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Topo e Fundo | Alunos com trissomia 21 no ensino superior e as agressões aos professores

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No Topo: Alunos com trissomia 21 chegam ao ensino superior

Não será a primeira vez que estudantes com trissomia 21 ou outros comprometimentos graves ao nível do desenvolvimento intelectual chegam ao ensino superior. Mas julgo que será caso único uma escola superior – neste caso o Instituto Politécnico de Santarém – criar um curso técnico superior especificamente orientado para estudantes com um grau de deficiência intelectual igual ou superior a 60%.

Para este curso em literacias digitais, fortemente orientado para o mercado de trabalho, os onze alunos foram selecionados através de entrevistas individuais. Nem todos concluíram o ensino secundário. Mas têm em comum a vontade de vencer este desafio. E já existem diversas empresas e organismos públicos interessados em recebê-los futuramente como estagiários.

Nem todos os jovens com défices cognitivos reúnem condições ou desejam, sequer, ingressar no ensino superior. É necessário resistir à tentação da “doutorice” ainda tão dominante entre nós assumindo que há muitas profissões que, não requerendo formação superior, são úteis e necessárias e como tal devem ser devidamente valorizadas. Ainda assim, construir respostas educativas com estreita ligação ao mundo laboral é de importância fundamental para estes jovens com necessidades muito especiais. Pois só desta forma podem conquistar a autonomia e a autoconfiança que permitam uma efectiva inclusão na sociedade em que vivem. É um objectivo cuja concretização plena está ainda distante mas, uma vez mais, são as escolas que vão abrindo o longo caminho a percorrer.

No Fundo: Continuam as agressões a professores

O último caso conhecido aconteceu na semana passada, mas só ontem se tornou notícia. Numa escola do Porto, um rapaz de 12 anos agrediu com murros e pontapés um professor de 63, depois de ter sido repreendido por ter entrado na sala de aula a jogar à bola e partido uma lâmpada. E não foi apenas o acto descontrolado da agressão inicial, um pontapé nos testículos que deixou o professor prostrado a contorcer-se de dores. Posteriormente o aluno voltou à carga, esmurrando o docente e saindo da sala a gabar-se de ter “partido o focinho” ao professor.

É evidente que um rapaz que age desta forma não estará mentalmente são. Que muita coisa terá falhado miseravelmente na sua educação. Que à negligência, aos maus tratos ou aos maus exemplos familiares se juntarão, provavelmente, as omissões de entidades públicas que existem justamente para detectar e intervir nestas situações. Sabemos também que, com a chegada da adolescência, a acumulação de frustrações, recalcamentos e outras perturbações se torna, para alguns destes miúdos infelizes e maltratados, verdadeiramente explosiva.

Sabemos disto tudo, mas ao mesmo tempo há outra verdade fundamental que é preciso reafirmar: a função dos professores não é enfrentar agressores violentos, nem terem de conquistar, pela força física, a sua autoridade sobre os alunos. Qualquer profissional tem direito a ser respeitado e a sentir-se seguro no seu ambiente de trabalho. Se um jovem descontrolado se mostra incapaz de respeitar os colegas, os professores e os funcionários, precisa obviamente de ser tratado. De ver avaliada a sua situação e eventualmente retirado à família, se esta se mostra incapaz de cuidar dele e de lhe transmitir regras mínimas de educação, respeito e civilidade. Mas enquanto isso não é feito, não se pode sujeitar quem estuda ou trabalha numa escola a tornar-se, de um momento para o outro, um saco de pancada.

Um caso triste e revoltante como o da Escola Francisco Torrinha não deveria nunca acontecer. Mas, tendo sucedido, deveria dar lugar a uma mensagem clara de repúdio e de solidariedade inequívoca com o professor agredido por parte do ministro da Educação, como é normal suceder em países civilizados. E uma garantia clara e imediata de que o aluno agressor, independentemente de tudo o resto, não voltaria a frequentar esta escola. Deveria, se tivéssemos ministro.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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