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Topo e Fundo | A igualdade de género e a farsa carnavalesca

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No Topo: Igualdade de género

A luta pela plena igualdade de direitos e oportunidades para as mulheres, a persistência de comportamentos misóginos e machistas na sociedade portuguesa, a prevalência de números preocupantes no que diz respeito a crimes contra as mulheres – violência doméstica, crimes sexuais, discriminação, assédio – bem como a brandura e a displicência dos tribunais que julgam estes crimes, tudo isto foi amplamente discutido durante a semana que agora termina e durante a qual se celebrou, oportunamente, o Dia Internacional da Mulher.

Sendo a igualdade de género uma luta civilizacional que radica na em questões de cultura, educação e mentalidades, naturalmente que a escola deverá estar na linha da frente dos combates que continua a ser preciso travar. Para que, ao menos entre as novas gerações, se vão definitivamente superando os estereótipos de uma sociedade machista: a ideia da mulher como presa e objecto de prazer do homem, os trabalhos domésticos e o cuidado dos filhos como responsabilidade essencialmente masculina, a persistente discriminação laboral, ainda mais chocante quanto os níveis médios de qualificação escolar e profissional das mulheres tendem, nos dias de hoje, a ser superiores aos dos homens.

Mesmo entre os jovens, sabemos, por exemplo, que a violência no namoro é preocupante: não só pela sua frequência, mas pela forma como vai sendo naturalizada por rapazes e raparigas. Vemos que há ainda muitos rapazes com dificuldade em respeitar as raparigas e mulheres com quem se cruzam da forma como gostariam de ver tratadas a sua mãe ou irmã. Bem como raparigas ainda pouco conscientes do que são os seus direitos e, pior do que isso, descrentes da capacidade da sociedade e da justiça em os proteger e respeitar. São problemas a que nem a escola, nem a sociedade, muito menos os poderes públicos, se podem esquivar.

No Fundo: A farsa carnavalesca

Este ano, a semana de Carnaval foi francamente desinspirada e nem o tempo colaborou com os folguedos. No que diz respeito à Educação, e entre muitas actividades desenvolvidas com os alunos, ficámos a saber que ainda há escolas onde se pretende celebrar as “raças humanas” mascarando crianças de “africanos”. Uma ideia lamentável, desde logo porque evoca um conceito racista e ultrapassado – existem raças de cães, de gatos ou de diversos animais de criação, não existem raças humanas – e depois porque se traduziu numa prática de conotações racistas – brancos a pintar a pele de preto e a colocar adereços que pretendem reproduzir um estereótipo de “africano”.

No entanto, a maior farsa deste Carnaval não aconteceu nalgum dos muitos cortejos que se fizeram pelo país fora, mas no simulacro negocial entre o ME e os sindicatos dos professores. Apresentando mais uma vez a inaceitável proposta dos 2 anos, 9 meses e 18 dias, o Governo colheu a esperada rejeição sindical e converteu a sua proposta em decreto governamental, já aprovado em conselho de ministros.

Espera-se, naturalmente, que a questão da recuperação do tempo de serviço tenha novos desenvolvimentos em sede parlamentar. Mas o culminar deste longo processo negocial deixa evidente que este governo, tal como outros antes dele, nada de substantivo têm para dar aos professores. Mas este conseguiu andar anos a tentar disfarçá-lo. Pelo que podemos dizer que, ao contrário do que é habitual, o Carnaval serviu aos governantes, não para colocar a máscara, mas para deixar cair, de vez, os seus disfarces.

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

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