Início Rubricas Topo e Fundo | A manifestação dos professores e a falta de...

Topo e Fundo | A manifestação dos professores e a falta de funcionários

307
0

No Topo: A manifestação dos professores

Culminando um processo negocial longo e infrutífero, ao longo do qual as expectativas dos professores foram sendo sucessivamente defraudadas, os professores de todo o país uniram-se para deixar, ao Governo, ao Parlamento, ao Presidente da República e ao país uma mensagem clara: não aceitam o roubo de mais de 6 anos do tempo de serviço para efeitos de progressão na carreira.

O desfile pela Avenida da Liberdade, culminando com a concentração no Terreiro do Paço, torna inevitável a comparação com os grandes protestos de 2008, contra um outro governo socialista, onde pontificavam José Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues. E embora estejam hoje no sistema menos 50 mil docentes do que havia na altura, impõe-se o desafio de, mesmo assim, encher a ampla praça lisboeta em frente ao Tejo, algo que só se consegue com um número expressivo de manifestantes.

A manifestação dos professores, mesmo sendo feita em condições difíceis – uma classe desgastada e envelhecida, o final de um período lectivo especialmente longo e desgastante, o sacrifício suplementar para os que se deslocam de longe – demonstra que, apesar de tudo, os docentes portugueses não desistem de reivindicar os seus direitos, a começar pela justa contabilização do tempo que trabalharam. Em ano de eleições, convirá aos deputados que se preparam para analisar tanto o decreto do governo como a ILC visando a recuperação do tempo de serviço ter isto em conta: estarão sob o olhar atento e vigilante de todos os professores…

No Fundo: A falta de funcionários nas escolas

Não são só os problemas profissionais dos professores que ensombram o final da legislatura no sector da Educação. Menos falados, menos visíveis, os assistentes operacionais asseguram quase todo o serviço não docente que não é menos essencial ao bom funcionamento das escolas. E também entre estes profissionais o mal-estar é evidente.

Desde logo, o número insuficiente de funcionários tem sido um problema recorrente na maioria das escolas e agrupamentos, para o qual o governo nunca encontrou uma solução capaz. O anúncio, em plena greve, de que iriam ser contratados mais mil trabalhadores, junta-se a muitas outras promessas idênticas que já pouca gente leva a sério. Porque, no final, prevalecem os truques habituais para fingir que se resolvem as situações, não as resolvendo: contratar tarefeiros a tempo parcial para substituir funcionários a tempo inteiro, integrar nos quadros pessoas que já trabalhavam nas escolas e contabilizá-las como novas admissões ou não considerar a necessidade de substituir funcionários em situação de doença prolongada.

Há um outro problema que afecta os funcionários das escolas: os baixos salários que quase todos auferem, em regra alinhados com o salário mínimo nacional. Embora a categoria profissional destes trabalhadores permita classificá-los como pessoal não especializado e portanto pagar-lhes pelos valores mais baixos das tabelas salariais da função pública, na prática o trabalho que muitos deles realizam diariamente está longe dessa indiferenciação. Há os que competentemente zelam pelo bem-estar e segurança das crianças nos recreios e outros espaços escolares. Os que apoiam e cuidam das necessidades pessoais de crianças dependentes ou com escassa autonomia. Ou até os que asseguram a manutenção dos edifícios, substituindo electricistas, carpinteiros, canalizadores ou outros técnicos qualificados que as escolas evitam contratar, poupando muito dinheiro com o recurso à prata da casa.

Seria de elementar justiça reconhecer alguma especialização de funções ao pessoal não docente que presta serviço nas escolas, valorizando, através de uma carreira profissional condigna, o seu trabalho e a sua dedicação.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

COMPARTILHE

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here