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Topo e Fundo | A greve às avaliações e os sindicatos ausentes da luta

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No Topo: Professores boicotam as avaliações em trezentas escolas

Há uma semana atrás, pouquíssimos professores apostariam em encetar uma greve às avaliações convocada apenas por um minúsculo, recém-criado e desconhecido sindicato. No discurso oficial dos sindicatos estabelecidos, dominava a ideia de explorar, até ao limite, a via negocial, para resolver os problemas e satisfazer as reivindicações dos professores. Também se falava na possibilidade de greve, mas só a partir de 18 de Junho.

Ora a verdade é que houve a percepção clara, da parte dos professores, de que este era o timing errado: uma greve às avaliações deixando de fora os anos terminais do básico e secundário, aqueles em que o atraso na saída das notas condiciona automaticamente os exames e, no caso do secundário, o sistema de acesso ao ensino superior, seria pouco mais do que inócua. A greve capaz de fazer mossa era agora – e foi essa a ideia que mobilizou, por todo o país, algumas centenas de activistas, que rapidamente mobilizaram milhares de colegas para a greve convocada pelo STOP.

A greve em curso, cuja dimensão que estará a surpreender ministério, sindicatos e provavelmente até os seus promotores, tem uma vantagem suplementar: como não foi inicialmente levada a sério pelo ME, este não se deu sequer ao trabalho de informar todas as escolas da sua marcação e também não suscitou, como seria seu direito, a necessidade de definição de serviços mínimos. Pelo que os professores poderão continuar, ao longo da próxima semana, a boicotar a realização dos conselhos de turma, sem que o ME possa tomar alguma iniciativa para os contrariar.

No Fundo: Sindicatos viram costas à luta dos professores

A intensificação do descontentamento dos professores e a sua transformação em contestação e luta pelos seus direitos têm evidenciado um crescente e preocupante desfasamento entre a classe e os sindicatos que a representam.

Perante a ausência de resultados das formas de protesto e luta tradicionais e o evidente esgotamento da via negocial, esperar-se-ia, da parte dos sindicatos, mais imaginação e capacidade estratégica para conceber e desenvolver novas formas de luta, bem como abertura a iniciativas dos próprios professores em defesa dos seus direitos. Em vez disso, temos assistido a mais do mesmo: uma completa subordinação à agenda de engonhanço negocial do ME, a insistência em lutas desgastantes e inconsequentes e a indefinição de prioridades reivindicativas e de objectivos claros a alcançar.

Lamentavelmente, a plataforma de sindicatos parece presa ao formalismo de uma agenda que é, cada vez menos, a que interessa aos professores. Algumas cúpulas sindicais permanecem há longos anos desligadas do quotidiano profissional da classe que representam, o que não as ajuda a perceber o seu sentir colectivo. O sectarismo, que leva a rejeitar excelentes iniciativas, apenas porque não fomos nós que as propusemos, faz o resto.

E, no entanto, os sindicatos são fundamentais. Os professores precisam de organizações fortes que os apoiem e representem, dirigidas por colegas com que se identifiquem. Quando voltaremos a ter sindicatos de professores sintonizados com a classe que representam?

António Duarte, professor e autor do blogue Escola Portuguesa

4 COMMENTS

  1. Não sei se fará falta o apoio desses sindicatos para podermos concretizar a ILC… lamento muito que não se tenham associado e ajudado. Mas se o conseguirmos – faltam 3500 assinaturas para um prazo a menos de um mês e mei0, certo? – mais relevância adquire esta luta que já ninguém e independentemente do objetivo de recolha das 20 000 assinaturas, nos pode retirar! Parabéns pela ideia, foi excelente!

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