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Topo e Fundo | A recusa da recuperação parcial e o governo de enganos

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No Topo: Recuperação parcial não, obrigado

No final da semana em que termina o prazo para os docentes do quadro decidirem como querem recuperar os 2 anos, 9 meses e 18 dias que o governo entendeu conceder-lhes, destaco o caso de um professor que, em carta aberta às excelências que (des)governam a educação, assume que não quer o “prato de lentilhas” nem por inteiro nem às prestações: prescinde da esmola dos 1018 dias que o governo atribui aos professores como compensação por quase dez anos de congelamento das carreiras.

O professor em causa é Rui Madeira, director da Escola Artística António Arroio. O seu gesto não representa, segundo o próprio, uma crítica aos colegas que, zelando pelos seus interesses, entram a contragosto no jogo de escolher a forma como pretendem ser roubados pelo ME. É, acima de tudo, a expressão pública de um imperativo de consciência sentido e assumido por este professor.

Para a opinião pública, sobretudo para os mais reticentes em relação às exigências, consideradas excessivas, dos professores, fica o exemplo de coragem e de coerência. E a demonstração clara de que há causas e princípios que de que os professores não desistem. Nem só progressões e aumentos salariais movem a luta dos professores.

No Fundo: Um governo de enganos

A expressão é de uma deputada do PSD, mas creio que, independentemente do contexto de luta político-partidária em que surgiu esta semana, caracteriza adequadamente a política do actual governo em vários sectores. Entre eles, certamente, o da Educação.

De facto, se este sempre foi mais um governo de prometer do que de realizar, o período pré-eleitoral tem vindo a acentuar esta faceta: anunciam-se obras em escolas degradadas que depois não se concretizam; promete-se a contratação de milhares de assistentes operacionais em falta, mas os concursos são sucessivamente adiados; faltam professores e técnicos especializados e o governo de enganos finge que resolve os problemas com conversa fiada, sem nada de concreto fazer.

Por vezes, as promessas vagas dão lugar a um discurso manipulatório e mentiroso de que governantes se deveriam envergonhar. Foi o caso de uma entrevista recente do ministro da Educação a um órgão de comunicação espanhol. Sentindo que as suas declarações seriam menos escrutinadas do que se falasse para o público português, Tiago Brandão Rodrigues não se coibiu de dizer que o Governo aumentou o investimento em Educação para 5,5% do PIB. É mentira: os últimos dados disponíveis apontam para valores inferiores a 4%. E que necessidade haveria de afirmar que, quando se deu a Revolução de Abril, havia 45% de analfabetismo? Seria metade disso, o que ainda assim era suficiente para nos colocar na cauda da Europa. Para obter um valor tão elevado teríamos de recuar a meados do século XX. Faz algum sentido esta dificuldade em lidar com a objectividade dos números por parte de alguém que, na “vida real”, deu provas como cientista e investigador?…

A relação difícil com a verdade, por parte deste governo de enganos, pode ser um sinal preocupante: mostra que a estratégia política do PS se encontra cativa da ambição política do poder pelo poder. Em vez daquilo que é legítimo esperar de qualquer governo de esquerda democrática: que use o poder para melhor servir o país e os seus cidadãos.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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