Início Editorial Tenho 40 anos e ainda faço trabalhos de casa…

Tenho 40 anos e ainda faço trabalhos de casa…

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tpc_paisAlguns, muitos (?) já tiveram este pensamento e já fizeram esta cara quando estão ao lado dos seus filhos a acompanhar os respetivos trabalhos de casa. Mas terá de ser mesmo assim?

Ponto prévio: os trabalhos de casa são e vão continuar a ser uma questão fraturante entre professores, psicólogos, pediatras e pais. Por isso foi com curiosidade que li os resultados da sondagem É a favor dos trabalhos de casa? realizada na passada semana. A minha opção é contrária à maioria dos votantes e neste artigo vou tentar justificar o meu ponto de vista.

Toda a minha argumentação parte de uma premissa da qual não consigo fugir, o excesso de horas que os alunos passam em ambiente escolar. Como podem verificar nos gráficos abaixo (Estudo comparativo da carga horária em Portugal e noutros países, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, de 2014) e nesta reportagem da TVI,Portugal é dos países da União Europeia em que os alunos mais horas passam na escola. Intitulei as nossas crianças de “Panelas de Pressão” num artigo escrito há algum tempo e que aborda esta temática com maior detalhe.

Carga Horária Total no Ensino Obrigatório

Carga horária Portugal_Finlândia e Bulgária

Mas vamos começar pela base, o 1º ciclo.

Como já referi, tenho uma filha que entrou este ano para o 1º ano. No pré-escolar passou os seus dias envolta em saudáveis “brincadeiras” pedagógicas e há cerca de dois meses migrou para a escola dos “sentados” e pela avaliação intercalar recebida, estamos a falar de uma criança perfeitamente normal, que conseguiu adaptar-se e acompanhar (até agora) às exigências do 1º ciclo.

No primeiro dia que teve trabalhos de casa, mal chegou a casa, foi a correr para o seu quarto super entusiasmada em realizar as tarefas dos grandes. Pois bem, em apenas 2 meses de trabalhos de casa diários, esse entusiasmo transformou-se em saturação, proferindo com alguma regularidade afirmações como: tu é que tens sorte papá em não teres trabalho de casa; estou cansada papá; ou eu já fiz isto na escola, não posso ir brincar?.

Dois meses… Bastaram dois meses para transformar uma criança super, híper, mega entusiasmada, numa criança saturada do trabalho escolar. Dá para pensar no que raio é que estamos a fazer às nossas crianças?

É fácil entender a reação da minha filha, ela passou de uma dose diária de “brincadeiras” pedagógicas para uma dose diária de trabalhos escolares com sistemáticos bónus de TPC, cansa qualquer um, mesmo uma criança interessada e focada para a aprendizagem.

Não sou professor do 1º ciclo, mas segundo me disseram, as mais recentes orientações visam os TPC apenas como compensação de algo que não foi realizado em horário letivo, ou seja, aqueles que ficam para trás têm de fazer um esforço suplementar para acompanhar os outros. Faz sentido! Se for assim e caso esteja enganado por favor informem-me, é que parece que estamos perante uma geração de professores que encalhou nas suas crenças pedagógicas, encarando a sua formatação superior como a única via para a aprendizagem.

Em Espanha o tema está na ordem do dia, estando a decorrer uma campanha intitulada “Pela racionalização dos trabalhos de casa no sistema educativo espanhol”. O vídeo está muito bem feito e merece ser visto e partilhado.

(retirado do Observador)

Na campanha, que foi pensada para as redes sociais e que em Espanha se está a tornar viral, um conjunto de pessoas discutem com alguém que não conseguem ver sobre a sua vida e o seu horário de trabalho. Ficam a saber que a pessoa do outro lado trabalha diariamente “8 horas, mais 3h em casa“. Esta diz-lhes ainda que “até aos fins de semana tem trabalho”, que nem nas férias tem descanso e que precisa de pedir ajuda a familiares para poder cumprir as tarefas. Quando instados a adivinhar quem se encontra do outro lado sugerem várias respostas: talvez um empresário, um cargo intermédio de uma empresa, um escriturário, um médico ou cientista. Mas a surpresa é grande: quem aparece é afinal uma criança.

Apesar do caso espanhol ser mais grave que o nosso, existem evidentes pontes de afinidade que devem fazer refletir toda a sociedade educativa.

Seria o primeiro a defender a realização dos TPC se as nossas crianças não “trabalhassem” tantas ou mais horas que muitos dos seus pais. Importa salientar que os pais é que são os adultos, e a palavra “adultos”, implicitamente refere a nossa capacidade para fazermos algo que nem sempre nos dá prazer.

No entanto, esta minha posição altera-se com o avanço cronológico das nossas crianças/ jovens. As exigências vão aumentando e é perfeitamente natural que o aluno precise de um reforço suplementar numa prática – e não aprendizagem – mais especializada. Outra confusão nos trabalhos de casa e que é tão bem explorada neste artigo Não sei fazer os TPCs, a minha mãe também não e o meu pai não está, por José Morgado.

Mas voltemos ao título deste artigo.

Muitos dos que têm crianças/ jovens em idade escolar, costumam terminar o seu dia verificando, controlando, acompanhamento e em alguns casos, realizando os trabalhos de casa dos seus filhos/ netos. Este segundo emprego dos pais, que se transformam em professores, aliados à frequência de atividades extra-curriculares, onde os papás continuam a ser o sistema de Taxi preferencial… Leva a um adiar das nossas próprias atividades extra-curriculares – fazer o jantar, por a mesa, arrumar a loiça, tratar da roupa, preparar os lanches/ almoços do dia seguinte, levar o lixo, passear o cão, etc- obrigando muitas vezes a serões de trabalho doméstico seguidos muitas vezes dos TPCs, agora sim para pais. E assim se passa o serão, “chorando” pela merecida espreguiçadela na apetitosa da chaise longue.

Mas devia ser assim? Não me parece.

Muito pais encaram o papel de encarregados de educação como os guardiões dos TPCs. É uma atitude nobre mas excessiva. Naturalmente que as crianças que ainda não sabem ler, precisam de um acompanhamento mais próximo. As restantes, e se forem perfeitamente normais – e quando digo normais incluo também aquelas que denotam algumas dificuldades mas são cognitivamente aptas – não precisam de um “candeeiro” a seu lado a abrir a boca de tédio e que ficam muitas vezes rabugentos.

Os trabalhos de casa são um momento de autonomia, fundamentais para o aluno refletir e verificar se adquiriu os conteúdos lecionados. Se os pais estiverem presentes, essa moleta vai dificultar a caminhada de alguém que não tem problemas de locomoção. Nos testes e nos exames, não vai lá estar o pai, a mãe, o tio, a avó ou o avô para esclarecer dúvidas, a criança/ jovem estará só e será sozinha que terá de resolver a situação. Não quer com isto dizer que os pais devam deixar a sua criança ao abandono, nem tanto ao mar nem tanto à terra, é preciso encontrar um equilíbrio e agir de forma proporcionada.

Podem consultar algumas dicas em Como ajudar as crianças com os trabalhos de casa.

Nota: o meu voto na sondagem foi para a realização de trabalhos de casa a partir do 2º ciclo, mas q.b.

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