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Tem a palavra Helena Silva | A realidade surreal.

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Na sala de aula, um menino estava sempre a puxar o sutiã a uma colega. A miúda pediu para ele parar e o rapaz não o fez. Então ela queixou-se ao professor que estava na sala de aula e ele pediu para “ignorar”. O menino acabou por rebentar o sutiã da miúda e ela reagiu dando-lhe dois murros. A encarregada de educação, quando foi chamada à escola, teve a impressão que todos estavam contra a menina e desculpabilizavam o menino. A mãe do menino chorava e o olhar do pai dele transparecia raiva e vergonha. O professor evitava o contato visual com a mãe do menino, que olhou para o diretor. A mãe da rapariga argumentou que ela apenas se defendeu contra o assédio sexual feito por um colega, apesar da diferença do porte físico entre ambos (o rapaz era uns 30 cm mais alto do que ela e duas vezes pais pesado). Se o professor responsável por eles na sala de aula não se importou, como deveria reagir a menina? Deixá-lo brincar com o sutiã dela daquela maneira? E se fizessem o mesmo a uma professora? Seria um caso para “ignorar”? A mãe ameaçou apresentar queixa contra a escola e advertiu o menino de que, se ele voltasse a assediar sexualmente a sua filha, apresentaria uma queixa contra ele à polícia.

De facto, é chocante a permissividade revelada em relação à atitude do menino. As pessoas pensam que não tem mal nenhum porque se tratam de duas crianças, mas as coisas não são bem assim.

Eu passei por uma situação semelhante: durante uma aula em que os alunos estavam a trabalhar em grupo, um rapaz pôs a mão na “passarinha” de uma colega. Ela começou a chorar e a praguejar, mas eu vi que a rapariga estava perturbada. Alguns alunos, talvez com a intenção de desestabilizar, começaram a pressionar-me para pôr a miúda na rua por dizer palavrões. Eu respondi que iria tirar a situação a limpo, afirmando que eles não dão ordens ali e que, se continuassem, seriam eles os expulsos da sala de aula. Um aluno acabou por denunciar o colega e eu afirmei que agiria em conformidade. Na minha participação, relatei o que se passou, denunciando não só o rapaz que fez o delito, mas também a atitude chocante do colegas, insensíveis ao sofrimento da miúda, que tentaram induzir a professora a tomar uma atitude errada.

O que é que a escola fez? O rapaz foi suspenso durante um dia e nada se fez em relação aos outros miúdos, que, a meu ver, tiveram uma atitude tão errada como o rapaz que desrespeitou a colega. Muita condescendência existe em relação aos alunos penalizadores que se alimentam deste ambiente de permissividade, o qual estimula as atitudes desviantes e cria precedentes.

Isto também é um total desrespeito à professora, pois os alunos que desafiaram a sua autoridade não foram devidamente punidos. A sorte desta gente foi a mãe da miúda não ter apresentado queixa às autoridades competentes. No final do período, o circo continuou, pois a diretora de turma afirmou que o rapaz não fez a brincadeira de propósito. “Foi sem querer”, disse ela. “Eu também redigi a participação sem querer”, respondi.

Após terminarem as reuniões, um grupo de cobras cuspideiras estavam reunidas com um elemento da Direção na sala de aula, afirmando que eu tinha passado “quase toda a gente”. Eu sei disto porque apanhei o ninho de cobras a destilar veneno em flagrante. Nesse grupo estava a tal diretora de turma. No entanto, considero que “vozes de burras não chegam ao céu”. A mim, pareceu-me que elas estavam furiosas porque não tinham “ponta por onde pegar…”

Eu previ que as coisas não iriam ficar por aqui, acabando mais tarde por receber um recurso de uma outra mãe, reclamando do facto do seu filho ter obtido um três à minha disciplina, alegando que ele merecia um quatro (isto relativamente a um outro aluno de outra turma). Claro que eu fundamentei a minha posição, recorrendo ao que estava escrito no Decreto-Lei nº 17 de 2016 e nos Critérios de Avaliação. De nada serviu. Apenas houve um colega que me defendeu, pois o resto do conselho de turma votou a favor da mudança da nota do aluno, desrespeitando o trabalho de uma colega. Depois querem o respeito dos alunos…

Eu só acho estranho receber-se uma reclamação deste género, não existindo reclamações por parte dos pais quando os motivos são mais graves.

Ignoro o que está por trás disto. No entanto, sei que existem professores que estabelecem alianças com encarregados de educação de modo a manipulá-los contra os próprios colegas. Já tive conhecimento de processos disciplinares movidos contra professores que foram investigados a fundo, descobrindo-se que foram colegas que incentivaram os pais a apresentar uma queixa contra a professora. Planos dentro de planos e esquemas dentro de esquemas… Assim consegue-se que os bons profissionais sejam tratados como criminosos, enquanto que os maus profissionais continuam a movimentar-se à vontade, arranjando-se maneira de ninguém lhes pegar… A nossa classe é mesmo uma vergonha!!

Helena Silva

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