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“Tomara eu que a sociedade cumprisse as regras que nós vamos ter dentro das escolas” – Filinto Lima

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Máscara obrigatória a partir do 2.º ciclo, o distanciamento possível, horários alargados, sala única para cada turma, lotações reduzidas em espaços como a biblioteca ou o bar são algumas das medidas adotadas pelas escolas para que 12 de março de 2020 não se repita, diz Filinto Lima, professor e diretor do Agrupamento de Escolas Dr. Costa Matos, em Vila Nova de Gaia, e presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP).

Estamos a uma semana do início das aulas. Como estão as escolas a preparar o início do ano letivo?
As escolas e os diretores de agrupamento estão a trabalhar há meses para o arranque do ano letivo. Não estivemos à espera dos documentos do Ministério da Educação. A Direção-Geral da Saúde enviou orientações há mês e meio, que seguimos para revisão e atualização dos planos de contingência, porque o manual [da DGS] com o título “Referencial Escolas” só nos chegou na sexta-feira.

E o que tem então sido feito?
Para concretizar, exemplos daquilo que estamos a fazer: estamos a criar em cada escola circuitos por onde os alunos e os professores possam passar – vai haver muito sentido único para evitar cruzamentos; alguns espaços vão ter lotação limitada, como as bibliotecas, o bar de alunos ou as salas de informática; algumas escolas alargaram o seu horário de funcionamento, começando mais cedo e acabando mais tarde; estamos a colocar álcool em gel nos diferentes espaços para que os alunos possam desinfetar as mãos; vamos atribuir uma sala a cada turma; o almoço poderá ser em regime de take-away. Há uma série de procedimentos que vão ser adotados para minimizar a possibilidade de contágio.

Sabemos que as escolas portuguesas têm realidades muito díspares de região para região. A generalidade das escolas está preparada para tomar essas medidas?
Isto tem que ver com a organização de cada escola, não tem que ver com mais investimento ou mais dinheiro, as escolas estão a reorganizar-se de acordo com as suas especificidades, respondendo e cumprindo as orientações da DGS.

Por exemplo, deixe-me dar um caso concreto que vai ser difícil de cumprir, que é o distanciamento de um metro em contexto de sala de aula entre os alunos. As salas de aula têm 50 metros quadrados ou menos, temos turmas com 28 alunos, algumas com 30, e esse distanciamento de um metro, em muitos casos, não vai ser fácil de cumprir, mas nós, mesmo assim, cumprimos as orientações da DGS, porque o que é dito é “sempre que possível”. Ou seja, não é uma norma imperativa, o ideal seria estarem a um metro, mas se não for possível não estamos a incumprir.

“No primeiro dia de aulas, o diretor vai dar a cada aluno um kit com três máscaras certificadas e reutilizáveis que vão ser usadas durante todo o primeiro período.”

Uma das medidas de que se tem falado e que ainda não se percebeu muito bem se e como vai acontecer é o do desdobramento de turmas. É viável?
Havendo desdobramento de turmas, a regra do metro de distância em sala de aula seria facilmente realizável, mas isso implicaria o dobro dos professores e o dobro das salas e isso é impossível. Nas escolas onde isso for possível, tudo bem, mas são pouquíssimas as escolas que não estão sobrelotadas. Para mim, essa solução seria a ideal, mas é inviável na prática.

Portanto, há um instrumento que ganha uma importância enorme no próximo ano letivo, que é a máscara. A máscara vai ser, e já é, o escudo dos nossos alunos, dos nossos professores e dos nossos funcionários e tem de ser trazida todos os dias para a escola. A partir do 2.º ciclo, se o aluno chegar à escola sem a máscara não pode entrar.

E como é que se garante que todos os alunos a trazem?
Claro que as escolas têm de encontrar alternativas para suprir esta carência, nomeadamente colocar máscaras descartáveis à venda na portaria, mas o que é verdade é que o aluno não pode entrar na escola sem máscara. Aliás, no primeiro dia de aulas, o diretor vai dar a cada aluno um kit com três máscaras certificadas e reutilizáveis que vão ser usadas durante todo o primeiro período. Cada máscara dá para usar 25 dias.

“Que ninguém pense que de futuro se vai repetir o dia 12 de março, antes do jantar, quando o primeiro-ministro disse aos portugueses que a partir do dia 16 de março as aulas iriam ser dadas a partir de casa.”

E isso vai acontecer em todas as escolas do país?
Sim, o Ministério da Educação reforçou o orçamento das escolas para comprarmos o chamado equipamento de proteção individual, onde estão incluídas as máscaras e é esse material que vamos dar aos nossos alunos.

Acha que vai ser fácil fazer os alunos cumprir todas as regras impostas, nomeadamente a do distanciamento físico?
Acho que os nossos alunos têm consciência cívica e sabem o momento que estamos a passar. Seguramente, os nossos pais em casa já sensibilizaram os seus filhos para o comportamento e as atitudes que devem ter em contexto de escola. Os nossos professores irão fazer o mesmo.

Mas não vai ser fácil, não é fácil para ninguém, nem para os adultos em contexto fora da escola, no trabalho, nos transportes, no hipermercado… Mas vamos apelar à consciência cívica dos nossos alunos e vamos criar regras e sobretudo passar essas regras para eles para que percebam que têm de as cumprir.

O objetivo é evitar a todo o custo que voltemos a uma situação de confinamento e ensino à distância?
Isso seria o ideal. É muito importante que comecemos pelo regime presencial e eu gostaria muito de prolongar este regime o mais possível. Nem quero ouvir falar no regime misto e não presencial, mas estamos prevenidos, as escolas públicas têm um plano de ensino misto e um plano de ensino não presencial. Não queria nada que tivéssemos de ir para casa e, se isso acontecer – misto ou não presencial -, terá de ser mediante um parecer da autoridade de saúde local, validado pela DGEstE regional.

Quer dizer que poderá acontecer numas escolas e noutras não?
Exatamente. Que ninguém pense que de futuro se vai repetir o dia 12 de março, antes do jantar, quando o primeiro-ministro disse aos portugueses que a partir do dia 16 de março, que era uma segunda-feira, as aulas iriam ser dadas a partir de casa. Agora, não vai ser assim, a decisão será local, é dentro da escola, pode ser uma turma a confinar e o resto das turmas continuarem na escola e isso mediante um parecer do delegado de saúde que terá de ser validado pela DGEstE regional.

O alargamento de horários nas escolas pressupõe o aumento de funcionários. Isso está assegurado?
Ora, muito bem. Reconhecendo que este Ministério da Educação já colocou nas escolas um número apreciável de funcionários neste seu mandato e facultou às escolas uma bolsa de recrutamento em que um funcionário, quando está doente, é substituído, é preciso não esquecer que o horário de funcionamento das escolas vai aumentar e os nossos funcionários neste ano vão ter uma tarefa acrescida, que é higienizar e desinfetar frequentemente os nossos espaços. Por isso, deixe-me dizer diretamente ao Ministério das Finanças que é preciso dotar as escolas de mais funcionários, sobretudo por estes dois motivos.

“Acho que vamos ter um arranque positivo, mas é preciso deixar clara uma coisa: não há risco zero. Tomara eu que a sociedade cumprisse as regras que nós vamos cumprir dentro das escolas.”

Também terão de exercer maior vigilância sobre os miúdos, para que mantenham a máscara nos intervalos e a distância física recomendada.
Já nem falo disso, mas, sim, vai ter de haver um redobrar da vigilância aos nossos alunos: atitudes, comportamentos, cumprimento das regras.

Há concelhos, como o de Cascais, que vão testar todo o pessoal docente e não docente antes do início do ano letivo. Parece-lhe que deveria ser uma medida a tomar a nível nacional?
​​​​​​​A Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia vai fazer o mesmo. Acho que deve ser uma opção de cada autarquia. Poderá dar mais segurança aos nossos profissionais e aos nossos pais, mas uma coisa é certa: eu posso estar negativo hoje e amanhã estar positivo.

Não acho má ideia cada concelho dar a possibilidade aos profissionais das escolas de fazer o teste gratuitamente, mas tem a eficácia que tem e não vejo necessidade de ser uma iniciativa de nível nacional. Até porque pode dar uma falsa ideia de segurança.

Como é que perspetiva este novo ano letivo?
Estamos todos na expectativa, mas é um ano letivo que foi muito bem preparado, com meses de antecedência pelos diretores e pelas escolas, é bom que se diga. Acho que vamos ter um arranque positivo, mas é preciso deixar clara uma coisa: não há risco zero. Tomara eu que a sociedade lá fora cumprisse as regras que nós vamos cumprir e fazer cumprir dentro das escolas, porque de nada vale que os nossos alunos se portem muito bem na escola e cumpram todas as regras e depois cheguem a casa e façam tudo ao contrário.

E tem confiança que esse arranque positivo acontecerá a nível nacional?
​​​​​​​Tenho. Eu falei com diretores de norte a sul do país e estamos todos em consonância. Fizemos tudo, preparámos tudo com as orientações da DGS, vamos cumprir e fazer cumprir as regras, mas não há risco zero, disso temos de ter consciência.

Os pais queixam-se de que têm pouca informação e num contexto destes isso cria alguma ansiedade. A comunicação com os pais não deveria ter sido antecipada para dissipar alguma preocupação relativamente a este regresso às aulas?
​​​​​​​O envolvimento dos pais está a ser feito por muitas escolas. Eu comecei a ouvir os meus pais em julho através das associações de pais e hoje mesmo vou ter uma reunião com eles em que lhes vou apresentar os vários documentos e explicar o que vai acontecer em cada escola.

Os pais estão a ser envolvidos, de forma diferente, é claro, pelas direções das escolas, mas há que encontrar um ponto de equilíbrio e só agora dispomos de toda a informação necessária a partilhar com os pais.

Nesta semana, antes de a escola começar, estarão a decorrer em todo o país as reuniões de pais com os diretores de turma e aqueles disporão de informação mais fidedigna e mais próxima da realidade.

Estamos todos a fazer uma gestão a ver a costa, é uma espécie de navegar à vista, não podemos fazer planos a longo prazo porque pode virar tudo de um dia para o outro.

Acredito que os pais estejam muito expectantes e ansiosos, mas essa ansiedade vai decrescer à medida que forem informados sobre as normas que as escolas estão a implementar. Os pais devem confiar nas escolas.

Fonte: DN

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