Início Rubricas Tem a Palavra – Professora Alexandra Lopes

Tem a Palavra – Professora Alexandra Lopes

146
0

Ai Que Prazer Não Cumprir Um Dever…

A propósito de indisciplina

crianc3a7as-pintandoAi que prazer não cumprir um dever… Paralelamente a outras leituras, o famoso poema de Fernando Pessoa supracitado recorda o efeito libertador da transgressão, o sabor deleitoso da prevaricação. A autodisciplina não parecer ser um dom natural no ser humano. Pelo contrário, o comportamento dos homens é naturalmente resiliente à ordem instituída.

Se pensarmos na História da humanidade vemos que uma das primeiras e mais relevantes obras da Antiguidade recorta precisamente uma dessas grandes figuras da rebelião. Evoco Antígona, a jovem que afronta a lei da cidade, imposta por seu tio Creonte, e segue as leis da sua própria consciência.

“Ai estes jovens!” ecoa como lamento intemporal antes e depois de Sócrates. Cada geração culpará sempre a indisciplina pela amargura da sua própria finitude. Esta questão comportamental inscreve-se em profundidade no conflito geracional. E já que nenhuma das partes em antagonismo deseja ceder lugar, o conflito torna-se inevitável. Os mais novos não querem obedecer, palavra que etimologicamente vem de ob audire, escutar o que vem de cima, e sentem que têm uma palavra a dizer. Os mais velhos não querem deixar de ser escutados e acreditam que só pela disciplina se pode discere, ensinar, alguma coisa a alguém. O tempo do devir é indisfarçavelmente agonístico.

Simultaneamente, se descentrarmos o olhar e deixarmos vaguear a observação, percebemos que a indisciplina não é exclusiva das gerações mais novas. Muitos adultos não conseguem impor a si mesmos a disciplina necessária para perder uns quilinhos, entrar em cessação tabágica, ou ignorar conflitos interpessoais. A inércia e o apetite transgressor são comuns a novos e velhos. Todos estamos sujeitos às pequenas viciosidades da existência. Cumprir custa e mudar é, de facto, muito difícil.

No entanto, para a maioria das pessoas, a subordinação vai sendo mais acessível à medida que a maturidade avança. Ripeness is all, lê-se em Rei Lear. De um juízo mais amadurecido pela experiência (a ripe judgment) emana normalmente mais disciplina. Se alguns já adquiriram uma boa dose na infância (porque algumas famílias consideram que um super-ego faz sempre muita falta às criancinhas…), outros, pelo contrário, veem-se na contingência de adoptar uma vida mais regrada por exigência do mercado laboral e por imperativo das engrenagens sociais em que se movimentam.

Voltando à questão da indisciplina juvenil, e assente o pressuposto da verticalidade e da horizontalidade da inércia e da transgressão no comportamento humano, importa verificar que a escola é o epicentro desse conflito entre o velho e o novo. A escola é o agon no qual digladiam o dever e o prazer, o trabalho e o descanso, o formal e o informal, o próprio e o impróprio.

Então, o que pode fazer quem salta quotidianamente para a arena? Como deve proceder quem foi socialmente investido para assumir o papel da autoridade? Que possibilidade de ação tem quem representa o passado e sabe que as gerações mais velhas estão sempre sob a divisa morituri te saluant face ao porvir?

Em primeiro lugar, como a contextualização inicial pretendeu salientar, os professores devem encarar a indisciplina com naturalidade. Dentro de certos limites, trata-se de um comportamento universal e expectável.

Em segundo lugar, os professores devem valorizar diariamente o papel da educação. O ímpeto juvenil é importante para a renovação, mas essa energia precisa de um caminho. O professor tem de professar convictamente o credo da sua missão: ex ducere, educar, trazer para fora, levar pelo percurso. Um docente assume-se como um profissional do otimismo, como alguém que acredita no futuro, que faz carreira na preparação do porvir.

Em terceiro lugar, os professores devem partilhar experiências porque, infelizmente, não há curso superior que os prepare cabalmente para as exigências do dia a dia numa escola.

Seguindo este último raciocínio, ousarei escrever mais algumas linhas, pois dessas dificuldades posso dar testemunho, uma vez que as vivi ao longo de duas décadas. O que lucrei em meu benefício foram duas ou três convicções fortes que me proponho dividir.

A primeira ferramenta de um professor é o afeto: conseguir gostar de cada um dos seus alunos (e note-se no composto verbal a incongruência desesperada da deliberação). É vital gostar dos indivíduos sem se deixar abater pela massificação dos grupos. Ser capaz comunicar com cada um. Chegar lá, ao ponto comum onde duas vidas humanas se intersecionam no tempo e no espaço. Transformando esta ideia numa máxima, diria que quem semeia estima, colhe disciplina.

É óbvio que os conflitos existem e existirão sempre. Recuperando a metáfora bélica, quem vive nas trincheiras do ensino não pode estar à espera de não ser bombardeado. Ao invés, está lá para ser atacado. É a sua condição que assim o determina. É previsível que o desacordo aconteça não por ser o indivíduo A, B ou C, mas porque um professor é um agente autoridade e, nessa condição, essas situações costumam acontecer.

A consciência do seu papel institucional é o escudo psicológico do docente, pois permite-lhe responder à indisciplina institucionalmente. Ou seja, no momento do conflito não é o indivíduo que está a ser questionado, é o professor no exercício das suas funções. Esta consciência permite “repreender da boca para fora”, mantendo a calma atuante da impessoalidade.

Do mesmo modo, um professor não deve admoestar o aluno, deve censurar o seu comportamento desviante como se essa atuação errada não fosse coincidente com a sua personalidade. O ideal é formular a repreensão de forma a que o comportamento negativo seja estranho ao agente da sua ação. Por exemplo, “Hoje não pareces tu, concentra-te para aprenderes melhor esta matéria” é muito mais eficaz do que um estridente “Cala-te!”…

Resumindo, para além de um otimismo à prova de bala e de uma dose generosa de inteligência emocional, um bom professor tem de lecionar boas aulas e saber demonstrá-lo tacitamente. Uma aula é um evento irrepetível. Bem preparada e cuidadosamente lecionada funciona como um antídoto contra a indisciplina. O entusiasmo, que em Íon é fruto de inspiração divina, no docente é produto de árdua pesquisa científica e de muita habilidade para adaptar o conhecimento ao público-alvo.

Por último, um professor tem de aprender a perder sem resignação. Há aulas que correm mal, alunos que não aprendem, seres humanos quase impermeáveis. Zeus instituiu assim, dolorosamente, a aprendizagem. As falhas inscrevem-se com sofrimento na memória mas ajudam, de erínias passam a euménides. Com o tempo, a paixão gera paciência.

Sem tirar gravidade à indisciplina no meio escolar, porque é um problema incapacitante que mina o quotidiano de professores e alunos, importa saber apartar as águas. O silêncio nem sempre é de ouro dentro de uma sala de aula. Alguma agitação revela simplesmente vida. (Andorinhas. Vá-se lá silenciar as andorinhas.) A indisciplina que se exibe na sua face mais terrível é pouco frequente. Nem todos os alunos indisciplinados são verdadeiramente inensináveis, desrespeitosos e agressivos. Muitos são apenas avessos à disciplina, como todos nós.

Alexandra Lopes

COMPARTILHE

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here