Início Rubricas Topo e Fundo | A importância dos exames e o não-estado da...

Topo e Fundo | A importância dos exames e o não-estado da Educação

163
0

No Topo: A importância dos exames

A saída dos resultados dos exames nacionais do secundário é um dos momentos altos que marcam o final do ano escolar. É a altura em que os finalistas deitam contas à vida. Em que uns reforçam as suas ambições universitárias enquanto outros começam, a contragosto, a rever em baixa as suas expectativas. Na verdade, a competição e a pressão da universidade desvirtuam uma avaliação externa que deveria servir primordialmente não para seleccionar os futuros universitários mas para certificar as aprendizagens do secundário.

Contudo, este ano os exames nacionais estiveram especialmente debaixo de fogo. Em primeiro lugar, porque diversos responsáveis ministeriais têm dado sinais de pouca simpatia com este tipo de avaliação, pouco compaginável com as estratégias e as realizações da flexibilidade curricular. E depois porque, dados os baixos resultados do ano passado, havia a expectativa de ver como correriam as coisas em disciplinas como a Matemática A, onde havia, além do histórico de más notas, um problema suplementar: a necessidade de conciliar duas versões distintas do programa da disciplina na mesma prova final.

Os resultados que ontem foram divulgados encontram-se, afinal, dentro do expectável. Uma ligeira subida das médias da maioria das disciplinas, a que se contrapõem algumas descidas. De uma forma geral, os exames foram considerados adequados, funcionando como um travão eficaz aos exageros facilitistas que a aplicação do “54” e do “55” nalgumas escolas parece estar a potenciar. Consensualmente aceites pela sociedade e pelas comunidades escolares, não parece que estejam criadas, tão depressa, as condições políticas para a sua eliminação. O que só pode satisfazer os defensores de uma escola pública de qualidade que, não trabalhando para os exames, também não os deve temer.

No Fundo: O não-estado da Educação

A semana política ficou marcada pela discussão parlamentar do estado da Nação – o habitual balanço do ano parlamentar, que este ano foi também um balanço da legislatura. Significativamente, num debate em que se falou de quase tudo, a Educação foi a grande ausente nas intervenções de todas as forças políticas.

Esta realidade não é verdadeiramente surpreendente porque há muito sabemos que o sector, fundamental para o futuro do país, tem estado no fundo das prioridades governativas. Senão vejamos: em que outra área da governação um primeiro-ministro se daria ao luxo de escolher um perfeito ignorante das matérias que iria tutelar? Sem dinheiro para gastar, sem respostas aos anseios e reivindicações dos professores em matérias como a carreira, o tempo de serviço ou as aposentações, sem capacidade para melhorar as condições de trabalho nas escolas, o Governo aplicou-se a trabalhar para as estatísticas: reduzir o insucesso e o abandono escolar precoce tornaram-se as prioridades da legislatura.

O resto foi sobretudo tentar agradar aos alunos e às famílias: aulas mais divertidas, aprendizagens mais fáceis, menos avaliações formais e mais pesquisas, projectos e trabalhos de grupo. Mesmo sem orientações claras da tutela, as escolas foram desafiadas a inovar em termos pedagógicos e curriculares. Foi prometida autonomia, mas nem todos se aperceberam do reverso da medalha: ela não iria trazer mais meios ou recursos, mas apenas a responsabilidade de arcar com as consequências – boas ou más – do experimentalismo feito em cima do joelho.

Ao fim destes quatro anos houve certamente alguns pontos positivos a apontar à governação no sector. Mas o que prevalece, em relação ao futuro, é um enorme ponto de interrogação.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

Tal como em anos anteriores, esta rubrica parte para férias numa altura do ano em que, naturalmente, os topos e os fundos da actualidade educativa começam a rarear. O reencontro com os leitores fica marcado para os inícios de Setembro. Boas férias!

COMPARTILHE

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here