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Topo e Fundo | As escolas criativas e o governo sem pressa

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No Topo: Escolas criativas

Várias notícias, ao longo da semana, foram ilustrando uma realidade que sempre caracterizou as escolas portuguesas: há ideias interessantes, projectos motivadores e resultados por vezes surpreendentes que vão despontando um pouco por todo o país, fruto da iniciativa e do esforço de professores e alunos: projectos  ambientais – reduzir e separar lixos, plantar árvores, criar hortas pedagógicas –, promoção do desporto e de hábitos de vida saudável para reduzir o insucesso e melhorar o ambiente escolar, parcerias com entidades locais que concretizam uma efectiva ligação da escola à comunidade. E muitas outras iniciativas, das quais que nem sempre se vai sabendo.

Muitas destas coisas fazem-se com recursos escassos, por vezes com apoios locais dos pais ou das autarquias. Não raro, sob o olhar desconfiado da tutela, que prefere que as escolas e os professores desenvolvam os seus projectos de acordo com os guiões e as prioridades políticas centralmente definidas pelo ministério.

A verdade é que a criatividade, a inovação, a interdisciplinaridade, sempre estiveram presentes nas nossas escolas, muito antes de os burocratas educativos se terem dedicado a inventar flexibilidades e falsas autonomias. Nunca precisou, para se desenvolver, de ordens superiores. Pelo contrário. O recurso à formatação e burocratização dos procedimentos, à papelada inútil que é imposta para que se demonstre o cumprimento das orientações governamentais, ao controleirismo obsessivo dos serviços: essa é a forma como se mata, em vez de a promover, a criatividade nas escolas.

No Fundo: O governo sem pressa

O ministro da Educação sempre foi tratado com uma benevolência talvez excessiva por parte dos professores. O homem é simpático e nós somos boa gente… E se de início desculpámos o tactear hesitante de um governante que nada sabia do sector quando iniciou funções, passámos depois a olhar com alguma condescendência para o ministro que pouco ou nada “risca” dentro do ministério que é suposto tutelar.

Contudo, se Tiago Brandão Rodrigues continua a ser uma nulidade do ponto de vista político, há muito que deixaram de ser inocentes e bem intencionadas as suas intervenções públicas. Diz, nota-se bem, o que lhe mandam dizer. Ou o que lhe é ditado pelo seu instinto de sobrevivência política. E foi assim que, em pleno Parlamento, fez notar, a propósito das negociações com os sindicatos sobre o tempo de serviço dos professores, que não está com pressa: tem todo o ano de 2019 para as fazer.

Uma posição incongruente com a pressa com que, em Dezembro, pretendiam antecipar essas mesmas negociações. Que deixa supor a vontade de continuar a política de “engonhanço” negocial que nos trouxe até aqui. E que, no limite, pode até querer dizer que reserva ao governo que vier a tomar posse no final do ano a incumbência negocial prevista na Lei do Orçamento.

Claro que esta posição também pode e deve ser vista como aquilo que provavelmente é: uma desconsideração aos professores e, de novo, um passar da bola para o lado dos docentes: se não estão satisfeitos com a situação, façam-no saber. A resposta compete, agora, e mais uma vez, aos professores.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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