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Tem a Palavra – Professora Fátima Mendes

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A DISCIPLINA NO JARDIM-DE-INFÂNCIA

imageA Lei-Quadro da Educação Pré-Escolar estabelece como principio geral que “a educação pré-escolar é a primeira etapa da educação básica no processo de educação ao longo da vida, sendo complementar da ação educativa da família, com a qual deve de estabelecer estreita relação, favorecendo a formação e o desenvolvimento equilibrado da criança, tendo em vista a sua plena inserção na sociedade como ser autónomo, livre e solidário” (Ministério da Educação, 1997, p.15). E um dos objetivos gerais pedagógicos refere que, a educação pré-escolar deve: “promover o desenvolvimento pessoal e social da criança com base em experiências de vida democrática numa perspetiva de educação para a cidadania” (Ministério da Educação, 1997, p.15).

No jardim-de-infância (estádio pré-operatório, segundo Piaget) verifica-se um desenvolvimento ao nível das capacidades cognitivas, morais, sociais, emocionais e comportamentais da criança, da sua autonomia e uma multiplicidade de relacionamentos sociais. Ou seja, a criança aperfeiçoa as suas atitudes e comportamentos, as suas capacidades e habilidades linguísticas, motoras e a imaginação lúdica. Manifestando deste modo, uma maior autonomia e determinação.

Nesta fase, de grande importância e impacto social, a criança aprende a viver de forma democrática, a respeitar o outro, a praticar a justiça, a responsabilidade, a tolerância, a solidariedade e a cooperação e ainda, a construir progressivamente, o seu código de valores. É esta participação democrática na vida do grupo que é determinante e fundamental para a sua formação pessoal e social.

É através das relações e interações sociais com os adultos, os pares e em grupo que a criança vai “ construindo o seu próprio desenvolvimento e aprendizagem” (Ministério da educação, p. 51). E vai assim, construindo referências que lhe permitem compreender o que está certo e errado, o que pode e não pode fazer, os seus direitos e deveres e também os direitos e deveres dos outros.

Na educação pré-escolar privilegia-se o desenvolvimento de atitudes, sendo este um contexto social e relacional facilitador da educação para os valores, de modo a que a criança cresça como cidadão livre, solidário e autónomo.

Neste sentido, acreditamos na extrema importância da educação de infância enquanto espaço de criação dos futuros alunos, futuros profissionais e futuros cidadãos conscientes e responsáveis.

A palavra disciplina tem, por norma, uma conotação negativa e é também, uma palavra pouco associada à educação pré-escolar. De verdade podemos dizer que, nesta fase do processo de ensino e aprendizagem, não é muito comum utilizar o termo disciplina. No entanto, ela faz parte da rotina de uma sala de atividades de um jardim-de-infância. É aqui que a criança aprende a aprender, adotando um caráter lúdico, institucionalizando o prazer de aprender, fundamental para promoção da autoestima e auto-confiança, impulsionadora de futuros sucessos educativos, em que a criança “desempenha um papel ativo na sua interação com o meio que, por seu turno, lhe deverá criar condições para que se desenvolva e aprenda” (Ministério da Educação, 1997, p.19).

Segundo Montessori (1958), citado por Nunes (2014, p. 7), a “disciplina não é, pois, um fim mas um caminho” que possibilitará à criança “saborear as alegrias da ordem interior, atingidas graças a conquistas sucessivas”. É neste sentido, que entendemos a disciplina e a trabalhamos diariamente, junto das crianças.

Numa sala de jardim-de-infância, grupo social alargado e privilegiado, deve-se promover a aprendizagem da vida democrática, e é fundamental a atitude do educador neste processo, já que a participação de cada criança e do grupo no processo educativo através de oportunidades de cooperação, decisão em comum de regras coletivas indispensáveis à vida social e distribuição de tarefas necessárias à vida coletiva constituem outras experiências da vida democrática proporcionadas ao grupo” (Ministério da Educação, 1997, p.36).

É natural e inevitável a existência de conflitos entre as crianças, numa sala de jardim-de-infância. O educador funciona como um mediador neste processo e, num espaço harmonioso, de segurança e confiança deverá criar um clima propício a que a criança se relacione com os outros, à existência de uma negociação de valores fundamentais a uma “socialização positiva” (Nunes, 2014, p. 18). É responsável por promover a discussão, o respeito pelo outro, pelas opiniões alheias, a autonomia, a confiança, a autoestima, a responsabilização, viabilizando maneiras de as crianças aligeirarem as próprias desavenças e acreditarem nas suas capacidades de resolução de problemas. E assim, aprenderem a relacionarem-se com os outros, a estarem e a agirem em sociedade, como cidadãos seguros, conscientes e justos, contribuindo para uma sociedade mais íntegra e mais solidária.

É importante e essencial que as crianças participem  na elaboração das regras da sala, sendo estas analisadas, discutidas e questionadas para um melhor entendimento e não vistas como uma imposição.

A criança deve, de forma individual e coletiva, participar ativamente na construção da sua própria disciplina, num ambiente propício e estimulador, com a criança no centro do processo educativo, respeitando as suas capacidades, desejos e necessidades, direitos e deveres.

O problema da disciplina é um assunto complexo que deverá envolver e dizer respeito a todos os intervenientes no processo educativo: crianças/alunos, pais, educadores, professores e comunidade em geral.

Gostaria de terminar esta reflexão com uma frase de Jean Piaget (citado por Montês, Gaspar & Piscalho, 2010, p. 42) “por mais liberais que os pais ou educadores queiram ser, não podem deixar de impor à criança durante os primeiros anos de vida, uma série de regras relacionadas com as atividades quotidianas”.

Acredito que só assim, poderemos contribuir para a construção de uma sociedade mais justa, mais tolerante e uma cidadania mais ativa.

Fátima Mendes

Bibliografia:

Ministério da Educação (1997). Orientações Curriculares para a Educação Pré-escolar. Lisboa: M.E./DEB-DEPE.

Montês, A. ; Gaspar, S. & Piscalho, I. (2010). O processo de elaboração e implementação de regras no jardim-de-infância. Interacções, 15, 41-54. [disponível em: http://www.eses.pt/interaccoes , acedido em 22/04/15]

Nunes, T. (2014). A disciplina na creche e no jardim-de-infância. Concepções e práticas das educadoras. Dissertação de mestrado, não publicada. Setúbal: Instituto Politécnico de Setúbal. [disponível em: http://comum.rcaap.pt/bitstream/123456789/6311/1, acedido em 09/03/15]

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