquilo que se exige deveria ter em conta as especificidades de cada curso. Por exemplo, acho que não faz sentido exigir-se a Matemática como prova específica em Medicina apenas porque o exame é difícil. Já a Biologia, a Química e até mesmo a Psicologia serão fundamentais para alicerçar as aprendizagens dos futuros médicos.

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