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Tem a Palavra Mário Costa – O Ensino… e a indisciplina

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Tiro o meu chapéu ao colega Mário Costa que faz uma excelente análise das causas disciplinares e aponta um rumo com o qual me identifico.

 

O Ensino… e a indisciplina

Mário CostaVive-se, em Portugal, uma grave crise de indisciplina nas salas de aula, ou de falta de autoridade por parte dos professores. De tal forma que esta falha grave compromete todo o processo de ensino-aprendizagem, põe em causa a qualidade do ensino que existe em Portugal e o futuro do nosso país, indissociavelmente ligado à qualidade da educação da população.

Mas, a autoridade do professor e a disciplina na sala de aula, não são coisas que se entreguem de bandeja, que se decretem ou mesmo que se conquistem num curto espaço de tempo. É verdade que podem, devem e têm de ser tomadas medidas para obstar a que o problema siga o seu caminho e continue nas mesmas proporções, ou mesmo ainda piore.

O ministro Nuno Crato, por exemplo, fez uma alusão ao problema e enunciou algumas medidas para o combater. Na prática nada se fez e tudo continuou na mesma, com os professores a debater-se com situações inauditas e chocantes e as escolas sem a paz e a normalidade de que precisam para atingir os seus objetivos.

Na verdade, há mais do que um problema de falta de autoridade dos professores nas nossas salas de aula. O problema ultrapassa as questões disciplinares e remete-nos para questões que lhe estão a montante e dizem respeito ao sistema de ensino, aos currículos escolares e a problemas sociais, naturalmente…

Não custa perceber que é impossível às escolas portuguesas manterem este sistema educativo anacrónico sem ser de uma forma forçada e autoritária, tendo em conta a concorrência que é feita aos alunos pela enorme dinâmica, atratividade e interesse das múltiplas solicitações da sociedade atual e os seus problemas também…

O papel do professor na sala de aula tem de mudar. Não são aceitáveis as aulas dirigidas e explicativas para grandes grupos de alunos heterogéneos que constituem as cada vez maiores turmas das escolas portuguesas.

Tem de ser o aluno que procure o professor e não o professor que procure o aluno. Como os professores dizem: não se consegue ensinar quem não quer aprender.

O currículo escolar tem de ser cada vez mais individualizado. Cada aluno deve ter o seu currículo. O professor com o aluno deve definir de entre os interesses deste, o que o jovem pode e tem de aprender. Isto não é ficção, é uma realidade que acontece noutras latitudes.

Nuno Crato limitou a educação artística e musical e reforçou a carga das disciplinas de português e matemática. Com o atual ministro – e bem – fala-se no regresso da música e da arte às escolas e não pode ser de outra forma: são dos principais focos de interesse dos alunos… como o desporto.

O reforço das disciplinas de português e matemática converte-se numa verdadeira vacina de efeitos contraproducentes. Se é verdade que são disciplinas estruturais, também é verdade que são disciplinas instrumentais. A língua portuguesa deve ser dada a partir dos interesses e necessidades dos alunos e de outras disciplinas que cativem mais os alunos. À matemática é necessário tirar a carga negativa e abstrata que lhe está associada, desmistificando a sua aprendizagem e aplicando-a à realidade, à resolução de problemas concretos.

Só por interesses particulares se compreende que se perpetuem nos programas de português os mesmos autores e obras que se estudam há dezenas, apetece dizer centenas, de anos. Que se repitam conceitos do 1º ciclo aos últimos anos do secundário e que a maioria dos alunos nunca acaba por aprender a utilizar. Que a matemática seja um bicho-de-sete-cabeças, onde fatalmente os alunos são reprovados.

A aprendizagem de línguas é indispensável. A utilização das TIC (tecnologias de informação e comunicação) e o seu ensino são, da mesma forma, naturalmente indispensáveis e têm de regressar ao lugar que já ocuparam nos currículos.

E tudo isto tem de ser compaginado com um menor número de aulas, com mais liberdade e prazer, menos pressão e menos avaliação.

Temos de transformar as salas de aulas das nossas escolas num lugar de aprendizagem e de prazer e não num verdadeiro campo de batalha em que estão transformadas.

Mário Costa, professor

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4 COMMENTS

  1. Peço desde já desculpa, não é minha intenção ferir susceptibilidades, mas se há algo que me aborrece profundamente, é o facto da Educação, ser a única área, onde qualquer um é especialista. Parece-me a mim, que toda a gente tem a solução para melhorar o sistema educativo. Penso, que qualquer docente concorda com o conjunto de motivos que justificam a crescente indisciplina nas escolas, que existe necessidade de rever práticas, currículos , de mais formação e outras coisas mais. O que não acho aceitável, são as opiniões gratuitas, que todos os professores exercem a profissão de acordo com as práticas do século XIX. Que os alunos não aprendem, porque o professor não se enquadrou nas vivências dos jovens e na realidade do século XXI. Felizmente, conheço muitos professores que abrem mão, de muito do seu tempo pessoal, para inovar e proporcionar experiências educativas significativas e diversificadas aos seus alunos, inclusive, face aos parcos recursos das escolas, pagam o material do seu bolso. O que eu gostaria como docente, é que, antes de se mudar a cor do verniz ao sistema educativo e de lhe colocarem uns pensos rápidos, com medidas avulsas e populistas, se fizesse uma reflexão e análise sérias, antes de delinear um novo caminho. No entanto, baseada apenas na minha experiência, não vejo como a melhoria do nosso sistema educativo, possa passar pela alienação do nosso património linguístico, da mesma maneira que, transformar a escola em ATL, seja a fórmula mágica para travar o insucesso e a indisciplina. Aprender e trabalhar por prazer é fantástico, mas também nos compete formar os alunos para o amanhã e este, vai exigir-lhes trabalho, empenho e resiliência.

    • Não fere Cassilda, é a sua opinião como o Mário tem direito à dele. Mas por curiosidade, o que entende por especialista?

  2. …há nitidamente hoje nas escolas falta de solidariedade misturada com alguma cobardia ,ou quem sabe já são a falta de valores que não foram transmitidos aos filhos que agora são professores…enfim…finalmente chegámos ao “mata e esfola”!

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