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Topo e Fundo | As vantagens da avaliação semestral e uma promessa por cumprir

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No Topo: Organização semestral do ano lectivo

Em Odivelas o ano lectivo já não se divide em trimestres. Nas escolas básicas e secundárias do concelho foi adoptada a organização semestral do ano lectivo. No debate educativo, o assunto esteve em discussão durante esta semana, suscitando reacções que parecem ser maioritariamente favoráveis.

Teoricamente, o modelo traz vantagens. Desde logo, a redução de três para dois momentos de avaliação sumativa diminui a pressão inerente à atribuição de uma nota. Mas este efeito pode ser facilmente anulado se as escolas criarem novos momentos de avaliação intercalar no Natal e na Páscoa. A vantagem de não ter de dar notas nestas alturas pode facilmente, em escolas onde se cultiva a burocracia avaliativa, dar lugar ao pesadelo das avaliações qualitativas e das sínteses descritivas, bem mais trabalhosas e nem sempre mais esclarecedoras do que a atribuição de uma classificação ou um nível.

Há outra vantagem pedagógica associada ao novo modelo, que outras escolas podem adoptar já em 2019/20:  a possibilidade de fazer ajustes ao calendário escolar. Desde que não alterem o total de dias lectivos, as escolas podem reduzir ligeiramente as férias do Natal e da Páscoa, introduzindo por exemplo uma pausa lectiva junto ao feriado de 1 de Novembro ou aumentando a duração das férias do Carnaval. E aqui estará talvez o maior aliciante desta autonomia que o ME pretende alargar a mais escolas no próximo ano lectivo.

As pausas lectivas a meio dos períodos já foram experimentadas há anos, com sucesso, no nosso sistema educativo. Contribuem para uma descompressão e um “recarregar de baterias” de que muitos alunos e um número crescente de professores sente falta. “Perder” dois ou três dias de aulas a meio de um período significa na verdade ganhar muito mais do que isso, tendo em conta o que se consegue em aumento da concentração dos alunos e do rendimento das turmas. Pena é que se continue a fazer depender de “projectos” a aplicação daquilo que comprovadamente resulta, em vez de se generalizarem as boas práticas a todas as escolas.

No Fundo: Universalização do pré-escolar – a promessa não cumprida

Um relatório europeu sobre o acesso à educação pré-escolar veio trazer à berlinda uma realidade incómoda: entre os cinco meses de vida – quando terminam as licenças de maternidade – e até que atinjam os quatro anos de idade, o Estado não dá resposta às necessidades das crianças em idade pré-escolar.

Num quadro de declínio da natalidade – continuamos a ser um dos países do mundo onde nascem proporcionalmente menos crianças – e quando se sabe que o apoio directo às famílias, através do financiamento de creches e jardins-de-infância, é uma das medidas mais eficazes para promover a natalidade e contrariar os efeitos nefastos do envelhecimento da população, prefere-se continuar a adiar decisões, hipotecando o futuro do país em troca de algumas poupanças imediatas.

Parece que já toda a gente se esqueceu que uma das metas da política educativa do actual governo, várias vezes assumida, era justamente a universalização da educação pré-escolar a partir dos três anos de idade. O que significa que o Estado deveria garantir a estas crianças, tal como já faz com as de quatro e cinco anos, o acesso gratuito à educação pré-escolar. Porque desistiram, aparentemente, de honrar o seu compromisso? E mais: porque é que os restantes partidos permanecem calados nesta matéria, parecendo pouco interessados em cobrar, em nome do povo que representam, uma promessa, até ver, não cumprida?…

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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3 COMENTÁRIOS

  1. Uma falsa questão.!
    Não concordo.
    Aumentará a carga de pressão num final dum semestre; desajustamento dos normais periodos de interrupção letiva que levam a que as familias tenham de repensar onde permanecem os filhos ( se sozinhos em casa ) , no final do semestre; os alunos não têm ainda a maturidade ou faixa etária dos estudantes da universidade para que queiram enquadrar a organização do ano escolar com a do ensino superior.
    Quem ficará a perder serão , mais uma vez , os professores. ! Mais trabalho, mais burocracia …

  2. Não percebo a razão da avaliação semestral estar no topo. Não lhe encontro vantagens pedagógicas, simplificação dos procedimentos burocráticos ou uma organização mais simplificada e eficiente das actividades escolares… Tirando pontualmente alguns directores e seguidores não me tenho apercebido que na comunidade escolar tal seja defendido!
    Quanto a mim, a objectividade, a transparência e feedback tão frequentes quanto exequível nunca fez mal a ninguém…
    Restam o tempo, os espaços e as condições para o fazer e isto seria, tão só, um dever da administração educativa proporcioná-lo a todos!

    Contornar problemas não os faz desaparecer. Eles, apenas e só, se incrementarão às escondidas até ao tempo em que rompem os remendos: pagam os miúdos, pagam as famílias mas, mais grave, pagará – pesadamente- a sociedade.

  3. Não sou propriamente um fã do modelo semestral. Acho que se pode experimentar, como se experimenta tanta coisa. E não deixo de salientar que, se pode efectivamente simplificar a avaliação, a vantagem desaparece se originar o reforço das avaliações intermédias, que tendem a ser ainda mais desgastantes do que os conselhos de turma de final de período.

    O único aspecto que assinalei, sem reservas, como positivo, é a (re)introdução de pausas intermédias, uma medida com óbvias vantagens pedagógicas. Era isto que pretendia colocar no topo, mas obviamente não expliquei a minha ideia com suficiente clareza…

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