Home Rubricas Topo e Fundo | A manifestação pelo clima e a falta de...

Topo e Fundo | A manifestação pelo clima e a falta de professores

183
0

No Topo: A manifestação pelo clima

As manifestações de jovens, predominantemente estudantes do ensino secundário, em defesa do clima e do futuro do planeta, já não são novidade. A adesão expressiva da passada sexta-feira a uma manifestação que deu a volta ao mundo parece ser sinal de que a mobilização dos jovens em luta pelo seu futuro é um fenómeno que veio para ficar. E ainda bem: já que os poderosos deste mundo parecem ainda não ter percebido a verdadeira emergência climática dos tempos em que vivemos, que seja a mobilização dos cidadãos, jovens e menos jovens, a colocar o tema na agenda dos problemas inadiáveis que urge resolver.

Claro que as greves em defesa do clima também têm os seus detractores. Que a rapaziada quer é faltar às aulas. Que os jovens que mais gritam em defesa do ambiente são por vezes os mesmos que sujam tudo à sua volta, que deixam as luzes acesas, que tomam infindáveis banhos de água quente. Contudo, ainda que parte disto seja verdade, essa realidade não nos deve desviar a atenção do mais importante: a luta contra as alterações climáticas e em defesa de um futuro sustentável não pode ser vista como uma guerra entre gerações. Comportamentos mais ou menos responsáveis podemos encontrá-los em gente de todas as idades. Mas as mudanças necessárias não passam apenas pelas atitudes individuais: são necessárias reformas políticas e económicas para travar o aquecimento global e a destruição de recursos naturais que alterarão irreversivelmente o clima da Terra. É isso que os jovens activistas climáticos, dando um bom exemplo da tão falada cidadania activa, nos estão veementemente a alertar.

No Fundo: A falta de professores

É uma realidade incontornável: se nos concursos para vagas anuais ainda não vão faltando candidatos, para fazer substituições temporárias, ou seja, para tapar os buracos que surgem ao longo do ano, cada vez que um professor entra de baixa ou de licença, as dificuldades são cada vez maiores. O que significa que o exército de reserva de professores desempregados e dispostos a tudo para conseguir mais um ou dois meses de tempo de serviço está a ficar cada vez mais desfalcado…

Esta realidade deveria demonstrar a quem planeia o futuro da educação e gere o mais precioso activo do sector – os professores – que o caminho que se segue é insustentável. Obrigar os professores mais velhos – alguns já sexagenários, outros desgastados e fragilizados pela doença –  a permanecer no activo, cumprindo em pleno os deveres de uma profissão especialmente exigente, só pode ter como resultado o aumento das baixas médicas. E transformar os horários destes professores em colocações precárias em horários incompletos, esperando que docentes desempregados venham de longe assegurar essas vagas temporárias, vai ser cada vez mais, sobretudo em determinadas regiões do país, uma missão impossível.

A solução de recurso para que os alunos não fiquem sem aulas até ao final do ano está a ser a distribuição das turmas pelos professores da casa, como serviço extraordinário. Mas sempre dependente da sua disponibilidade para aceitar a sobrecarga de trabalho.

Embora, em relação a este e outros problemas, nada haja já a esperar do actual governo, a verdade é que, no futuro, serão necessárias soluções mais ousadas. Se não se consegue ver para além do prisma economicista, então que se façam as contas como deve ser: não só aos custos das aposentações e de novas contratações, mas de todas as despesas que aumentam e dificuldades que se avolumam, de ano para ano, enquanto se empurram com a barriga os problemas que urge resolver.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here